Após interrogatório do réu, julgamento de acusado por feminicídio é interrompido
Sessão será retomada na manhã desta quarta; próxima etapa é o debate entre as duas partes

Após quase 12 horas de duração, o julgamento do feminicídio da psicóloga Marina Gonçalves Cunha, de 35 anos, pelo marido – o empresário Pedro Araujo Cunha Parreiras – foi interrompido por volta das 20h15 nesta terça-feira (24). A retomada da sessão está marcada para as 9h30 da quarta-feira (25).
A decisão proferida pela juíza Joyce Souza de Paula, que preside a sessão, foi tomada em função do horário tardio. Após todas as testemunhas – tanto da acusação quanto da defesa – serem ouvidas, foi realizado o interrogatório do réu no Fórum Benjamin Colucci, no Centro de Juiz de Fora. A próxima etapa é o debate entre as duas partes.
Em seu interrogatório, Pedro iniciou suas falas confessando o assassinato. Entretanto, afirmou, perante ao júri popular, que “considera um acidente”. “Nunca quis tirar a vida da Marina”, disse. Na versão do acusado, a vítima teria questionado uma suposta traição por parte dele que, segundo Pedro, era falsa. A juíza também citou questões financeiras, relatadas por algumas das testemunhas, mas o réu não deu mais detalhes.
Ainda na defesa do acusado, na ocasião do ocorrido a esposa teria se dirigido a ele com uma faca na mão para atacá-lo. Para se defender, Pedro afirma ter tentado tirar o objeto da mão dela e imobilizá-la, com a mão na região abaixo do pescoço. Eles, segundo o acusado, saíram da cama, bateram na quina da parede e caíram. Ao acender a luz, o réu teria notado que a esposa já estava sem vida no chão.
A partir desse momento, Pedro conta que decidiu retirar o corpo. Ele confirmou a história de que o colocou, enrolado em um edredom, em um carrinho de supermercado para levar até o carro. O acusado conta que pensou em sair da cidade, mas “pensou nos filhos” e deixou o corpo em Juiz de Fora.
Alegações e divergências
Ainda no seu interrogatório, o empresário apontou supostas contradições em relação a informações constatadas no processo. Dentre elas, cita que os filhos não presenciaram o fato, apesar de o laudo constatar o contrário em relação ao mais velho, de 6 anos na época. Além disso, ele alegou não ter utilizado produto para desfigurar o rosto de Marina.
Seguindo na dinâmica do fato, ele afirma que não desferiu socos no rosto da vítima, mas que ela teve um corte com sangramento. Também questionou o laudo de asfixia. A todos que perguntaram sobre o paradeiro dela enquanto estava desaparecida, ele confirmou que mentia que a esposa tinha viajado para realizar um curso.
Acusado colocou corpo de Marina em carrinho
A denúncia do Ministério Público indica que, em 21 de maio de 2018, por volta das 20h, Pedro teria asfixiado Marina no apartamento do casal, na Rua Monsenhor Pedro Arbex, causando sua morte. Em seguida, alterou as condições do local do crime, limpando o quarto e lavando as roupas utilizadas pela vítima. Laudos periciais com base no uso de luminol constaram vestígios de sangue no piso, entre a cama do casal e o armário, na parede lateral esquerda, próximo à entrada do quarto, na parede próxima ao banheiro, sobre o colchão e na calça jeans clara pertencente à vítima.
“E ainda, no dia 22/05/18, por volta das 00h42min, escondeu o corpo da vítima em um carrinho de compras para tirá-lo do local, deslocou-se até a Rua Eugênio do Nascimento, próximo ao n° 2.560, Bairro Aeroporto, e, com a intenção de ocultar o cadáver, adentrou em uma mata fechada, e o abandonou”, destaca o MP sobre a ação na garagem do prédio flagrada pelas câmeras, quando o corpo foi retirado do carrinho e colocado no porta-malas de um carro, antes de ser desovado na mata do Parque da Lajinha.
Também foi constatado que o acusado e a vítima discutiram sobre problemas financeiros e sobre o relacionamento do casal, “ocasião em que Pedro a imobilizou, a agrediu com diversos socos no rosto e a asfixiou, levando-a a óbito.” Posteriormente, de acordo com o MP, ele alterou o local do crime, retirando a aliança, os brincos e as roupas da vítima. Em seguida, Pedro foi até um supermercado 24 horas para fazer compras. Ao retornar, pouco depois da meia-noite, usou um carrinho do condomínio para subir com as mercadorias.
Depois de seguir até a Cidade Alta, o acusado teria arrastado o corpo mata adentro por cerca de 11 metros e, para evitar que o corpo fosse reconhecido, jogou um produto na região da cabeça da vítima, que estava nua e teve o rosto desfigurado. Segundo o MP, o crime foi praticado contra mulher por razões da condição de sexo feminino, no âmbito da violência doméstica e familiar.
“O denunciado matou sua esposa e mãe de seus três filhos por motivo fútil, derivado de discussão anterior, e com emprego de asfixia, em razão da vítima ter sido esganada até a morte, tendo sua defesa dificultada, ao ser surpreendida com tamanha brutalidade dentro de seu próprio lar, por aquele com quem mantinha relação conjugal e, assim, supostamente deveria confiar, e na presença do filho mais velho do casal, que se encontrava acordado.”
A Tribuna entrou em contato tanto com a acusação como com a defesa para obter posicionamentos. A da acusação optou por não se manifestar, enquanto a da defesa não respondeu até a publicação da matéria.
Tópicos: feminicídio