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Parque Arqueológico em Andrelândia abriga pinturas rupestres de 3.500 anos

Começo do percurso arqueológico de Minas Gerais fica na Serra da Mantiqueira e tem 650 artes e artefatos de povos pré-históricos


Por Elisabetta Mazocoli

09/11/2025 às 06h00

Parque Arqueológico Andrelândia
Parque Arqueológico da Serra de Santo Antônio fica em Andrelândia, a 150 km de Juiz de Fora (Foto: Bruno Figueiredo)

O começo do percurso arqueológico de Minas Gerais fica no Sul do estado, bem na Serra da Mantiqueira. “Eu fico olhando e pensando, mas vai saber. A gente tenta adivinhar o que eles poderiam querer dizer pra gente”, diz o guia Evaristo Teixeira Neto, de 78 anos, enquanto olha as pinturas rupestres do Parque Arqueológico da Serra de Santo Antônio, em Andrelândia. Já há 17 anos trabalhando no local e conhecendo de perto as 650 artes feitas há cerca de 3.500 anos pelos povos nômades que circulavam a região, ele ainda sente a emoção que aquele registro carrega, pelo testemunho, em pedra, de um passado tão distante e que se manteve conservado ali. Quem busca interpretação pode enxergar calendários, lagartos e formas geométricas, mas encontra principalmente o enigma da comunicação. Quem vê de perto se torna tradutor de uma época, responsável por tentar ler o outro, mas também por assimilar a impossibilidade de compreensão completa. Os registros, que foram descobertos nos anos 70, atraem olhares do mundo inteiro e pesquisas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em local que fica aproximadamente a 150 km de Juiz de Fora.

Parque Arqueológico Andrelândia
Pinturas foram feitas com sangue de animais e resina de árvores para fixar (Foto: Bruno Figueiredo)

Para chegar até as pinturas arqueológicas é preciso fazer uma caminhada de cerca de 40 minutos, em subida. O local apresenta baixa dificuldade, mas por estar bem abrigado, entre as pedras da serra, conseguiu ter as inscrições guardadas pelo tempo. “As pessoas não acessavam e também ficava protegido da chuva. Eles procuravam lugares assim”, explica Evaristo. O território do parque, conforme ele explica, tem 12 hectares no total, e era uma propriedade privada. Os donos, no entanto, não sabiam da importância histórica das pinturas, que foram descobertas na década de 70. Mas já havia quem soubesse de sua existência. Como ele explica, já haviam muros de pedras do período colonial, construídos por pessoas escravizadas, muito próximos ao sítio arqueológico, então essa população já tinha conhecimento do registro ainda no século XIX.

O ponto de virada para funcionamento do parque foi quando equipes lideradas pelo arqueólogo André Prous visitaram o sítio nos anos de 1984 e 1985 e fizeram as primeiras pesquisas. Naquele momento, foi descoberto que as pinturas foram feitas em três períodos distintos, e têm níveis distintos. “Eles faziam as pinturas com sangue dos animais e usavam a resina das árvores para fixar”, explica ele. Nos estudos realizados pela UFMG, foi visto que as cores vermelhas, ocres e amarelas foram produzidas com pigmentos minerais (óxidos e hidróxido de ferro), e aquelas que têm uma única cor, geralmente com predominância vermelha, são as mais antigas do parque. No nível mais recente existem grandes linhas nas cores vermelho e amarelo, bem como seis figuras com presença do branco, que era obtido com carbonatos, argilas brancas (caulim) ou osso calcinado.

No caminho para chegar até as pinturas, é preciso passar pelo “batismo”. Evaristo explica que é a entrada pela primeira gruta do parque, e quem passa vê tudo escuro, até que “renasce” em meio a luz e ao verde do parque. Essa comparação religiosa não é coincidência: o abrigo onde as pinturas rupestres ficam, destino final da caminhada, era, ao que tudo indica, um local usado para a prática de rituais. 

Artefatos encontrados acidentalmente

Parque Arqueológico Andrelândia
O guardião do parque, Evaristo Teixeira Neto, de 78 anos (Foto: Bruno Figueiredo)

O acaso também teve sua parcela de responsabilidade na descoberta dos vestígios deixados pelos povos antigos. Exemplo mais óbvio disso é a canoa que o parque abriga, feita de madeira, com 3,10 m de comprimento e largura média de 70 cm. Ela foi encontrada em 2014, por Douglas Fonseca, na época com 9 anos, em Rio Grande. “Ele viu a canoa e chamou o pai, que percebeu que era muito diferente e chamou as autoridades”, conta Evaristo. O contato com esses artefatos ainda faz parte do cotidiano dos moradores de Andrelândia, e fez por muitos anos. Muitas das cerâmicas que descobriram e foram para o museu arqueológico, por exemplo, estavam perdidas em propriedades da região e foram encontradas pelos proprietários.  

Mas considerando a imponência da canoa, o NPA, que é o responsável pelo parque, providenciou o envio de uma pequena amostra de sua madeira a um laboratório nos Estados Unidos para que fosse avaliada a data de quando foi feita. O resultado revelou que foi construída por volta de 1.600 por povos indígenas que precisavam se deslocar pelos rios para caça, defesa e ataque, muito antes da chegada das primeiras bandeiras paulistas à região do Sul de Minas. Estudos do Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo também indicaram que o objeto foi confeccionado em um tronco de Araucária angustifólia, conhecida popularmente como Pinheiro do Paraná, que é uma árvore ameaçada de extinção, mas que ainda existe na região do Parque Arqueológico.

‘O nosso tesouro’ 

Parque Arqueológico Andrelândia
Visitas devem ter acompanhamento de guia para evitar depredações (Foto: Bruno Figueiredo)

Evaristo percorre o trajeto do parque todos os dias em que há visitação guiada, sem perder o fôlego. “Aqui tem gavião, onça, cobra, lobo-guará. Mas já se acostumaram comigo, já me conhecem”, conta ele, que não se define mais como um guia, mas como um guardião do parque. Mesmo já sabendo todas as trilhas, conta que sempre tem alguma coisinha diferente com a qual se surpreender, seja pela disposição das nuvens, pelo barulho dos passarinhos ou pelas novas interpretações que podem surgir sobre as mesmas mensagens deixadas tantos anos atrás. “Eu chamo de ‘nosso tesouro’. Mas tem gente que não dá valor”, diz ele. 

A desvalorização de um patrimônio histórico como esse foi um dos problemas mais graves que acometeu o parque, e que inclusive fez com que parte da mesma pedra que conta com a arte rupestre fosse depredada com frases e pichações recentes. Em 2024, também houve um incêndio na mesma vegetação, o que representou mais uma ameaça à preservação das pinturas. Por isso, Evaristo destaca a importância das visitas serem feitas apenas com guia e seguindo todos os cuidados para impedir a depredação. Esse trajeto, que se inicia no Sul de Minas, tem as mesmas inscrições feitas no norte do estado, na Serra do Cipó, chegando a Peruaçu, indicando o trajeto que os povos faziam — uma travessia que só tem fim pra quem se dispõe a decifrar os mistérios de Minas.

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