
“Toda boa história começa com uma mentira, e assim se faz uma Nação”. Não resisti. Precisei começar este texto com a frase dita por Atena. Ela dá aula de História em uma escola da Rede Pública de Ensino das Ilhas dos Afortunados, uma ex-colônia portuguesa fictícia, localizada no meio do caminho entre América, África e Europa. Assim como Aquiles, seu filho adolescente, fiquei em choque com tais palavras insólitas proferidas por uma professora. Mas também fiquei curiosa para saber aonde essa mulher rebelde iria chegar, o que significa que a estratégia criada por Breno Botelho para abrir “Pilares” (Patuá, 176 páginas), seu romance de estreia, foi acertada. A sentença carrega uma provocação potente, capaz de seduzir o leitor.
“Há um impacto quando uma professora de história fala em ‘mentira’, e acredito que reflete o estado atual de coisas dos nossos tempos. Além de uma tensão entre a História com H maiúsculo e a ‘verdade real’, um tema que também aparece entre as grandes inquietações do Direito, há uma sensação cada vez maior do público de desconfiança sobre as instituições ditas ‘oficiais’ por uma série de razões. Não apenas sob a perspectiva de que ‘o sistema’ está escondendo algo do grande público, mas principalmente de que estas falharam, e, provavelmente, nunca se esforçaram em ter sucesso, em entregar o mundo que lhes foi prometido. O pontapé inicial da trama já dá o tom desse mundo”, explica o escritor.
E o quanto desse ambiente criado por Botelho é ficção e o quanto é releitura crítica do mundo que conhecemos? Faço esse questionamento, pois, apesar de imaginárias, as Ilhas Afortunadas carregam referências ao colonialismo, às diásporas atlânticas e às feridas históricas da escravidão. Quem assume a narrativa é Aquiles. Ele não tem muitas perspectivas com relação ao país. Nesse momento, sua preocupação é fazer as provas do colégio e tocar a vida como qualquer menino da idade dele. Até que a mãe é convidada para compor o governo do Duque, que é reeleito com promessas de mudanças. “A consequência dessa escolha é que nos permite mergulhar nas camadas que formam essa sociedade e no mal-estar dos nossos tempos”, afirma o autor.
Breno Botelho tem formação em Direito e atua como assessor jurídico no Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro. E onde entra a literatura nessa história? Ele é curador de um clube de leitura que discute Direito e Literatura, realizado na Livraria Favorita, da cidade de Três Rios. Mas seu envolvimento nesse universo não para por aí. O jornalista Marcelo Duarte, da série de livros “o guia dos curiosos”, assina a orelha da obra e, por meio dele, descobri que nosso autor é figura cativa em qualquer evento literário do país. E tem mais! Antes de ser escritor, é um bom leitor.

Marisa Loures – O quanto em “Pilares” é ficção e o quanto é releitura crítica do mundo que conhecemos?
– A melhor fonte de criatividade para um escritor é a própria realidade. Queria liberdade total para essa aventura literária, então propus a criação de um lugar no mundo completamente ficcional, mas que, ao mesmo tempo, estivesse em sintonia com o espírito do nosso tempo e fosse orgânico com as suas próprias belezas, misérias e ressentimentos. Isso acabou influenciando nas escolhas de lugar – no meio da rota dos navios do tráfico de escravizados -, o tempo da trama – contemporânea aos nossos dias -, o histórico daquele lugar. Bebi de muitas fontes ao longo do processo de escrita, muitas vezes com um filtro mais ácido, ao me debruçar sobre peculiaridades históricas, conflitos, e figuras reais. Até o bairro de Pilares, subúrbio do Rio de Janeiro e local de criação da minha família, entrou no caldeirão. Dar vida à Gloriosa República foi, ainda que trabalhoso, uma grande diversão.
Atena é descrita como uma professora carismática, insubmissa e capaz de tensionar discursos oficiais pela via pedagógica. Essa personagem dialoga com figuras reais que te marcaram como estudante ou leitor? De onde ela vem?
– Atena é a síntese de muitos professores que me marcaram ao longo dos anos, tanto reais quanto ficcionais. Cito, por exemplo, o grande professor John Keating, eternizado por Robin Williams em “Sociedade dos poetas mortos”. Essa ideia de professor como uma força da natureza é muito forte, ainda sempre enfrentando toda a sorte de problemas e arbitrariedades. Queria construir uma personagem notável e cansada desse papel de mera resiliência que lhe é imposta. Há uma curiosidade na construção da personagem. Assim como a Atena luta por mais espaço e protagonismo durante a trama, houve esse mesmo movimento nos processos de releitura e reescrita do manuscrito. “Insubmissa”.
A decisão de Atena de integrar o governo reacende dilemas clássicos entre idealismo e poder. Como foi construir essa tensão? Há, no romance, uma reflexão sua sobre o papel do intelectual em estruturas políticas?
– Acredito que o mote do romance, essa escolha de Atena, nasceu de algum jantar de família cuja provocação provavelmente não deu em nada concreto além de conversas acaloradas. Mais do que o papel do intelectual em estruturas do poder, especialmente de uma elite que muitas vezes é alheia aos problemas e receios reais do povo, o romance faz uma provocação sobre as nossas escolhas, livres e espontâneas, no mundo em que vivemos. Atena fez a escolha dela, outros personagens seguiram outros caminhos, e eis que surge o conflito inevitável.
Aquiles parece confrontar a história oficial a partir da convivência com a própria mãe. Por que era importante narrar esse aprendizado político pela perspectiva de um adolescente?
– A decisão de narrar a história através da perspectiva de um adolescente trouxe uma oportunidade: trazer um humor mais ácido para a trama. Busquei criar um adolescente ainda não corroído pelo cinismo da vida adulta e, portanto, sem qualquer compromisso com as amarras sociais. Eu tenho um senso de humor muito peculiar e acredito que essa insolência adolescente é uma grande ferramenta para escancarar e declarar os absurdos da forma como efetivamente são. Há muitos Duques por aí e não podemos jamais dourar a pílula naquilo que está errado. O deboche é uma grande arma contra a perversidade e ornou com a proposta de narrativa.
A estrutura do romance é atravessada por passado, presente e futuro convivendo no mesmo plano. O que te motivou a trabalhar essa costura temporal e o que você buscava revelar sobre memória, apagamentos e continuidade histórica?
– Eu tenho um profundo incômodo com a forma como os Duques por aí constroem e deturpam esses planos temporais. Vendem um passado grandioso que não existiu, e muitas vezes não faz o menor sentido. Culpam os problemas do presente como consequência de ideias e a existência de grupos que teriam enfraquecido os supostos ideais fundadores e propõem uma visão torta de sociedade para o futuro. Além disso, também me incomoda a falta de combatividade de determinados segmentos sociais para a defesa de marcos civilizatórios e direitos adquiridos, todos com muita luta, e o fato de não compreenderem que não há nada garantido. A luta deve ser constante.
Na orelha do livro, o jornalista Marcelo Duarte nos conta que, sempre que alguém pede a ele um conselho para se tornar escritor, ele sugere que a pessoa se torne, primeiramente, um bom leitor. Pelo que ele diz, foi isso que você fez. Quais leituras, autores e tradições literárias te conduziram a “Pilares”?
– O próprio Marcelo Duarte foi essencial para a minha formação de leitor com “O guia dos curiosos.” A leitura é essencial para o processo de escrita, e foram muitos livros antes e durante esses quase dois anos de escrita e reescrita. A decisão de narrar a história através da perspectiva de um adolescente surgiu, por exemplo, após a leitura do incrível “Primavera num espelho partido”, obra-prima do Mario Benedetti. Outro livro essencial foi “O vendedor de passados”, do José Eduardo Agualusa, que foi trabalhado no clube de leitura da Livraria Favorita, em Três Rios/RJ. Noemi Jaffe “Escrita em movimento”, e Umberto Eco, “Seis passeios pelos bosques da ficção”, também foram companhias constantes. A leitura permite a abertura de novas possibilidades de ideias, sensações e técnicas de escrita, e o compartilhamento dessas impressões em um coletivo foi essencial para, enfim, dar início à escrita de “Pilares.”
Desde 2023, você é curador de um clube de leitura que envolve Direito e Literatura. Gostaria que falasse sobre a contribuição desse espaço coletivo de leitura para a sua forma de narrar, construir conflitos e elaborar questões éticas dentro de “Pilares”.
– Fui apresentado ao movimento “Direito e Literatura” dentro da Escola de Ciências Jurídicas da Unirio e me apaixonei à primeira vista. Há uma conexão muito forte entre ambas as áreas e trazer a discussão para um clube de leitura, um espaço extraordinário de trocas e aprendizado, reforça a necessidade de mais transparência no debate jurídico e menos cinismo. O manto da opacidade do Direito não me interessa. Aprende-se tanto ou mais sobre os conflitos cotidianos, as nossas contradições, mazelas e a nossa busca incessante por soluções em obras como “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, “O Senhor das Moscas”, de William Golding, “O céu para os bastardos”, de Lília Guerra, e “Desterros”, de Natalia Timerman. A Livraria Favorita (Três Rios/RJ) tem um clube de leitura que completou dez anos agora em agosto, e fiquei muito feliz ao poder contribuir um pouco nessa arena. O próprio clube de leitura salvou o livro! Precisava de algo que pudesse amarrar a narrativa e, após alguns meses de rascunhos apagados e vazio de ideias, uma frase dita no encontro sobre “O processo”, Franz Kafka, atingiu-me como um raio e ganhou as páginas.
Seu romance de estreia é lançado em um momento de grande debate sobre democracia, reescrita de narrativas e revisão histórica. Como você espera que “Pilares” dialogue com leitores que vivem em um Brasil igualmente atravessado por contradições?
– Não pretendo dar respostas, mas apenas dialogar com as inquietações dos leitores sobre como chegamos até aqui e o que pretendemos fazer a respeito. Cada escolha é importante, e as consequências podem transformar o mundo inteiro.





