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Ensaio para a empatia

Quando a dor é de outro, mas poderia ser nossa: e se Juliana Marins fosse filha de cada um de nós? Na coluna deste domingo, o jornalista Marcos Araújo reflete sobre a tragédia que abalou o país.

Por Marcos Araújo

Juliana Marins Redes Sociais
Que a dor não seja combustível para julgamentos. Que a justiça investigue o que deve ser investigado, e que, se houver culpa na demora do socorro, haja responsabilização. (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Poderia ter sido diferente. O resgate demorou. Há indícios de negligência. Houve tempo para salvar, e as horas se perderam. Mas ao invés de nos calarmos diante do luto de uma família, preferimos julgar. E é sempre ela quem vira alvo: a mulher que ousou sair de casa, que decidiu viajar sozinha, que acreditou ser dona do próprio corpo e do próprio caminho.

As redes sociais, esse tribunal onde ninguém escapa ileso, se apressaram a culpar Juliana. “Se estivesse dentro de casa, nada disso teria acontecido”, disseram. Como se o lugar da mulher fosse o enclausuramento. Como se liberdade fosse um privilégio exclusivamente masculino. 

Que a tristeza desse caso não se transforme em moralismo barato. Que a dor não seja combustível para julgamentos. Que a justiça investigue o que deve ser investigado, e que, se houver culpa na demora do socorro, haja responsabilização.

Mas quero, com este texto, fazer um exercício de me colocar no lugar do outro, um ensaio para a empatia, essa virtude tão escassa no mundo de hoje. Também como pai de uma jovem, desejo me colocar nos lugares do pai e da mãe de Juliana.

Quando soube que a brasileira estava morta, imediatamente pensei em seus pais. Pensei no sofrimento deles ao se lembrarem da voz da filha dizendo que era hora de partir, de ver o mundo com os próprios olhos e os pés firmes na terra estrangeira. Imaginei como, apesar do coração apertado pela preocupação, devem ter sentido orgulho ao ver a menina deles, mochila nas costas, pronta para ganhar o mundo.

Pensei em como deve ter sido a despedida no aeroporto: o que foi dito na presença um do outro, como foi a sensação de dizer o último “eu te amo”, de sentir o calor do último abraço, de suportar aquela pontada na alma no instante em que o avião partiu. Jamais poderiam imaginar que a filha não voltaria mais para casa. 

Colocar-me no lugar desses pais me aproximou dessa família. Por isso, penso que, aos que usam a internet para destilar ódio, esse seja um exercício válido, o de tentar olhar essa trágica situação com outro olhar, como se Juliana também fosse filha de cada um de nós.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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