Aumento atinge 65% dos hortifrúti
O tomate, apontado como vilão do orçamento doméstico nesta semana, não está sozinho. Na companhia dele estão outros 28 hortifrúti que compõem a lista dos 43 ofertados no CeasaMinas – Juiz de Fora que, durante o mês de março, foram comercializados por preços mais altos que em igual período de 2012. Na comparação com fevereiro deste ano, a alta, em média, é de 14,49%, enquanto, em março do ano passado, 21 itens apresentaram baixa, com média de -2,41%, no confronto com o mês anterior. Entre os produtos que registram alta mais expressiva de um ano para o outro estão o repolho, com 139%, a batata, com 129%, e a cebola, com 119% (ver quadro). O tomate está 44% mais caro do que em março de 2012.
Os alimentos estão também entre os principais responsáveis pela inflação brasileira neste início de ano. Segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou alta de 0,47% em março, pressionado pelo custo da alimentação, que subiu 1,14%. Nos últimos 12 meses, o índice oficial de inflação soma 6,59%, acima do teto de 6,5% previsto pelo Governo para 2013. O varejo também sente os efeitos da alta e registrou em fevereiro, segundo a Pesquisa Mensal de Comércio (PMC) do IBGE, divulgada essa semana, queda de 2,1% na vendas.
O grande volume de chuva é o principal responsável por este cenário, segundo especialistas. O coordenador de pesquisa da Secretaria de Agropecuária e Abastecimento (SAA), Júlio Alvarenga, acredita que a maioria dos preços deve recuar a partir de maio, quando ocorre a diminuição das chuvas e tem início o período da seca. "Neste ano, as chuvas caíram fora de época, o que não aconteceu em 2012, quando elas ocorreram em dezembro, facilitando a queda nos preços." Alvarenga explica que a produção de Juiz de Fora não é autossuficiente e é preciso importar produtos de outros municípios da Zona da Mata, do Sul de Minas e da Região Serrana Sul-fluminense, locais que também sofreram com o alto volume de precipitações. Só em Juiz de Fora, por exemplo, o acumulado das chuvas ocorridas em março, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), foi o dobro da média histórica no período. "Além de atrapalhar a produção, as chuvas deixam o solo úmido, o que dificulta a colheita e o transporte, fatores que encarecem ainda mais o preço."
O gerente do CeasaMinas – JF, Reinaldo Machado Freitas, chama a atenção para o fato de que muitos dos produtos que sofreram alterações nos preços não são sazonais, pois podem ser obtidos durante todo o ano. "O preço foi um fator pontual, motivado também pela diferença na quantidade de mercadoria ofertada no Ceasa neste mês de março." Um exemplo é a cebola: em 2012, foram comercializadas 420 toneladas do produto, enquanto, neste ano, o volume caiu para 329 toneladas. Em muitos casos, a diferença na oferta foi provocada pelo próprio produtor, desestimulado pelos prejuízos registrados no ano passado.
Para Alvarenga, parte do movimento de alta pode ser explicada também pelo comportamento de alguns produtores, que pegam "carona" no aumento dos hortifrúti prejudicados pelas chuvas para elevar sua margem de lucro também em outros itens. A saída, mais uma vez, parece ser a pesquisa de preço. "Ela é importante para o consumidor perceber o que sobe de forma gradual e o que apresenta alta pontual. Assim, ele pode definir o que é prioridade e fazer eventuais substituições dos itens mais caros. Ninguém morre sem comer tomate", avalia o economista Fernando Agra. Ele acrescenta que uma eventual especulação de preços não se sustenta por muito tempo. "A definição do preço se dá, invariavelmente, pela lei da oferta e da procura, e o mercado se molda por meio dela."
Na primeira semana de abril, de fato, alguns itens que andaram sumidos do cardápio das famílias em março indicaram o início de uma trajetória de queda nos preços. É o caso do tomate, 33,25% mais barato no atacado, e do repolho, 25%. Já a batata e a cebola permaneceram estáveis, segundo o Ceasa.
Mudança na rotina de restaurantes
As alterações de preços ocorridas nos alimentos básicos têm mudado a rotina dos proprietários de restaurantes da cidade. Para que a diferença não chegue até o bolso do consumidor, muitos empresários têm apelado para a substituição destes produtos em algumas receitas e priorizado determinados pratos.
Francisco de Almeida Cândido, do Restaurante Soberano, optou por trocar a batata pela mandioca no nhoque. A mudança fez com que os dois sacos do produto utilizados na semana fossem reduzidos a um e meio. "O tomate tem sido mantido apenas em rodelas no setor de salada. Com isso, conseguimos reduzir uma caixa por semana para meia."
O gerente do Restaurante Kidelícia, Flávio de Almeida Cândido, explica que a horta pertencente à casa tem conseguido suprir 70% das necessidades do local. "A implantação do tomate-cereja há alguns meses nos ajudou a manter o produto à disposição para os clientes, sem alterar a qualidade do produto."
No Restaurante Sabor Bem Mineiro, uma caixa de tomate, que antes era gasta em um dia, agora chega a render por quase três. "Ele só é colocado na salada e não mais para decorar os pratos. Infelizmente, a batata não teve como diminuir", conta o proprietário José Marcelo Menezes. Já o dono do Natália Restaurante, Alessandro Silva, optou por comprar batatas já prontas para fritar. "Saiu mais barato, e olha que importamos da Argentina e, mesmo com o imposto, saiu mais em conta que a nacional."
Vice-presidente do Sindicato de Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares de Juiz de Fora (SHRBS) e proprietário do Restaurante Toscana, João José Ferreira Alves orientou aos associados a não fazerem alterações nos preços. "As mudanças acontecem anualmente e não de forma esporádica, pois, ao longo do ano, a alta de alguns produtos e a baixa de outros compensam no lucro final."
Na mesa de casa
Em casa, os consumidores também criaram estratégias para driblar a alta dos preços. A dona de casa Eleni de Paula, 50 anos, diminuiu a quantidade de tomate e faz a batata junto com a carne para render mais. "Atualmente, é melhor comer carne do que tomate." Outra dona de casa, Luci de Paula Machado, 57, parou de comprar tomate há várias semanas, substituindo-o pela massa de tomate pronta. A auxiliar de banco de sangue Sônia Regina Guarino, 47, percebeu que, durante as compras, outros alimentos aumentaram sem justificativa oficial. "A qualidade também caiu."