Cronista do cotidiano
Tanto quanto esquentar os pandeiros, o compositor Assis Valente sabia fazer da própria vida um samba. Desses breves e trágicos. Autor de inúmeros sucessos cantados por Carmen Miranda, o baiano suicidou-se, aos 47 anos, tomando um copo de guaraná com formicida. Anos antes, havia tentado outro ponto final ao pular do morro do Corcovado, no Rio. Salvo por um galho de árvore, foi resgatado pelos bombeiros. A existência de uma única biografia ("A jovialidade trágica de José de Assis Valente", de Francisco Duarte Silva e Dulcinéa Nunes Gomes), já esgotada, evidencia o longo silêncio a respeito da obra e da trajetória do artista, que, em 2011, completaria 100 anos. "Geralmente, ele é lembrado apenas pela clássica ‘Brasil pandeiro’, de 1940", comenta o cantor e compositor Dudu Costa. Curiosamente, a canção, tida como obra-prima, foi recusada por Carmen.
Segundo Adalberto Paranhos, professor da Universidade Federal de Uberlândia e pesquisador da música popular, Valente mostrava-se exímio cronista do cotidiano, fato que pode ter contribuído para o esquecimento observado hoje. "Com suas lentes sempre ajustadas, flagrava detalhes da vida carioca dos anos 1930 e 1940", diz, explicando que as criações do músico têm o tom do seu tempo. O percussionista e pesquisador musical Márcio Gomes assegura que, na história da música popular brasileira, casos como esse são mais comuns do que se imagina. "Da geração responsável pela chamada Época de Ouro (período que vai de 1919 a 1945, da qual Assis fez parte), podemos citar os nomes de Ary Barroso, Ataulfo Alves, Braguinha e Dorival Caymmi entre os poucos que souberam administrar sua carreira com sucesso", atesta, acrescentando que até mesmo Noel Rosa e Cartola amargaram um período de ostracismo.
Na opinião de Dudu Costa, Assis não é datado. "Ele trouxe beleza e inovação para o samba." Entre os feitos do baiano, como completa o artista juiz-forano, está a utilização do eu-lírico feminino, recurso hoje comum em letras de figuras como Chico Buarque e Marcelo Camelo. "Isso foi muito importante para a MPB, mas não sei dizer até que ponto tal abordagem está ligada à homossexualidade do compositor, sugerida por alguns." Conforme enfatiza Adalberto Paranhos, muito já se cogitou sobre a opção sexual de Valente, embora não fosse possível tratar abertamente tal assunto no início do século passado. "Seria anacronismo esperar algo do tipo." O músico casou-se com Nadyli da Silva Santos em 1939, mas a união durou apenas três anos.
O autor de "Meu moreno fez bobagem" estava sempre disposto a lançar foco sobre temas polêmicos de sua época. Falava da desigualdade social e da discriminação racial, enaltecia a história e a inventividade das classes populares. É o que afirma Paranhos. "Ele destacou, sobretudo, a nossa música popular, que definia as cores de um ‘Brasil pandeiro’ alimentado por sua ‘gente bronzeada’." Costa concorda e enfatiza que Valente, de certa forma, distanciou-se dos temas convencionais que caracterizavam o samba em sua época.
De acordo com o jornalista e crítico de música Pedro Alexandre Sanches, Assis somou as tradições dos batuques baiano e carioca, apimentando a mistura com boas doses de ironia. "Ele era ferino e sarcástico", comenta, ressaltando ainda que, na década de 1970, os Novos Baianos gravaram "Brasil pandeiro" e valorizaram o modo baiano de fazer samba. Conforme complementa Márcio Gomes, mesmo as composições de Valente com caráter de crítica são atemporais, por sua qualidade estética. Não à toa, artistas da atualidade recorreram a regravações. Para ficar em dois exemplos, Vanessa da Mata gravou "Alegria", e Adriana Calcanhoto escolheu "E o mundo não se acabou". "Elas permitiram que novas gerações tomassem conhecimento de pequena parte de uma imensa obra", comenta o pesquisador.
Gomes lembra ainda que o baiano – um dos responsáveis pela consolidação do samba como principal linguagem musical brasileira – criou as marchinhas natalina e junina. Em uma delas, "Boas festas", ele menciona: "felicidade é brinquedo que não tem". Sanches analisa: "embora o carnaval fosse seu principal tema, aparentemente alegre, ele era um compositor triste". Mesmo assim, como pondera Gomes, foi capaz de explorar um lado humorístico que caía como uma luva para Carmen Miranda.
Assis Valente, também protético e sempre atormentado por dívidas, era um nacionalista assumido. Adalberto Paranhos explica, porém, que ele primava por um nacionalismo de base popular. "Recenseamento", por exemplo, traz os versos: "a nossa casa não tem nada de grandeza / nós vivemos na fartura sem dever tostão / Tem um pandeiro, um cavaquinho, um tamborim / um reco-reco, uma cuíca e um violão".
Quando a "pequena notável" mudou-se de vez para os Estados Unidos, em 1939, o baiano sentiu-se abandonado por sua amiga e intérprete preferida. Assim conta Márcio Gomes, acrescentando que o ocorrido afetou a carreira de Valente. "Segundo o biógrafo Ruy Castro, a recusa de Carmen em gravar ‘Brasil pandeiro’ se justifica porque a canção é um elogio rasgado ao sucesso da cantora lá fora." Adalberto Paranhos engrossa o coro: "em plena época de ‘política da boa vizinhança’, Assis insistia em proclamar a superioridade do Brasil e dos brasileiros em matéria de música popular, entenda-se, de samba".