Saudades de Dnar

Morto em 2006, pintor faria aniversário no dia 21
"A arte do Dnar foi o grande amor da vida dele", refletiu a viúva do pintor Dnar Rocha, Aída Célia de Andrade, ao lembrar da trajetória do marido nas artes plásticas e na vida. Se ainda estivesse dando suas pinceladas cheias de cores e traços fortes, tão característicos, Dnar completaria 80 anos ontem, dia 21. Como em tantas de suas telas, a data não passará em branco. Até o final do ano, uma exposição com obras do artista celebra seu aniversário, ao lado do lançamento do livro "Simplesmente Dnar", idealizado por Aída. A previsão é de que ambos sejam realizados em agosto, no Centro Cultural Dnar Rocha, inaugurado no início do mês em homenagem ao pintor.
A publicação terá cerca de 130 obras do artista, e, segundo sua organizadora, o trabalho de seleção é tão doce quanto triste. "Cada vez que recebo uma foto de colecionador, refaço o livro e procuro incluí-la, por isso ainda não consegui finalizá-lo. Quando preciso tirar alguma, me dá tanta pena… cada pedacinho do que ele fez tem um valor muito grande para mim."
Quase seis anos após sua morte, em novembro de 2006, o que transparece do artista pode ser definido com palavras como "simplicidade", "dedicação" e "gentileza", empregadas por quem conheceu Dnar não apenas como uma assinatura em canvas, mas em sua vida pessoal. Autor do prefácio de ‘Simplesmente Dnar’ a pedido de Aída, o artista plástico Carlos Bracher se lembra do pintor em sua grandeza, tanto na arte quanto como amigo. "Nós éramos muito unidos, nos encontrávamos quase todos os dias. Tinha uma identificação grande com ele, e, ao longo da vida, trocamos arte, afeto, palavras, humildade e humanismo."
Endossando as memórias saudosas de Bracher, Iran Martins da Silva refere-se aos tempos em que Dnar ia diariamente à Iran Molduras. "Fomos ficando tão amigos, que ele passou até a me chamar de filho. O Dnar sempre me surpreendia com sua simplicidade, seus ‘causos da roça’, mas, principalmente, seu coração aberto. Uma vez estava com ele, e ele deu seu paletó a um morador de rua que estava com frio. Como pessoa e artista, ele é insubstituível."
Sentimento da cor
O pró-reitor de Cultura da UFJF, José Alberto Pinho Neves, faz um contraponto entre as vigorosas cores das telas do artista e sua personalidade. "O Dnar era muito tímido, muito discreto. As cores vibrantes de seus trabalhos refletem o oposto deste comportamento intimista, e ele dominava bem este universo cor, com sua pintura enérgica, de morros vermelhos cheios de vida."
Para o presidente da Associação de Belas Artes Antônio Parreiras (Abaap), Lucas Marques do Amaral, a obra de Dnar sempre foi muito sincera. "Vejo duas fases: uma mais expressionista, com muito branco, que alguns chamam de ‘fase branca’, e, para mim, transmite muita angústia. Depois, ele se aproxima mais do formismo, em que a pintura parecia transmitir uma felicidade da alma, que era expressa com um exímio uso das cores. Como amigo dele que fui, acho que ele estava, de fato, feliz." Formada por Dnar e nomes como os de Carlos e Nívea Bracher, Renato Stehling, Roberto Gil, Heitor Alencar, Sílvio Aragão, Ruy Merheb e Wandyr Ramos, a Sociedade Antônio Parreiras foi, na década de 1950, um embrião da Abaap, onde os artistas da época expunham, produziam, discutiam e trocavam experiências de arte.
Também destacando o trabalho com o colorido, o amigo Carlos Bracher fala sobre a sensibilidade aguçada de Dnar. "Isso se refletia num verdadeiro sentimento da cor e na depuração da forma. Ele tinha um lado filosófico de observar as coisas e de retratá-las. A vida toda terei respeito pelo grande artista que ele sempre foi."
Perpetuando a memória
O ano em que Dnar completaria seus 80 anos vem sendo marcado por tributos à memória do artista. No início de julho, a abertura do Centro Cultural Dnar Rocha pela Funalfa e o lançamento de um selo, que reproduz uma das telas do pintor, pelos Correios, marcou a série de honrarias. Além do livro e da exposição idealizados por Aída, previstos para agosto, a viúva prepara outra publicação sobre o trabalho do marido, "Exercício poético em preto e branco", que traz uma compilação de desenhos do artista. "A lembrança que se tem do Dnar é sempre muito colorida, por isso essa homenagem é tão simbólica, quero mostrar ao público um outro lado dele, igualmente belo." Atualmente, o projeto tramita na Lei Murilo Mendes e foi aprovado na primeira fase.
Ainda em vida, Dnar acompanhou a produção de dois trabalhos dedicados a sua carreira: o livro "Dnar, o silêncio das imagens", de José Alberto Pinho Neves, lançado em 2007, e o documentário "Dnar Rocha – Pelos caminhos da arte", dirigido por Éveli Xavier, de 2008. "Ele sempre teve um sonho de fazer um livro sobre sua obra, e este acabou não sendo apenas um catálogo, mas a reunião de entrevistas com ele, das melhores críticas que sua arte recebeu, de sua contribuição como artista em uma importante trajetória. Tristemente, ele não viu o resultado final", conta Pinho Neves.
O mesmo aconteceu com o filme de Éveli, que traz depoimentos do próprio pintor sobre sua carreira e vida. "Ele conta que passava horas olhando os quadros, tentando entendê-los, e diz com tanta sensibilidade, que mostra o quão completo ele é como artista, transcendendo a pintura", comenta a cineasta. Citando fala de Dnar em uma das entrevistas, Éveli ilustra tal sensibilidade, não deixando dúvidas sobre o amor da vida do pintor. "Acho que a pintura estava na minha vida de certa forma, eu tenho uma relação difícil, rejeito os quadros e, como um pai educa uma criança, fico tentando torcer os quadros, o destino das linhas, o comportamento das cores."