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Na poesia de Carolina Barreto, as tensões entre o fazer sentir e o fazer sentido

Por Marisa Loures

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A escritora e professora juiz-forana Carolina Barreto apresenta “Rito” e “Passos”, obras poéticas lançadas pela editora TextoTerritório – Foto: Divulgação

Na poesia de “Rito” e de “Passos”, obras lançadas em junho pela editora carioca TextoTerritório, a poeta juiz-forana quis explorar tensões entre o fazer sentir e o fazer sentido. O primeiro título nasceu em 2008. O segundo, em 2009. A sonoridade associada às relações existentes entre o Latim e a Língua Portuguesa era o eixo central de seus escritos naquele período. Depois, começa a ganhar espaço o trabalho com a visualidade das palavras. “Em ‘Rito’, exploro de maneira mais intensa os limites da linguagem frente ao sentir, de forma que o poema se torne ele próprio uma experiência sensorial. Em ‘Passos’, além de os poemas serem mais concisos, prefiro trabalhar a linguagem como um lugar de assombro, o que também não deixa de ser uma forma de apelar para os sentidos das pessoas que irão ler os textos”, explica Carolina Barreto.

Ao falar sobre como as duas obras se relacionam e quais inquietações estão presentes em cada uma delas, ela chama atenção para mais uma diferença. Enquanto em “Rito”, o eu que enuncia os versos aparece de forma mais dispersa, o que dificulta a delimitação dessa voz poética, em “Passos”, ao contrário, ele se torna mais presente e definido. Nesse caso, a autora buscava construir um percurso em que a vida pudesse interpelar essa voz, ressignificando continuamente o caminho precário e instável edificado pela palavra.

“Rito” é estruturado a partir de sete movimentos sistematicamente nomeados com palavras iniciadas por C: Casca, Ceifa, Cerne, Cimo, Cera, Cascalho e Cisma. Segundo a escritora, a ideia era que os sons se repetissem e o significado “levasse a uma reflexão sobre a impermanência das formas e dos sentidos”, relacionando-os à natureza e a experiências sensoriais. Carolina queria explorar sons, cores e formas. E “Passos”, conforme aponta o professor e editor Alexandre Faria, apresenta uma poesia que se constrói em torno de um movimento circular que tensiona forças antagônicas. Em alguns momentos, lançando o leitor para dentro e despertando uma sensação de segurança; em outros, projetando-o para fora, diante da vastidão inquietante o mundo.

Carolina é professora e realiza pós-doutorado em criação literária e formação de escritores no Programa de Pós-Graduação em Letras – Estudos Literários, da UFJF. Também é autora de “Dois (não pares) (Funalfa; Anome Livros, 2009), lançado em parceria com André Capilé, “Voragens” (Funalfa, 2012) e do ensaio “Perifagia – comendo pelas beiradas” (Bartlebee, 2018; TextoTerritório, 2025). Além disso, participou da antologia de contos “Só agora vejo crescer em mim as mãos de meu pai” (Edições Pasárgada, Lisboa, 2010), organizada por Ozias Filho.

 

Marisa Loures – “Rito” é estruturado a partir de sete movimentos sistematicamente nomeados com palavras iniciadas por C: Casca, Ceifa, Cerne, Cimo, Cera, Cascalho e Cisma. Conte-nos sobre o surgimento dessa estrutura. O que ela revela sobre o processo de construção do livro?

Carolina Barreto – Consigo me lembrar que escolhi essas palavras porque queria que o sons [s] ou [k], presentes no grafema “C”, estivessem presente nas palavras que nomeariam esses movimentos, ao mesmo tempo em que o significado delas levasse a uma reflexão sobre a impermanência das formas e dos sentidos. Além disso, essas palavras vieram de um campo semântico ligado, direta ou indiretamente, à natureza, partindo de algumas experiências sensoriais que tive, incluindo aquelas vivenciadas em meio urbano. A partir disso, busquei explorar os sons e as cores, bem como a fragilidade, a persistência e a mutabilidade das formas sugeridas nesses vocábulos.

E o que você pretende alcançar com essa escolha poética e sistemática?

Anteriormente, os livros que publiquei foram coletâneas de poemas e prosas poéticas escritos em um dado período de tempo. Eu queria experimentar algo diferente, que trouxesse novos desafios para mim. Por isso, pensei numa forma de estruturar o livro, de modo que as partes trouxessem perspectivas diferentes dessa experiência com a natureza que comentei anteriormente, mas que não deixassem de dialogar entre si. Além das sete partes, as pequenas prosas, “Prólogo” e “Epílogo”, entrariam no livro como uma forma de abertura e encerramento, num percurso em que o eu se dispersa e se dilacera diante de experiências sensoriais que buscam diferentes forma de criar uma conexão intensa com o mundo que o cerca. Assim, “Rito” foi o primeiro livro que construí como um projeto estruturado em torno de uma ideia, cujas partes que o compõem seriam capazes de propor outras camadas de sentido a serem consideradas ao longo da leitura.

livro Carolina Barreto Divulgacao
Capas do livros (Foto: Divulgação)

A palavra “rito” evoca uma ideia de transformações simbólicas. Em que medida os movimentos refletem um percurso interior ou simbólico que você̂ propõe ao leitor?

Gostaria de propor um percurso a partir da abertura, em consonância com a voz do eu que se dispersa ao longo do livro. Acho que o percurso que proponho é as pessoas irem abandonando a necessidade de criar um sentido estável para o texto e, ao mesmo tempo, irem criando espaço para o sentir. Acredito que a noção de impermanência e a crença na precariedade da nossa compreensão da vida podem estar relacionadas ao que você disse sobre transformação associada à palavra “rito”, mas não só do ponto de vista simbólico. Ao recorrer aos sentidos, penso que o corpo em sua concretude material também é afetado.

Os desenhos de Felipe Moratori se amalgamam aos poemas, compondo uma unidade estética. Como foi essa parceria e como o diálogo entre imagem e palavra contribui para a criação de “um universo intenso e preciso”?

Acredito que o fato de o Felipe Moratori ser um leitor muito bom e de eu gostar bastante do estilo dele ao desenhar, principalmente os pequenos detalhes que podem ser desconcertantes, fez com que a parceria que fizemos em 2013, se eu não estiver enganada em relação à data, fosse muito feliz. Pedi que ele fizesse uma imagem para cada movimento sem especificar o que queria para cada uma delas, pois acredito que, quando convido alguém para fazer parte de um livro em que estou trabalhando, quero que a visão dessa pessoa acerca dos meus textos também colabore para o resultado final da obra. Por isso, foi uma alegria muito grande ver o resultado do trabalho de leitura do Felipe por meio de cada um dos desenhos.

“Estas são as faces da minha fúria”. É com esse verso que você abre Passos. O que esse verso de Ana Cristina Cesar representa dentro do seu livro e de que forma ele orienta o caminho que a sua voz percorre ao longo da obra?

Essa escolha foi feita onze anos depois que escrevi “Passos”. Portanto, apesar de já conhecer um pouco da obra de Ana Cristina Cesar em 2009, esse verso não orientou o meu processo de escrita. Contudo, quando li o poema “Pour Mémoire”, sabia que o verso em questão seria a epígrafe que estava procurando. Desse modo, escolhi esse verso mais pela sugestão e pela provocação que a expressão “faces da minha fúria” traz em si do que pela possibilidade de que isso pudesse representar algo dentro do livro.

Além de poeta, você é professora e realiza pós-doutorado focado em criação literária e formação de escritores no Programa de Pós-Graduação da UFJF. Como essa sua atuação, que integra teoria e prática por meio das oficinas literárias, define ou orienta o seu processo de escrita poética? Você enxerga sua poesia também como uma investigação?

Não sei se consigo responder a sua pergunta, relacionando-a às minhas obras recém-publicadas, porque essa relação entre a prática docente das oficinas e a minha escrita é posterior à escrita de “Rito” e “Passos”. A relação entre escrita literária e docência também veio se alterando ao longo dos mais de dez anos em que trabalhei com oficinas literárias. Foi somente a partir de 2021 que comecei a pensar na criação como algo que pudesse ser trabalhado dentro das Faculdades de Letras e em Programas de Pós-Graduação. Só consegui desenvolver minha pesquisa institucionalmente em 2024, com o início de meu pós-doutorado. Portanto, foram muitas transformações ao longo de todo esse tempo. Posso dizer que estar em contato com outras pessoas que escrevem ou que gostariam de escrever textos literários e conhecer seus diferentes processos criativos proporciona diálogos bastante significativos, independentemente se ocorrem dentro ou fora das universidades. Tenho encontrado um campo para pesquisa e experimentação metodológica para as oficinas bem interessante no pós-doutorado e, além disso, as duas disciplinas que ministrei foram fonte de muito aprendizado. Por isso, pensando no livro que venho escrevendo desde o início do estágio pós-doutoral, a relação entre teoria e prática na sala de aula e na pesquisa está sendo fundamental para a construção dos poemas. Além disso, os diálogos com as pessoas que estiveram presentes nessas disciplinas e também na pesquisa de Iniciação Científica coordenada pelo professor Dr. Alexandre Faria têm influenciado fortemente o meu trabalho com a palavra. Assim, ouvir e ser ouvido é muito importante, a meu ver, nos processos de criação. Com isso, acredito que o processo criativo é também um modo de refletir e de construir conhecimento sobre o mundo, podendo assumir formas bastante diversas.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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