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A cidade e o cidadão


Por CARLOS MAGNO A. DE ARAUJO -PROFESSOR DE GEOGRAFIA

06/01/2013 às 07h00

Em meio aos enormes avanços técnico-científicos da segunda metade do século XX, as cidades se tornaram o locus privilegiado da atuação do capital na sua busca incessante do lucro. No alvorecer do século XXI, mais da metade dos mais de sete bilhões de habitantes do planeta vive em cidades, o que denota um desafio hercúleo para os gestores públicos e a sociedade civil, na organização do espaço urbano. Todavia, no aparente caótico processo de crescimento das cidades, outro ator protagoniza, entre os meandros da política, a organização do meio urbano e o modo de vida imposto à sociedade. Trata-se do grande capital, das grandes corporações e dos bancos apátridas, ávidos por novos mercados e oportunidades de parasitar nações inteiras. O resultado é um esvaziamento do campo e um inchaço das cidades, que passam a constituir espaços segregados, onde a classe trabalhadora e os desempregados ocupam as áreas desprezadas pelo capital ou que apresentam algum tipo de risco à ocupação.

Outrora, na transição da Idade Média para a Modernidade, as cidades se consolidaram como importantes centros de troca e de reprodução das relações sociais e de poder, mas o campo ainda desempenhava um papel proeminente, pois dele dependia o crescimento ou a retração da cidade. Agora, com o uso da ciência e da técnica, só há carência de víveres para aqueles que não podem pagar.

Das cidades globais, como Nova York, Londres e Tóquio, partem as ordens que irão determinar a dinâmica de funcionamento das demais cidades na escala do mundo. A necessidade de fluidez obriga a construção de infraestruturas de circulação que possibilitem a circulação do capital e o aprisionamento de populações inteiras, que, pela incapacidade de se deslocarem, devido aos custos proibitivos dos transportes, acabam por se confinar em seus guetos, distantes de representar qualquer ameaça às classes médias consumidoras de mercadorias e serviços, que sustentam o sistema.

Nesse contexto de urbanização e crescimento urbano, cabe uma reflexão: a cidade, na sua origem, a da pólis grega, espaço político por excelência, era a cidade do cidadão, da participação, embora, mesmo naquela época, poucos pudessem efetivamente participar das tomadas de decisão. Hoje, o que observamos, obviamente não sem resistência por parte de muitas organizações da sociedade civil, é uma imposição de um modo de ser urbano estranho aos interesses, à história e à cultura de muitos povos. O mercado, avassalador nas suas estratégias de reprodução ampliada do capital, se associa recorrentemente ao Poder Público e organiza o espaço urbano de modo a facilitar seus objetivos. O comércio de rua dá lugar aos shoppings, as ruas dão lugar a avenidas, as praças são cercadas por arranha-céus. Um aglomerado de pessoas vive o urbano de modo fragmentado. Essa organização espacial tende a criar desmobilização social e arrefecer o debate em torno de que tipo de cidade queremos. Até quando iremos nos submeter a uma lógica que secundariza a cidade como o espaço do cidadão?