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O direito de seguir adiante

"O direito de ir e vir é garantido por lei, mas, na prática, andando pela cidade, ele só se realizará quando o ambiente urbano for pensado para todas as idades."

Por Jose Anisio Pitico

As pessoas, de um modo geral, andam com muita pressa na cidade. Poucas são aquelas que olham para os lados. O celular capturou a nossa atenção. Não enxergamos as pessoas reais. Nesse turbilhão de gente, tem pessoas que caminham devagar – não porque querem, e sim, porque o tempo já lhes impregnaram um outro ritmo de ser e de andar. Em meio às calçadas irregulares, ônibus com motoristas (alguns) que não esperam e semáforos super ligeiros, as pessoas idosas travam, dia sim, e em outros também, uma silenciosa batalha pelo direito mais simples e essencial de todo ser humano: o de seguir adiante. Falar de mobilidade urbana na velhice é falar de dignidade. É reconhecer, publicamente, que cada passo dado, carrega histórias, carrega memórias, transporta trajetórias inteiras.

Envelhecer é um destino comum a todos nós. O espaço público – a cidade – que acolhe as pessoas idosas é a mesma que recebe o futuro de todos nós. JF, como muitas cidades brasileiras, ainda é feita de desníveis urbanos: ônibus com degraus altos para embarque e desembarque que alguns motoristas nem sempre param perto do meio-fio; calçadas, de novo, que se desfazem. Esses marcos na cidade parecem ser detalhes desprezíveis, mas, não são, principalmente, para quem tem mobilidade reduzida; são, de fato, barreiras reais para a autonomia dessas pessoas. Cada buraco na calçada, no passeio; cada falta de rampa; cada semáforo rápido demais se transforma em um limite imposto à cidadania dos mais velhos.

O direito de ir e vir é garantido por lei, mas, na prática, andando pela cidade, ele só se realizará quando o ambiente urbano for pensado para todas as idades. Ainda não é. A pessoa idosa não precisa de privilégios, e não é disso, que estamos falando. A pessoa idosa exige respeito. Precisa e reivindica um banco à sombra onde ela possa descansar. Um ônibus com embarque acessível; uma calçada nivelada que não possa representar uma provável imobilidade no leito hospitalar ou ficar deitado numa cama em casa. O envelhecimento da população brasileira foi tema da redação do Enem, no domingo passado. O que atesta a presença cada vez maior das pessoas idosas no nosso dia a dia.

No cotidiano de nossas cidades. Inclusive na nossa. Caros leitores e leitoras, vamos mudar o nosso olhar. Vamos prestar atenção naquele senhor que espera o sinal abrir para atravessar a rua; vamos prestar atenção naquela senhora que hesita, insegura, passar diante de uma calçada esburacada. Tanto esse senhor, como essa senhora, cada um deles carrega o retrato que a cidade pode – e deve – ser: um espaço de cuidado, um espaço de encontro, um espaço de pertencimento.

Garantir o direito de seguir adiante é garantir o direito de viver plenamente em qualquer idade. É permitir que o caminho, mesmo que lento, porque já correu demais, seja livre e seguro. O verdadeiro progresso de uma cidade, como a nossa, não se mede pela régua da pressa, de quem vai chegar primeiro, como se estivéssemos numa grande competição esportiva. Mede-se o grau de cultura cívica de uma cidade pela dignidade com que as pessoas idosas são consideradas e continuam andando – passo a passo – no ritmo próprio(subjetivo) de cada uma.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar e mantém o canal Longevidades no Youtube (@Longevidades). Contato: (32) 98828-6941

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