Eles continuam de pé
Se, em seu dia a dia, o guitarrista Tony Bellotto fecha a torneira enquanto escova os dentes, joga o lixo nas devidas caixas coloridas e só toma banhos frios, no palco, ele reconhece que, além de dinheiro, satisfação artística e prazer também colaboram para que uma banda de rock envelheça junta. E tomara que Bellotto, Branco Mello (voz e baixo), Paulo Miklos (voz e guitarra), Sérgio Britto (voz e teclados) e Mario Fabre (bateria) ainda tenham muito o que contar, seja para a preservação do meio ambiente ou para o bem da música genuinamente nacional.
Prestes a completar 30 anos de estrada, os Titãs aportam, esta noite, no Cultural Bar, trazendo na bagagem as irreverentes faixas registradas em Sacos plásticos, CD lançado em 2009, após cinco anos sem uma compilação de inéditas. Afinal, taxada no circuito como crítica, a banda não poderia deixar de falar da questão do lixo e, consequentemente, dos sacos plásticos, um dos grandes estorvos do mundo contemporâneo.
A repercussão de ‘Sacos plásticos’ tem sido ótima.Talvez não estivéssemos conversando aqui se não fosse por ‘Sacos plásticos’.
Com o CD, a banda reinventa-se mais uma vez, tanto pela ousadia quanto pela fórmula titânica, desde o primeiro até o último acorde, de qualquer uma das 14 canções. A faixa-título, inclusive, se anuncia como um trabalho à altura das melhores obras da trupe, que volta às origens ao assumir o controle de todos os instrumentos, levando adiante uma experiência que já vinha sendo exercida nos shows. Em algumas músicas cantadas por Branco, no entanto, Sérgio Britto também assume o baixo, o que, de acordo com eles, cria novas possibilidades e dá ao disco o frescor de uma banda renovada.
Eu quero ser um desses sacos plásticos que você traz do supermercado. Este é um dos versos irônicos entoados após os primeiros acordes de Sacos plásticos (composta por Branco Mello e Paulo Miklos). Eles ressaltam o somatório de melodias inspiradas e mistura rítmica de rock, reggae, funk, punk e pop – típica da banda. Estes elementos, aliás, servem de elixir para os roqueiros, que sabem o quanto ainda têm força para potencializar o rock na veia pulsante do público.
Depois de lançar nos cinemas o documentário Titãs: a vida até parece uma festa, que revela a consagrada trajetória da banda, os Titãs voltam a agregar temas variados, refletindo sobre as contradições do mundo atual, o consumismo, a ganância e os encontros e desencontros do amor, apesar de soar bem menos panfletário que antes.O fato de as rádios atualmente privilegiarem as canções mais românticas também confirma o ‘encaretamento’ das mesmas, justifica Bellotto, argumentando que todos aqueles ingredientes se somam para transformar o novo álbum numa obra fundamental na carreira da banda.
Para quem gosta de rock
Pela forma objetiva, porém romântica, do videoclipe da faixa-título de Sacos plásticos, é certo que os Titãs estão em clima de festa. O que se celebra é a perpetuação de um sonho de adolescência, resume Tony Bellotto. Ele acredita que a amizade é, sim, a força que os manterá unidos até o momento que nenhum deles, hoje, quer saber qual é. Quem agradece são os fãs, já que parar não integra os planos da turma.
Preparando-se para, ao lado de outros titânicos da música nacional, assumir a noite de abertura do Rock in Rio 2011. O rock vive se reinventando, estão aí os novos discos do Foo Fighters, do REM e do Strokes, afirma Belloto. Ao longo destes 29 anos, ele e seus comparsas testemunharam momentos totalmente dissonantes. Dos anos 1980 – quando havia mais espaço para a diversidade, e o rock era o som do momento – aos dias de hoje, com a grande mídia selecionando quem fica e quem sai, o que resta, de acordo com o guitarrista, são nomes que usam a força da música para se destacar. A gente sobrevive fazendo shows. Sempre foi assim aliás, só que antes quem garfava a grana eram os ‘piratas’ oficiais, os donos das gravadoras, comenta Bellotto, anunciando novidades para 2011 e 2012, ainda em sigilo.
O grupo, que ingressou no mercado em 1982 como Titãs do Ie-Iê, ganhou destaque quatro anos depois, com o icônico Cabeça dinossauro, álbum cuja marca foi o nascimento do estilo agressivo da banda. Hoje, engajados no discurso em prol da boa e saudável convivência social, eles se mantêm como símbolos de diferentes gerações. Isto porque, mesmo quase três décadas após a primeira aparição em bando, os Titãs continuam de pé.
TITÃS
Abertura com Visco e fechamento com Operação Tequila
Hoje, às 23h
Cultural Bar
(Av. Deusdedith Salgado 3.955). 3231-3388