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Tecnologia polêmica


Por BRUNO KAEHLER

30/10/2016 às 07h00- Atualizada 30/10/2016 às 15h29

juizParalelamente à reta final dos grandes campeonatos do país, o trabalho da arbitragem é colocado em cheque por polêmicas como a do Fla-Flu na Série A, sob uma espécie de lupa em cada decisão tomada na cancha. Por consequência, a forma da implementação da tecnologia volta à pauta das principais mesas de debate desportivo. Diante deste cenário, a Tribuna conversou com o comentarista da Rádio CBN Juiz de Fora, Álvaro Quelhas, árbitro por 23 anos, e o atual árbitro auxiliar da Federação Paulista de Futebol (FPF), Herman Brumel, nascido e formado na Princesa de Minas, que não apenas avaliaram o auxílio, como anteciparam projeto da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) já para 2017, denominado “Árbitro de vídeo”, sob estudo da Fifa.

Sobre a utilização, a dupla concorda sobre a necessidade. “Acho que o uso da tecnologia é inevitável, principalmente nos grandes campeonatos. O uso está definido, o que tem que ser visto é a forma que a tecnologia de imagem vai ser usada. Há lances que o simples uso da imagem não resolve, porque existem questões de interpretação. E quem vai interpretar, o árbitro central ou o externo? Isso implica também no tempo do jogo, porque se o árbitro sair de campo, a partida terá que ficar parada. No vôlei e no tênis ainda há um limite, então isso pode acontecer no futebol. Tem que existir um parâmetro para não ficar se repetindo”, opinou Quelhas.

Brumel rememorou iniciativa da entidade máxima do futebol brasileiro, liderada pelo ex-presidente da Comissão Nacional de Arbitragem, Sérgio Corrêa, que visa à mudança no esporte, destacando as informações extra-oficiais já divulgadas. “O primeiro país em que está sendo experimentado é a Holanda, e, a princípio, seriam árbitros que estariam próximos do estádio, em alguma cabine, van ou algo parecido, que passariam as informações de imediato para o árbitro central em caso de dúvidas de gol ou não, correção de amarelo, se a bola saiu ou não. Mas, inicialmente, não são questões interpretativas, apenas, por exemplo, se quem fez a falta foi o número 10 e o árbitro deu o cartão para o 9, então há a rápida correção”, explicou. Atualmente, o projeto está sob análise da Fifa, que deve autorizar seu teste no país antes de qualquer alteração.

Questionamentos

Apesar de elogiada, a proposta traz aos brasileiros e profissionais da área dúvidas recorrentes que fazem parte do estudo em execução, levantadas por Quelhas. “A questão do impedimento é muito polêmica na minha opinião. Aquele recurso de traçar a linha não tenho provas de que seja exato. Quando pausarem a imagem, uma fração de segundo gera uma diferença, então como será determinado o impedimento? Será que o sistema vai funcionar? E se falhar na hora? Como garantir que uma máquina vai ter um funcionamento perfeito? Como o profissional na cabine vai falar com o árbitro na hora? A grande questão da imagem é resolver aqueles lances que realmente recaem interpretação. O árbitro deve rever sua decisão em uma jogada que não viu. Então isso tem que ser testado e saber até onde vai usar. Há uma série de problemas como quem será a geradora de imagens? Quem dá o stop, o técnico da Globo ou da CBF? É algo muito complexo e temos que esperar para analisar.”

Aumento de espera e pressão

No Fla-Flu, duelo que recebeu um dos lances mais polêmicos da temporada, o árbitro Sandro Meira Ricci levantou a discussão da fragilidade diante de pressão imediata de atletas, tendo revogado decisões, chegando à anulação correta do gol de Henrique. Se as dúvidas permeiam a instalação da tecnologia no futebol, o adiamento de respostas também eleva o comportamento dos jogadores por mudança de decisões durante os jogos. Conhecedor do clima entre as quatro linhas por trabalhar em duelo das maiores equipes do país, Brumel explicou momentos como o citado do ponto de vista da arbitragem. “A decisão final sempre é do árbitro. Muitos jogadores usam malandragem, mas a decisão é do árbitro. Os atletas tentam forçar uma decisão, mas ele nunca vai mudar algo por uma reclamação da comissão técnica ou dos atletas”, destacou o auxiliar.

Quelhas, por sua vez, reiterou a facilidade dos chamados artistas do evento em obter a informação da TV como fator que também propulsiona problema cultural do futebol brasileiro. “São muitas pessoas fora de campo, e, por um whatsapp, o auxiliar técnico já sabe tudo em questão de segundos. Então aumenta a cobrança e a transferência de responsabilidades. Há uma questão no Brasil que temos que considerar. Não vemos esses problemas em outras ligas como aqui, e eles usam a TV também, então é algo cultural. No Fla-Flu a jogada estava em disputa, os jogadores próximos da bola, houve uma má interpretação do árbitro que decidiu a jogada, mas em outros casos não é bem assim, e o impedimento vejo dessa forma. Às vezes o cara estava com um pé na frente do zagueiro e estava impedido, mas não em condição de ser marcado, então é uma questão cultural de transferência de responsabilidade e não de assumir as falhas. Sempre o outro que erra, há um fator extra como o árbitro, um campo irregular para justificar os erros.”