Danos à saúde mental
Estudos mostram que política, crime, corrupção e demandas ambientais afetam a saúde mental sem que haja sinais de mudanças nas políticas públicas
Na sua edição de julho, a revista científica Nature Medicine apresentou um estudo que merece reflexão. Desenvolvido por 41 estudiosos de América Latina, Europa, África e Ásia – incluindo pesquisadores brasileiros -, ele revela que os fatores políticos, ambientais e sociais de um país influenciam, de forma significativa, o estado de saúde mental e físico, ocasionando maiores índices de declínio cognitivo e quadros de demência.
Na prática, os resultados sugerem que exposições estruturais combinadas, além do estilo de vida individual, interferem no processo de envelhecimento, variando bastante entre os países. Há um cansaço em relação aos problemas na política – no caso do Brasil a polarização -, poluição, crimes e corrupção. O estudo destaca que os aspectos negativos da instabilidade política, da desigualdade social e da corrupção que vivemos na sociedade contemporânea realmente afetam sua saúde para pior.
Houve ensaios de políticas públicas voltadas para a saúde mental, mas estes, embora alguns em andamento, estão a reboque dos próprios fatos. Dos problemas apurados pelos pesquisadores, vários deles estão no cotidiano sem perspectiva de solução de curto prazo. Outros, pelo descaso das estruturas de poder, e mais um tanto em razão do desentendimento sobre a saúde mental. Ela é grave, mas uma expressiva maioria desconhece ou prefere não avaliar as suas consequências.
No caso da política, as pesquisas de opinião pública já constataram esse cansaço, mas, quando se avaliam os atores capazes de dar fim ao nós contra eles, as listas se desidratam. E mais, alguns políticos, mesmo com perfil identificado com a moderação, buscam no extremo o apoio que lhes falta para alcançar os postos que pretendem.
A própria população, quando indagada, não escapou da dicotomia Lula-Bolsonaro. Ambos, mesmo diante de todos os desgastes possíveis, ainda são os nomes mais citados, o que faz deles, ainda, potenciais candidatos ou maiores apoiadores dos projetos eleitorais para 2026.
Nesse caso, a solução é de longo prazo, e as urnas do próximo pleito poderão jogar luzes nesse impasse. Mas a pesquisa apontou outros pontos de tensão que precisam ser levados em conta. A demanda ambiental é uma pauta permanente. O Congresso aprovou uma lei ampla e permissiva sobre a questão ambiental. O presidente Lula, na última sexta-feira, sancionou o texto, mas impôs 63 dos quase 400 dispositivos da proposta. A questão se volta, de novo, para o Congresso, que pode derrubá-los ou mantê-los.
Outro ponto de comprometimento da saúde mental é a violência. Trata-se de uma questão endêmica, que já não se situa apenas nas grandes metrópoles. O crime avança pelo país afora. O jornal “O Globo” revelou na edição do fim de semana que o Brasil tem 64 facções criminosas em atuação. Os dados foram levantados junto aos ministérios públicos e governos estaduais e indicam que 12 desses grupos já se espalharam por mais de uma unidade da federação. O PCC já estaria controlando até mesmo prisões na Argentina.
Enquanto isso, está emperrada no Congresso a discussão sobre a Proposta de Emenda à Constituição que trata da segurança pública, apresentada pelo Governo. O texto acolheu ideias de vários entes federados, mas ainda não foi aprovado por razões meramente eleitorais. Os governadores, embora usem o argumento de perda de poder em favor do Governo federal, usam o modelo pare e siga, isto é, mesmo tendo suas propostas inseridas no texto, não liberaram suas bancadas para aprovar a PEC.
Ao fim e ao cabo, por conta das eleições de 2026, o Parlamento não avança em projeto de tamanha relevância. Aliás, sequer o rejeita, preferindo mantê-lo em banho-maria.