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Os pés pelas mãos


Por RENATO SALLES

29/04/2011 às 07h00

Clássicos eternos e nossa Copa de 82

Nas ruas, o silêncio ensurdecedor que antecede grandes momentos já é perceptível. Conversas conspiratórias, ora em tom de deboche, ora respeitosas. O relógio corre cansado, como se as pilhas estivessem viciadas. O gosto áspero do nó na garganta azeda a boca. Medo, ansiedade, euforia. Certeza e incerteza. Desde domingo, esta amplidão de sentimentos confusos povoam mente e alma de milhões de brasileiros. Corintianos, flamenguistas, palmeirenses e vascaínos unidos pela expectativa: é véspera de clássico!

Domingo, às 16h, Engenhão e Pacaembu serão mais uma vez testemunhas dos dois maiores combates do esporte brasileiro – que me perdoem atleticanos e cruzeirenses, colorados e gremistas, e torcedores dos outros grandes de Rio e São Paulo. Desde a infância, vejo algo de mágico nestes confrontos. Algo de eterno. Mesmo que o duelo valha apenas pelo paulistinha ou pelo troféu do returno carioca. Quando os deuses do futebol transformaram verbo em bola, o Clássico dos Milhões e o Dérbi paulistano se encarregaram do gerúndio. Sempre sendo jogado, em partidas reais ou imaginárias, nos bate-papos do fanatismo. Edmundo animalizando, Romário calando a torcida, Pet marcando gols decisivos, Marcelinho Carioca girando os braços, São Marcos operando milagres. Para os mais velhos, em seu pretérito sempre perfeito, Zico, Dinamite, Rivelino e Ademir da Guia batendo um bolão.

O que acontece antes, durante e depois dessas partidas sintetiza toda gama de alegrias e tristezas do torcedor de futebol. Amor e ódio definidos pelo destino incerto de uma bola. Claro, existem outros grandes clássicos. Todavia, Flamengo x Vasco e Corinthians x Palmeiras sempre foram os maiores para mim. Jogos que nunca acabam. Onde vitórias improváveis e títulos impossíveis acontecem em cada esquina. Neste infinito de emoções contraditórias, o torcedor é dono do mundo. Capaz de marcar gols com gritos e afastar jogadas de perigo com os olhos.

Nesse delírio que antecede os grandes jogos, vou além dos clássicos. Devolvo ao Brasil um título roubado pelo acaso. Troco os personagens. Coloco um amigo no enredo histórico e corrijo um erro crucial. Afinal, qualquer bola cruzada por nosso Cerezo, na intermediária dos gramados da vida, seria certeza de alegrias. E a Copa de 82 seria nossa.