Sobre o verbo referir
São tantos os textos, subtextos e sublinhas, como são muitos os livros, os filmes, as imagens, os artistas e tudo mais que forma o caudaloso e verborrágico discurso de César Brandão. No emaranhado de concepções para o exercício no qual milita (sim, ele é um idealista!), flutua a menção ao grande mestre da pintura Leonardo Da Vinci: arte é coisa mental. Se não fosse assim, não haveria Homenagem a Kounellis, individual que o artista expõe no Mamm, quebrando um jejum de quase sete anos sem apresentar mostra solo. Integrante da 19ª Bienal de São Paulo, de 1987, Brandão volta a se aproximar da exposição que lhe garantiu um lugar na cena contemporânea brasileira, apresentando-se ao lado da 30ª edição do evento.
Com o título Utopia versus realidade, a bienal da qual o artista nascido em Santos Dumont e fixado em Juiz de Fora fez parte ficou conhecida como a bienal das instalações, em referência às numerosas obras que se utilizavam da linguagem. Sob curadoria de Sheila Leirner, a exposição reunia obras de artistas de 53 países, entre eles o cultuado Marcel Duchamp, responsável pelo conceito de ready made, que consiste na introdução de objetos cotidianos no universo artístico. Tanto a utopia, quanto o autor de A fonte, urinol com status de obra de arte, ainda servem à Brandão, sob o desafio das permanentes atualizações. A arte é contra o canto da sereia, é romper com as estruturas, aponta.
Recorrendo ao crítico de arte, jornalista e professor Mário Pedrosa, em frase publicada no jornal Correio da Manhã, em 1968, Brandão resume: Arte é o exercício experimental da liberdade. E essa liberdade, a qual se refere, exige riscos e um tanto a mais de erros. Um deles, antecipa-se, é parecer um plágio do Kounellis. E não é, apesar de, aparentemente, parecer. O que acontece é que César Brandão é artista de referências múltiplas. Meu trabalho é cheio delas, confirma.
Um pouco de si, outro tanto de tudo
Grego, radicado em Roma, na Itália, Jannis Kounellis se tornou conhecido por se alinhar ao movimento de arte povera (ou arte pobre), produzindo trabalhos com foco na transformação e na energia, através de ambientes metafóricos, críticos e pessimistas. Na obra sem título, de 1988, reunindo uma chapa de metal, um saco de terra (ou café) e uma pedra bruta, tudo prensado por um fragmento de uma linha férrea, Kounellis expõe não apenas os rudimentos que compõem sua carreira artística, como também a influência de suas vivências em uma região portuária.
Partindo das próprias lembranças, num bairro operário de sua cidade natal conhecido pela grande indústria de fundição de carbureto e ferro silício, Brandão criou um molde em madeira de uma peça semelhante ao trabalho do artista grego. Daí, reproduziu a escultura em dez peças feitas em ferro fundido, além de reunir à sequência um esboço e uma fotografia do trabalho. Alinhada à mesma arte povera de Kounellis, a obra de Brandão sugere os resquícios de um trabalho operário além do exercício bruto e duro, sujeito à fragmentação. Faço fundição há muitos anos. Tudo parte da ideia de uma gambiarra, que defino como soluções provisórias para situações de emergência, explica, simplificando o trabalho que, à primeira vista, se deseja complexo.
As gambiarras de Brandão, sutilmente diferentes (em detalhes quase imperceptíveis), quando vistas em sua totalidade, resultando em instalação – suporte que o artista sempre perseguiu -, denunciam o fino diálogo com as reflexões do ensaísta Walter Benjamin presentes no livro A obra de arte na era de sua reprodutibilidade técnica. Eles não são cópias, mas são semelhantes. É como se fossem nós, humanos, todos iguais, porém diferentes, analisa. As 13 ocorrências da mesma imagem, feita na contemporânea fotografia e no clássico desenho, denunciam o território contestador em que o artista se envolve. Nada ali é idêntico, tudo é arte, e tudo é autoral.
Dando ainda mais corpo ao material, Brandão ressalta: Faço uma ironia. Característica que já salta do próprio nome que o artista dá às peças. Ao serem levadas à fundição, essas gambiarras, tão comuns no terceiro mundo, deixam de ser provisórias e passam a ser permanentes, aponta, afirmando não haver receita para compreensão da obra. Uso materiais do cotidiano. Sou um artista ligado à matéria, comenta Brandão, que ainda diz ter pensado e acompanhado todo o processo, sem fazer qualquer esforço braçal. É tudo poético, estritamente mental, retoma, completando: Não acredito em escola de arte, nesse ponto sou muito idealista.
Na fronteira
Expoente de uma geração referenciada pela exposição Como vai você, geração 80?, ocorrida no Parque Lage, no Rio de Janeiro, em 1984, Brandão, como seus pares, permanece atual mesmo sem revelar seu apreço pelo programa de computador Photoshop. Ao lado de Nélson Félix, Daniel Senise, Efraim Almeida, Leda Catunda e Luiz Zerbini, o juiz-forano reflete um grupo de artistas que prioriza o debate sobre a arte acima de qualquer coisa. Tudo para ele resvala na mesma pergunta: O que é arte?, ou Vale ou não vale?. Trabalho na fronteira das linguagens. Estou entre o diálogo e o confronto, reflete.
Segundo o historiador e crítico Jorge Coli, César Brandão alcança poesia em frequências muito altas, onde não transita o senso comum. Seu motor não é nem ‘plástico’, nem ‘formal’, nem ‘narrativo’: ele é constituído por obsessões. Obsessões pelas matérias, não como instrumentos destinados a uma construção ou composição, mas tomadas nas suas existências de matérias, nos seus segredos de massas ou de fluidos invisíveis, transformando-se, mesmo quando são pétreas ou minerais, em estranhos organismos que se comunicam por proximidade, por associação, define Coli em comentário sobre as cinco obras (três da série Salamandras e duas da série Justaposições) que compõem a prestigiada coleção do Museu de Arte Moderna de São Paulo.
Representado por duas galerias em Belo Horizonte e uma em São Paulo, atualmente Brandão pensa e produz arte o tempo inteiro. Apesar de não escoar suas obras na mesma frequência com que as concebe, ele não se intimida. Afinal, a coisa mental não para. Tenho muitas dúvidas e, em meu trabalho, não respondo nada, ressalta em seu jeito brincalhão, sempre pontuando todas as frases com uma grande e profunda gargalhada. Na verdade, arte é uma doença, lança, pesando a mão a fim de mostrar com clareza o mergulho que fez há mais de 30 anos, e que, por si, só já é uma referência inabalável.