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Virada de chave

“Se a morte é inevitável, o melhor que se pode fazer a respeito dela é encará-la como algo natural, que faz parte do milagre de estar vivo”. Leia na coluna deste domingo, do jornalista Marcos Araújo, que reflete sobre a morte precoce de Preta Gil.

Por Marcos Araújo

Ampulheta Pixabay
Talvez seja na certeza da finitude que se encontre a força para buscar uma vida mais plena (Foto: Pixabay)

Se a morte é inevitável, o melhor que se pode fazer a respeito dela é encará-la como algo natural, que faz parte do milagre de estar vivo. Sei que isso não é fácil de aceitar. Essa virada de chave exige tempo e talvez aconteça só com a maturidade, quando a certeza da finitude se torna cada vez mais evidente. É nesse momento que essa compreensão, aos poucos, pode ganhar mais clareza. 

Para quem é mais jovem, a morte ainda é um mistério incompreensível. É tanta vida que pulsa, que ela sequer faz parte do horizonte para quem está aprendendo a viver. Por que resolvi falar sobre a morte? Porque, nesta semana que passou, o Brasil perdeu Preta Gil, uma mulher jovem, cheia de vida, cuja partida pegou a todos de surpresa. Apesar de a gente saber que ela estava doente, a notícia de sua morte abalou quem acompanhava sua busca pela cura. 

As pessoas se acostumaram a ver a artista associada à alegria, à vitalidade e à superação. E talvez, por isso, no imaginário coletivo, a filha de Gilberto Gil sairia curada dessa luta, retornando  ao curso da vida com a força que sempre demonstrou. Ela vinha sendo exemplo de coragem e esperança para muitos. 

Quando alguém com apenas 50 anos se vai, isso serve de pausa para reflexão. É como se a vida, por um instante, tirasse o pé do acelerador para chamar sua atenção: o que você fez até aqui para dizer, com sinceridade, que a vida tem valido a pena? Ou ainda: o que você pode começar a fazer agora para tornar seus dias mais significativos, a ponto de que, quando sua hora chegar, esse momento de passagem seja visto pelos outros como um instante de paz, de desfecho de uma vida plena e bem vivida? 

Sei que não existem receitas para isso. E, embora tenha consciência desta escolha, de que a vida precisa ser melhor vivida, poucos sairão vitoriosos dessa empreitada. Isso porque o caminho é cheio de imposições que fogem ao controle das pessoas e que, inevitavelmente, as afastam desse propósito. 

Reconhecer o limite da existência pode, de alguma forma, trazer mais apaziguamento diante do fim, uma melhor compreensão sobre o valor de viver o presente, além de uma aceitação mais serena da morte como parte do ciclo de vida. Talvez seja na certeza da finitude que se encontre a força para buscar uma vida mais plena.

Marcos Araújo

Marcos Araújo

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