Uma fenda. 72 vidas. Uma decisão regional.
“A fenda é geológica, histórica e moral”
Em apenas 48 horas, mais de 220 mm de chuva. Em fevereiro de 2026, o mais chuvoso da história, Juiz de Fora viveu sua maior tragédia climática: 65 vidas perdidas só no município, e 72 em toda a Zona da Mata. Bairros isolados, milhares sem teto, e uma cicatriz aberta no Morro do Cristo que não deixará esquecer.
A encosta rasgada é mais do que um dano geológico. É o símbolo de décadas em que a tensão entre expansão urbana e risco foi deliberadamente ignorada. “O Cristo nunca tinha dobrado os joelhos”, disse Marcus Pestana, capturando o espanto de toda uma cidade. Desta vez, a tragédia não escolheu CEP: atingiu bairros de classe média e nivelou a percepção coletiva de que ninguém, em nenhuma encosta, estava verdadeiramente seguro.
No campo técnico, Carlos Eduardo Manera, presidente do Sinduscon, aponta que o setor formal opera sob licenciamento rigoroso; Daniel Rigoli, ex-presidente do Clube de Engenharia, pede debate qualificado por dados, longe de bodes expiatórios. O essencial, porém, é convergente: o problema é sistêmico. Precisamos enxergar o elefante inteiro e não apenas a parte que entrou na nossa sala.
Juiz de Fora é “um rio cercado de montanhas” que cresceu décadas a fio sem respeitar esse terreno. Ubá, Matias Barbosa e outras cidades da Zona da Mata compartilham a mesma vulnerabilidade: crescem ao longo de rios, subindo as encostas de morros.
A tragédia não pode gerar apenas respostas municipais. O relevo íngreme, os rios que transbordam, as encostas habitadas são desafios regionais que exigem planejamento regional. A reconstrução é uma oportunidade rara para articular municípios, estado e governo federal em torno de um modelo territorial comum para toda a Zona da Mata.
Enquanto as feridas ainda são visíveis do Parque Halfeld, o momento de agir é agora. Se 72 mortes não bastarem para produzir consenso, muito pouco terá sido aprendido. A fenda é geológica, histórica e moral. E ela atravessa muito mais do que uma encosta.
*Paulo Villela é ex-presidente do Clube de Engenharia de Juiz de Fora, professor da UFJF (1978 – 2018) e doutor em Engenharia de Sistemas e Computação.
Esse espaço é para a livre circulação de ideias e a Tribuna respeita a pluralidade de opiniões. Os artigos para a seção serão recebidos por e-mail (leitores@tribunademinas.com.br). Para a versão impressa devem ter, no máximo, 30 linhas (de 70 caracteres) com identificação do autor e telefone de contato. O envio da foto é facultativo e pode ser feito pelo mesmo endereço de e-mail.