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Mario Prata é o convidado desta quarta do projeto Sesc Literatura


Por MAURO MORAIS

23/09/2014 às 06h00

Tenho um compromisso firmado com Mario Prata: “Você vai fazer um título para essa matéria para que ela seja lida, não é mesmo?!”, me perguntou o escritor com mais de 30 anos de jornalismo, dizendo que sua “cabeça é muito jornalística”. Respondo que sim. “Você vai fazer uma abertura fazendo de tudo para pegar o leitor para que ele leia o segundo parágrafo. Não é mesmo?!”, questiona mais uma vez. Digo, novamente, que sim. E agora?! Continue lendo, caro leitor. Saiba que para chegar a esse assunto, Mario Prata, que se encontra com o público nesta quarta, às 20h, no Cine-Theatro Central, falava sobre sua preocupação com o mercado durante o ato de criação. Há interferências? “Vivo disso. A primeira coisa que faz um cara pegar um livro na banca é o título, e depois o autor. Todo mundo pensa nisso. Até Moysés quando desceu e falou ‘Os dez mandamentos’ estava pensando nisso. Se ele falasse ‘Os ensinamentos de Deus’ talvez não pegasse. O título é importante. Tem várias coisas na literatura que faz considerar esse lado comercial. Escrevo e quero ser lido, assim como o médico quer ter paciente”, diz, por telefone, à Tribuna.

Bem-humorado como seus textos, o escritor nascido em Uberaba, no Triângulo Mineiro, criado em Lins, em São Paulo, e radicado em Florianópolis há mais de uma década, conquistou os leitores apostando na leveza de uma escrita enxuta, coloquial na medida. “Começar um livro bem, a primeira frase, é fundamental. São técnicas que são importantes de ter para não brigar com o leitor. O Saramago, por exemplo, brigava com o leitor. Todo mundo comprava, mas ninguém lia, porque era chato. Ele escrevia muito bem e merecidamente ganhou o Prêmio Nobel, como todo os chatos que ganharam na literatura mundial. Ele não tinha essa intenção de pegar o leitor, ele tratava mal”, comenta o homem de voz grave.

Dramaturgo premiado e roteirista de cinema, Prata conheceu o tempo em que fazer novelas era quase como escrever livros. “Sem lenço, sem documento”, de 1977, foi ele quem escreveu, assim como “Bang Bang”, de 2005. “Na década de 1970, o Boni teve a capacidade de contratar todos os novos autores que estavam surgindo no teatro brasileiro para fazer novelas. Isso teve um resultado incrível. A gente ousava muito, porque só as classes A e B tinham aparelho de televisão. Era um pessoal mais instruído, não digo que era mais inteligente”, pontua. “O trabalho de televisão é outra coisa, é comercial puro, quase não existe diferença entre o conteúdo da novela e o dos intervalos. Ela só existe para ter o comercial. Se pudesse, as emissoras nem as colocava. Televisão é um aparelho doméstico, como o descascador de laranja, a máquina de fazer café”, dispara ele.

Entrevistando mortos

A televisão, na verdade, não permite mergulhos profundos de um autor que se interessa por pesquisa. “Gosto muito de personagens históricos, gosto de vasculhar. Com a internet, é uma maravilha fazer isso”, confirma, anunciando seu próximo projeto, prioritariamente investigativo, mas nem por isso sisudo. “Comecei a escrever um livro sem querer. Na revista ‘Brasileiros’, dei início a entrevistas com brasileiros mortos, antigos, como Pedro Álvares Cabral e outros que não são daqui, como Dona Maria, a Louca, Dom Pedro, alguns índios, mulatos, Castro Alves, Carlos Gomes e até Dom Casmurro. Tudo com muito humor”, conta. “Com Dona Maria, fizemos a entrevista fumando um baseado. A Editora Record viu e me convidou para publicar essa série em livros, tomando o cuidado para que a maioria seja de inéditos.”

Segundo o escritor, esse ano foi todo dedicado à escrita de novas entrevistas, cuja publicação será lançada em abril. “O título será “Mario Prata entrevista uns brasileiros’, e terá o nome de todos na capa, para as pessoas saberem do que se trata, já que “Uns brasileiros” é um título vago, pouco vendável”, retorna ele à fatídica questão do título. “Estamos discutindo a capa, para que não pareça uma revista. Aliás, não tenho nada contra que se pareça uma revista, desde que venda”, volta novamente à questão do mercado, aos risos. “Cada um é de uma maneira. Por exemplo, a Dona Beja, depois de aprontar em Araxá, foi para uma cidadezinha pequena no interior de Minas. Fui entrevistá-la um ano antes de morrer, quando já estava bem velhinha, desdentada, toda caída”, revela.

“É uma coisa completamente surreal, porque ela me conta que o seu Adolfo (Bloch), da ‘Manchete’, mandou para ela a série inteira, que a Maitê (Proença) fez, e ela aproveita para agradecer, porque ela não era tão bonita quanto a Maitê. Ela conta a verdadeira história dela, já que 90% são ficção. Tudo que está no livro é verdade, só a entrevista é que não é”, brinca.

Boa herança

O homem que no último final de semana entrevistou James Dean, em sua nova empreitada de entrevistas com estrangeiros (“Uns estrangeiros” seria um título com mais apelo?), é pai de Maria, Pedro e Antonio. Enquanto Maria, ex-editora da revista “Harper’s Bazaar”, aventura-se em reportagens especiais sobre moda na GloboNews, Pedro fotografa e toma conta de um bar na Vila Madalena, e Antonio escreve roteiros, livros e tem uma coluna no jornal “Folha de S.Paulo”. “A Maria e o Antônio engatinharam, literalmente, em cima de livros. Quando me separei e ficava com eles nos finais de semana, eles iam para ensaios de teatro comigo. A mãe, Marta Góes, também é escritora e dramaturga, então os dois perceberam desde cedo que o ofício de escrever é um trabalho. Eles viram o duro que a gente dava para ganhar a vida”, destaca.

Para Prata, seu maior medo é que as pessoas abrissem a porta para Antonio porque era seu filho. “Tirando o Luis Fernando Verissimo, são muito poucos os casos de filhos de escritores que deram certo e ficaram melhores que os pais. O Antonio hoje, em crônica, já me superou”, diz, contando sobre um jantar na casa de Verissimo, oferecido a Chico Buarque, e no qual os dois comentaram sobre a qualidade do texto de Antonio. “Fui ao banheiro e liguei para ele e falei: ‘Antonio, você é bom mesmo’. Eu já o achava muito bom, mas pensava que podia ser coisa de pai, mas quando escuta de um Chico e de um Verissimo, que são pessoas que eu respeito muito, é outra coisa.” Autor do elogiado “Nu, de botas”, recém-lançado, Antonio, com certeza, herdou do pai a atenção para os títulos.

MARIO PRATA

Bate-papo com o público

Nesta quarta, às 20h

Cine-Theatro Central

Entrada gratuita