De mãos atadas

Se em 2014 a UFJF dominou a agenda cultural de Juiz de Fora, com eventos de grande porte, como o Festival de Jazz e o Festival de Circo, e produções menores, como o Leitura no Campus e diferentes apresentações no Cine-Theatro Central (do show comemorativo pelos 85 anos do teatro com Milton Nascimento ao projeto Sesc Literatura: Grandes Escritores), em 2015 a ausência de sua atuação tem sido sentida na programação local. Para além dos cortes orçamentários, que justificam a paralisação de diversas iniciativas privadas realizadas em seus espaços culturais, questões administrativas têm gerado entraves na produção e promoção cultural feitas pela instituição de ensino.
Atualmente Juiz de Fora não dispõe de um teatro com lotação superior ou equivalente a 500 lugares, já que o Central e o Pró-Música encontram-se com suas agendas temporariamente congeladas. Com a interdição de espaços como LaRocca e Viva Hall, resta o Expominas para a realização de grandes eventos, ou casas noturnas com espaço para show, mas não para apresentações cênicas. Iniciada no último ano, a reforma no teatro localizado na Praça João Pessoa, no coração da cidade, está prestes a ser concluída, bem como o impasse criado em sua gestão financeira. Ainda assim, as perspectivas futuras não se mostram otimistas.
“Conseguimos prorrogar o contrato da Fadepe (Fundação de Apoio e Desenvolvimento ao Ensino, Pesquisa e Extensão, órgão que administra financeiramente projetos da UFJF) com o Cine-Theatro Central até agosto. Só estão sendo feitos eventos imprescindíveis, como os filantrópicos, beneficentes e de impacto social, como as formaturas”, conta a pró-reitora de Cultura Valéria Faria. Segundo ela, ainda há a possibilidade de realização de algumas atividades. “Deixamos de fazer alguns eventos, mas não havíamos assinado contrato de nada, só cancelamos reservas, não contratos. A Deborah Colker, por exemplo, estava com uma data agendada e, por ter lei de incentivo envolvida, pode acontecer no teatro, já que tem cunho social”, explica.
“A partir de agosto sairá um edital de chamada pública com a possibilidade de marcação de datas para um ano inteiro, mantendo uma margem para demanda espontânea, que será julgada pelo conselho. O contrato é feito pela universidade, e o dinheiro entrará na conta única da União, o que engessa bastante”, comenta Valéria, para logo completar: “Tudo fica mais burocrático, exigindo licitação. Não estamos satisfeitos, e, por isso, ainda estamos estudando outras alternativas. O Central não fechou, é um momento de transição, apenas”. De acordo com a pró-reitora, existe uma possibilidade de já deixar licitado serviço para reparos emergenciais, como a troca de uma lâmpada, tão comum a um espaço cultural.
Questões legais
Conforme noticiado pela Tribuna em matéria do dia 3 de maio, a nova legislação que rege o funcionamento das fundações de apoio, sancionada em 2013, fecha o cerco e burocratiza ainda mais algumas atividades geridas por órgãos federais, conferindo maior transparência às finanças públicas. Dessa forma, a UFJF vive um período de novas perspectivas, que não se restringem ao Central, mas também abarcam o Centro Cultural Pró-Música e o próprio coral universitário. “O Coral da UFJF ainda existe, mas todos estão sem bolsa. Para continuar, será preciso que os coralistas aceitem ser voluntários”, pontua Valéria Faria. A mesma situação tem sido enfrentada com as orquestras do Pró-Música. De acordo com ela, o plano é que “todas elas se transformem em uma única, de nome Orquestra UFJF/Pró-Música”, contando, como integrantes, com professores e técnicos do Instituto de Artes e Design (IAD).
A própria doação do Pró-Música, celebrada em 2011 e oficializada ano passado, teve alguns parâmetros ajustados, como a escola de artes, que anteriormente também seria repassada à universidade. “Com a alteração da lei, não se tornou possível que a Fadepe contratasse os professores da escola. Para não haver demissões, e por conta de a UFJF não ter recursos humanos para colocar lá, sem poder terceirizar esses funcionários, já que só é permitido terceirizar cargos que não existem no quadro, o procurador federal em reunião com a família (Sousa Santos) sugeriu que ela ficasse com a escola e que a universidade emprestasse os instrumentos utilizados. Contudo, a escola precisa ter outro nome”, explica o atual supervisor do Centro Cultural Pró-Música e professor do curso de música do IAD, Marcus Medeiros.
Conforme Medeiros, uma nova associação já foi fundada para encaminhar as atividades da escola de artes, já que o nome Pró-Música foi doado à UFJF. “Até então, essa marca nunca havia sido registrada no INPI (Instituto Nacional da Propriedade Industrial). Para nossa surpresa, já existe um pedido de registro do nome feito por outra instituição. Se eles ganharem, não poderemos usar mais esse nome legalmente”, lamenta Medeiros, citando, ainda, a urgência em patrimoniar tudo para que haja uma retomada das ações do centro cultural. “O Ministério Público está de olho na forma como será feito o aluguel do teatro e na patrimoniação”, completa.
A continuidade dos muitos projetos criados e encaminhados pelo Pró-Música antes da doação está sujeita, então, às novas ordens administrativas e também ao orçamento da própria universidade, que, segundo o supervisor do centro cultural, pode ser impactado diante da incorporação. “O Conselho Superior aprovou a doação porque ficou constatado que o Pró-Música era autossustentável, por conta do dinheiro da escola e do aluguel do teatro, e a universidade não precisaria despender de verba. Sem o teatro e sem a escola, a instituição não mais se sustenta. Vamos ter uma entrada de verba com o aluguel, mas isso vai para a conta única, o que é burocrático e exigirá um investimento imediato da universidade.”
Programação futura
“Como o IAD tem um bacharelado em música, precisaremos oferecer aos alunos vivência em uma orquestra e em um coral. Dessa forma, vamos pensar em uma maneira de unificar todas esses conjuntos já existentes”, defende Marcus Medeiros, pontuando, ainda, a presença de professores e universitários em outros programas. “A ideia é que o coral formado no IAD vá a igrejas e cante, atendendo o projeto ‘Música nas igrejas’. Para os concertos, não conseguiremos pagar cachê, só diárias e passagens. Só poderemos trazer quem se disponha a participar assim”, ressalta. Em relação à 26ª edição do Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga, cancelado e, em menos de uma semana depois, confirmado pela UFJF, a produção está sendo realizada, e a previsão é de que ele aconteça na primeira semana de novembro.
Em cerca de oito dias (nos anos anteriores eram 15), a programação contará, apenas, com concertos e cursos de música colonial brasileira e música antiga, excluindo outros gêneros. “Estamos em negociação para trazer a Orquestra Barroca do Amazonas, que foi uma indicação da própria Petrobras, que também a incentiva. Ainda estamos conversando com professores e pesquisadores da área, criando uma agenda. Nossa programação está quase toda fechada. Queremos fazer um CD que seja um registro de várias apresentações do festival”, anuncia Medeiros. “Se o Pró-Música agora é da universidade, também queremos trazer o festival para a UFJF. A cidade precisa perceber que isso é importante e necessário”, acrescenta a pró-reitora de Cultura Valéria Faria. Numa discussão repleta de quereres, a comunidade aguarda, com muito menos opções culturais do que o habitual.