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Amor que transcende rótulos


Por JÚLIA PESSÔA

14/04/2013 às 07h00

"Meu nome é Luísa. Eu tenho dois pais." É com a descomplicação e a isenção de julgamentos, típicas das crianças, que a protagonista do livro infantil "Toda forma de amor", da pedagoga Bárbara Marques, se apresenta aos leitores, explicando o que define uma família como tal: o amor. Voltada para o público entre 4 e 10 anos, a publicação de textos curtos e linguagem simples – nem por isso carente de lucidez – busca fazer com que filhos e filhas de famílias homoparentais (com duas mães ou dois pais) sintam-se representados no universo da literatura infantil.

Para a criadora de Luísa, a simplicidade e a franqueza são os pontos fortes da abordagem e podem contribuir para desmitificar o tema. "Sem demonstrações de preconceito, sem estigmas, sem piadinhas, sem estereótipos. Talvez esse seja um caminho adequado, sobretudo com crianças", opina Bárbara. Cheio de cores, o livro, que traz ilustrações de Felipe Lopes, foi lançado na última sexta-feira e pode ser adquirido por R$ 5 no Espaço Casa Verde (3212-7650) e no Centro de Educação Intensiva Sistema 3 (3212-6496).

 

 

‘Não estamos invisíveis’

Criado em 2008 como um trabalho acadêmico, "Toda forma de amor" é publicado em um cenário em que os direitos dos homossexuais vem sendo amplamente discutido, devido a questões como o debate em torno da legalização do casamento gay e a campanha popular para que o deputado Marco Feliciano (PSC), que já deu diversas declarações homofóbicas, deixe a Comissão de Direitos Humanos (CDH).

Há pouco tempo, a cantora Daniela Mercury divulgou seu relacionamento com outra mulher, a jornalista Malu Verçosa, no Instagram, postando uma foto que exibia as duas muito sorridentes e com alianças nas mãos, acompanhadas da legenda "Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar". "Foi uma feliz coincidência o livro ser lançado neste contexto, porque as pessoas ficam mais interessadas, curiosas e querem saber sobre o assunto, buscando informações e não argumentos sem nexo falando que ‘ser gay é errado’", diz Bárbara, que teve seu livro divulgado pelo deputado Jean Wyllys (PSol) em sua página no Facebook, alcançando, mais de 500 compartilhamentos em 24 horas.

Para as professoras da UFJF Cláudia Lahni e Daniela Auad, a família de Luísa apareceu em um momento muito oportuno. Juntas sob o mesmo teto há cerca de dois anos, elas são mães da pequena Leila, de 5 anos, "uma coisa deliciosa", nas palavras corujas da "mãe Dani". "Um trabalho como este mostra que a realidade é muito diferente dessa heteronormatividade, da heterossexualidade presumida da sociedade. Mostra que todos nós temos o direito à representação em livros didáticos e diversas outras esferas culturais. O livro respeita o direito à comunicação das minorias e contribui para sua ampliação", opina ela, que integra o corpo docente da Faculdade de Educação.

"Aqui em casa sempre lemos livros infantis e, muitas vezes, damos outra versão para as histórias tradicionais, exatamente pela grande falta de espaço, na cultura, para formações familiares de que o IBGE já identifica, contabiliza e classifica. Cada representação destas legitima que não estamos invisíveis, estamos aqui e precisamos de políticas públicas que defendam nossos direitos", arremata Cláudia, que leciona na Faculdade de Comunicação.

Após dar declarações no tom de "A Aids é o câncer gay", o presidente da CDH, Marcos Feliciano incitou a indignação de diversos brasileiros, que se manifestaram nas ruas e nas redes sociais, popularizando os dizeres "Feliciano não me representa", usados sobretudo para rebater manifestações de homofobia do político. "Acho que as coisas estão avançando, e mesmo ‘Felicianos da vida’ contribuem para isso, ao fazer com que a sociedade debata mais o tema, algo fundamental", opina o personal trainer Ricardo Pires, que há 15 anos fala abertamente sobre sua homossexualidade.

Na contramão desta falta de representação na política, personalidades e produtos da cultura têm se manifestado cada vez mais em prol da igualdade de direitos. Recentemente, o ator Alexandre Nero, no ar no folhetim "Salve Jorge", da Globo, respondeu ao comentário de uma fã no Instagram. Na rede, ela dizia que não era homofóbica, mas questionava a postura do artista em defender o casamento homossexual, perguntando como ele explicaria aos filhos quando visse um casal gay se beijando. "Os gays merecem conquistar o que lhes é de direito. Nada mais do que isso. Acho tão que fica difícil achar palavras para lhe explicar. Eles somos nós, você não compreende?", rebateu o ator no aplicativo.

Em entrevista à Tribuna, Alexandre, que é heterossexual, contou que, para ele, a visão da mulher reflete uma opinião majoritária no Brasil, de pessoas que possuem uma visão deturpada da homofobia, e reproduzem atitudes e discursos carregados de preconceito. "Quando escrevi aquilo, não pensei nos gays, como também não teria pensado nos negros, se fosse o caso, ou mulheres, ou gordos, ou altos, ou baixos. Pensei em humanidade, que ninguém pode ter o direito de interferir na vida alheia."

 

 

‘Estamos aí’

Mesmo na cultura, espaço pretensamente aberto à diversidade e à liberdade de expressão, a voz da homossexualidade encontra barreiras para ecoar. Aclamado em sua pré-estreia no Festival de Berlim, o filme "Flores raras", que tem direção de Bruno Barreto e é protagonizado por Glória Pires, deparou-se com diversas portas fechadas nas tentativas de angariar patrocinadores na iniciativa privada. O longa narra a relação amorosa entre a poeta Elizabeth Bishop (Miranda Otto), ganhadora do Pullitzer, e da arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (Glória Pires), que assinou o desenho do Aterro do Flamengo, com estreia nacional prevista para 16 de agosto.

Segundo a produtora Paula Barreto, grandes predicados da obra, como uma indicação ao Oscar no currículo de Bruno, o retrato da vida de duas mulheres mundialmente reconhecidas por seu trabalho e o peso de uma Glória Pires no elenco ficam soterrados sob o preconceito. "Tudo é esquecido porque estamos falando de um ‘amor gay’. Amor é amor e não deve ser rotulado. Tenho muito orgulho de ter participado de um projeto que retrata os homossexuais de uma maneira tão bonita,e os ajuda a dizer ao mundo: ‘estamos aí’."

"Não defendo o casamento homossexual, mas o de todo mundo, o direito de você poder se casar com a pessoa que você ama, independentemente de quem ela seja. Essa necessidade de distinção mostra que ainda temos um longo caminho a percorrer na busca por igualdade", opina Daniela Auad, que revela fazer questão de manter o pai de Leila na cena familiar.

No trajeto em que cada passo é essencial, projetos como "Toda forma de amor" ajudam a formar futuros adultos como a pequena Leila, que não apenas vê sua família com naturalidade, mas dá aos colegas, ainda que não saiba, lições sobre a compreensão da diversidade do mundo e da sociedade, como conta a mãe Cláudia. "Em uma brincadeira típica da idade na escola, as crianças fingiam ser pais e mães. Uma menina disse que queria ser a mãe, lhe disseram que o papel já era de uma colega, e Leila respondeu: "Mas pode, eu tenho duas mães". E a brincadeira prosseguiu, sem qualquer questionamento ou empecilho."