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Cotidiano digitalizado


Por MARISA LOURES

14/06/2015 às 04h00

A estagiária Yasmin Corrêa manuseia um dos grossos volumes do acervo contendo mais de 70 anos de história da cidade (Fernando Priamo)

A estagiária Yasmin Corrêa manuseia um dos grossos volumes do acervo contendo mais de 70 anos de história da cidade (Fernando Priamo)

Foi preciso esperar oito anos para que o acervo dos extintos “Diário Mercantil” e “Diário da Tarde”, ambos do grupo Diários Associados, fosse, finalmente, digitalizado. O processo se tornou possível em 2011, por meio de uma parceria entre o Arquivo Histórico Municipal, guardião do material desde 2003, e a Funalfa, que cedeu um scanner de alta precisão para ler os negativos das fotografias feitas entre 1950 e 1983 e se responsabiliza pela contratação dos dois estagiários destinados ao projeto. Contando com os recursos disponíveis, o trabalho seguiu em frente de forma morosa. Até agora, foram positivados cerca de dez mil imagens, compreendendo o período que vai dos idos de 1950 até os anos 1960, mas a atividade está parada há alguns meses por falta de pessoal.

Assim como na época em que foi dado o sinal verde para a iniciativa, a dimensão exata da coleção é desconhecida, em virtude do grande volume existente. “O trabalho é homérico. Nossa intenção é finalizar tudo para disponibilizar para a população o mais rápido possível”, sentencia Antônio Henrique Duarte Lacerda, supervisor do Arquivo Histórico, destacando que o primeiro passo é a organização prévia dos filmes, seguindo critérios de data ou assunto. “Sempre digitalizamos o acervo mais antigo primeiro, não podemos deixar acervo de 1853 de lado para fazer o que é mais recente e corre menos risco. Caso tivéssemos acabado de fazer a organização física, já teríamos uma ideia de quantos negativos temos.”

De acordo com a assessoria de imprensa da Funalfa, a instituição forneceu estagiários até outubro de 2014 e, no momento, estuda a possibilidade de mantê-los. A retomada do projeto depende de disponibilidade orçamentária.

Registros inéditos

O encerramento das atividades do “Diário Mercantil” pegou Juiz de Fora de surpresa, assim como os repórteres e fotógrafos que lá documentavam a memória da cidade. São mais de sete décadas de história. O editor de fotografia da Tribuna, Roberto Fulgêncio, ex-funcionário do “Diário Mercantil”, conta que, no dia fatídico, foram deixados dois espaços em branco, um na capa e outro na última página da edição, para o comunicado do fim do periódico. Nos primeiros anos após o fechamento, o destino das fotografias era incerto, como relatou o fotógrafo Jorge Couri, morto em 19 de maio passado, em reportagem da Tribuna de 2011. Sabe-se que a coleção esteve durante um longo tempo arquivada em uma casa da Rua Oswaldo Cruz, onde estava instalada a sucursal do “Estado de Minas”, também pertencente ao mesmo grupo. Antes da doação para o Arquivo Histórico, chegou-se a cogitar o envio do material para Belo Horizonte.

No Arquivo Histórico, as dezenas de pacotes com os negativos e jornais impressos estão acondicionadas em duas grandes estantes de aço. “Várias caixas sofreram ações do tempo, e as gelatinas dos negativos já estavam colando uma na outra quando chegaram aqui. Sabemos que é necessário um trabalho mais profissional e técnico, além de melhores condições de ambiente para resolver o problema definitivamente. É um paliativo”, afirma Antônio Henrique.

De acordo com o supervisor, o conjunto de negativos inclui registros nunca publicados nas páginas dos jornais. “É uma quantidade imensa de imagens das diversas facetas da vida cotidiana do município. Dá para percebermos todo o processo de transformação da cidade, desde o trânsito até a forma de se vestir e de se relacionar. São nuances do cotidiano congeladas em negativos, o que é fantástico.”

Acesso liberado

Embora a consulta ao conjunto ainda seja custosa, o acesso é liberado para o público no local. “Quando a pessoa tem interesse e temos um computador disponível, liberamos um HD com as imagens. O acesso é sofrível, é crítico, mas qualquer um que quiser pesquisar vai pesquisar”, garante o supervisor do Arquivo Histórico, Antônio Henrique.

Em busca de documentos sobre a transformação urbana de Juiz de Fora, o arquiteto Rogério Mascarenhas visitou o acervo e aprova o trabalho que vem sendo realizado, apesar de acreditar que as positivações já feitas não representam nem 1% do que chegou para o leitor. “Tinha muita foto relacionada à violência urbana, corpos estendidos no chão e que, provavelmente, é inédita. Está tudo arquivado por ordem cronológica, mas percebi que, em 1952, por exemplo, só havia umas 50 fotos, o que não corresponde, certamente, ao que saiu no jornal no período. O arquivo foi aberto para mim sem qualquer restrição”, observa Rogério.

Antônio Henrique comenta que um sonho antigo da equipe do Arquivo Histórico é levar todo o seu acervo para a internet. “Mas os órgãos financiadores sumiram.” Durante a gestão do ex-prefeito Carlos Alberto Bejani, a instituição havia conseguido captar recursos por meio de leis de incentivo para a digitalização, mas, devido às dívidas do município, a verba não chegou a ser repassada.

Depois disso, os avanços nesse sentido foram poucos. A medida atenderia até mesmo a necessidade de identificação das imagens pertencentes ao “Diário Mercantil”, uma vez que não era costume da época creditar os cliques, conforme afirma o ex-fotógrafo do grupo Toninho Carvalho. “Não havia uma lei que regularizava a creditação. Só colocávamos nossos nomes em um papelzinho que envolvia as imagens. Nesses negativos, estão flagrantes incríveis, como o prefeito Dilermando Cruz de pijama jogando água no povo durante o incêndio do Edifício Clube Juiz de Fora”, lembra o fotógrafo.

Um dos poucos com propriedade para identificar as imagens, Jorge Couri reconheceu como seus alguns dos registros que compuseram a exposição feita em sua homenagem na programação do “Foto 11”. “Depois disso, ele não teve mais oportunidade e nem saúde”, lamenta o supervisor. “Estando na internet, os próprios consulentes poderiam fazer isso, e a informação ficaria em quarentena para ser validada.”