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Alta de aluguéis no Centro empurra lojistas para bairros


Por FLÁVIA LOPES

04/09/2011 às 07h00

 Os custos dos aluguéis no comércio local dispararam. Em alguns imóveis no Centro da cidade, o reajuste chegou a 400%, passando de R$ 2 mil para R$ 10 mil. Devido a esta convergência de fatores, muitos lojistas estão com dificuldade de arcar com os custos e estão fechando as portas. Outra opção tem sido procurar espaços em bairros, cujos preços, mesmo reajustados, ainda são mais vantajosos e, em alguns casos, proporcionam margens de lucro maiores.

 Levantamento da Tribuna feito junto a lojas fechadas na última semana, mostra que os preços do metro quadrado no Centro chegam a quase R$ 90. Já nos bairros, a mesma medida custa até R$ 38 (ver quadro).

 A realidade pode ser constatada nas ruas e galerias da cidade, sobretudo nos empreendimentos lançados nos últimos anos. Em um desses espaços, das 53 lojas disponíveis, nove estão de portas fechadas. Em algumas delas, o tempo de permanência dos lojistas não chega a quatro meses. O fenômeno é reconhecido tanto pela Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) quanto pelo Sindicato do Comércio (Sindicomércio), que acreditam em um ajuste de preços dos aluguéis no curto prazo, já que a demanda por lojas tem diminuído.

 A proprietária da loja Thatiana Noivas, Margarida Guimarães, levou um susto ao ser chamada para renegociar o valor do aluguel de sua loja, na Rua Braz Bernardino, de R$ 2 mil para R$ 10 mil, alta de 400%. "Como eu não tinha contrato, não pude fazer nada. Tive que sair, depois de 29 anos no mesmo local." Hoje, Margarida conseguiu outra loja em local mais central e com maior espaço, mas o custo, segundo ela, continuou sendo um problema.

 O proprietário de uma loja de sapatos no Centro, Ricardo Heluey, já tem dia para fechar seu negócio: 15 de setembro. O motivo de sair do mercado, após mais de duas décadas, segundo ele, são os altos custos de manutenção do estabelecimento. Ricardo diz que alugou uma loja com contrato de um ano. Após esse prazo, o reajuste foi de 30%.

 "Não dá para trabalhar nessas condições. Com o preço de aluguel hoje o lojista não consegue ganhar nada. E a situação acaba virando uma bola de neve, pois outros proprietários de lojas veem os preços de estabelecimentos menores subindo e acabam reajustando também. Os valores no Centro de Juiz de Fora estão fora da realidade."

 O presidente da CDL/JF, Vandir Domingos, não tem números de quantos estabelecimentos fecharam suas portas no Centro este ano. Ele atribui grande parte do problema aos custos com aluguel. "Os proprietários superestimaram os preços. Nenhum dos contratos hoje tem correção pelo IGP-M, e isso vai sufocando o lojista, que, às vezes, não tem condições de arcar com esses custos.

 Tem gente que já abre as portas pagando R$ 300 por dia só de aluguel." Ainda segundo Domingos, a vinda de comerciantes de fora também tem feito com que os preços aumentem. "Muitos não conhecem bem o mercado local e, quando veem novas empresas chegando na cidade, com grande oferta de emprego, pensam que aqui é o "eldorado" e que o investimento vai valer a pena, mas se decepcionam", diz. O presidente da CDL também prevê a possibilidade de redução dos preços. "As pessoas vão deixar de alugar e tendência é que os preços caiam."

 O presidente do Sindicomércio, Emerson Beloti, destaca que a saída de estabelecimentos do Centro para bairros é cada vez mais frequente. Ele também aponta os grandes investimentos anunciados para a cidade como um dos fatores que estimularam os aumentos. "Existe muita expectativa, mas não houve concretização. Os lojistas estão pagando um preço fora de sua realidade."

 Therezinha Reis Garcia Cavalieri, proprietária da Champion, diz que teve duas lojas em shoppings no Centro, mas diz preferir o movimento dos bairros. Ela tem duas lojas, uma no São Mateus e outra no Alto dos Passos, e ressalta que custo/benefício é maior devido ao preço dos aluguéis. "As vendas são boas, o público é mais fiel e há mais tranquilidade nesses locais."

 Quem já pensou em ir para o Centro, mas preferiu manter a loja no Bairro Cascatinha é o empresário Jader dos Santos, proprietário da loja de roupas femininas Fenomenalli. Ele diz que já sondou alguns pontos no Centro, mas teria que pagar R$ 10 mil a mais do que paga para manter uma loja nas mesmas dimensões da do bairro.

  

Falta de planejamento é principal problema de negócio, diz Sebrae

 O Sebrae-MG também está atento à alta rotatividade de lojistas no Centro. Segundo o gerente regional do órgão no Leste de Minas Gerais, João Roberto Marques Lobo, os comerciantes são os que mais procuram a entidade em Juiz de Fora, a maior parte deles buscando reerguer o negócio que já não se apresenta lucrativo. "Temos dois tipos de público: aquele que nos procura antes de abrir, querendo conhecer mais a realidade do mercado e outro que vem a nós quando já estão com ‘a corda no pescoço’. Nesses casos, não há muitas alternativas. Nossas orientações são mais direcionadas a aspectos como refinanciamentos."

 De acordo com o gerente regional, antes de abrir uma loja, o comerciante deve fazer todo um planejamento e avaliar bem o peso das despesas iniciais. "Nos primeiros meses ele arca com luvas, estoque e layout. A falta de planejamento financeiro é um dos principais fatores que leva o lojista à fechar as portas." Ainda conforme Lobo, o empresário precisa identificar primeiramente seu público alvo e avaliar a necessidade de abrir uma loja no Centro. "Se o negócio não depende de um fluxo maior de pessoas, como é o caso de uma loja de roupas para as classes A ou B, por exemplo, não há a necessidade de um ponto no Centro, mas em um local onde consiga acomodar melhor as pessoas.

 Uma lojista que preferiu não se identificar conta que está com dificuldade de manter a loja e disse que já pensou em fechar as portas. "Estamos segurando no vermelho, pois temos uma perspectiva de melhora de vendas neste final de ano. Se não fosse isso, já teríamos saído." Outro lojista, que veio de Valença há dois meses e também pediu para não ter seu nome divulgado, se surpreendeu com o mercado local, que acreditava ser melhor. "Tem pouco tempo que estou aqui, mas as vendas ainda não estão boas. Espero que no final do ano melhore, para compensar o investimento."

 

PJF quer nortear expansão

 De olho no crescimento da ocupação de estabelecimentos comerciais em bairros, a Prefeitura, por meio da Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Econômico (SPDE) já está iniciando os estudos para nortear a expansão comercial nos bairros. Segundo o secretário André Zuchi, o objetivo é dar condições para que as pessoas resolvam, nos bairros, pequenos problemas, como serviços bancários, clínicas médicas e laboratórios.

A principal expansão hoje, segundo ele, é vista em regiões como Benfica, São Pedro e Manoel Honório, Cidade Alta além de São Mateus e Alto dos Passos, que ainda se encontram na região central da cidade. "Naturalmente o crescimento dos bairros atrai o comércio e muitos deixam o Centro. Mas estamos trabalhando no sentido de não deixar esse Centro esvaziado. É um movimento que temos que ter muito cuidado, antes que haja degradação, como ocorreu em grande cidades." Ele também aponta que o município tem estudado quais os equipamentos urbanos necessários para o desenvolvimento dessas regiões. "Isso inclui tanto shoppings, quanto hospitais, praças e jardins."

 Reabilitação

 De acordo com a subsecretária de Planejamento do Território da SPDE, Cecília Maria Rabelo Geraldo, a cidade tem seguido os projetos propostos pelo Ministério das Cidades, dentro do programa de Reabilitação dos Centros Urbanos. Ela aponta que o centro de Juiz de Fora não chegou ao esgotamento. "Mas o Poder Público precisa avaliar para onde o crescimento dos bairros é possível, criando e planejando melhor essas novas centralidades."

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