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Igrejas auxiliam tratamentos de dependentes químicos


Por Flávia Crizanto

17/04/2013 às 06h00

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Em frente ao albergue destinado à população de rua, no Centro, estão personagens de muitas histórias de enfrentamento ao vício da dependência química. Alguns marcados por tentativas frustradas de recuperação, outros pela falta de vontade de buscar um novo caminho e também aqueles que se apegaram às oportunidades vindas de movimentos religiosos. Um deles é J., 26 anos. Ao telefone, conversa com alguém que chama de pai. "Ele vem para trazer um dinheiro para mim", esclarece. Alguns minutos depois, chega outro homem, aparentando ter menos idade. Não era o pai biológico de J., mas um missionário de uma igreja evangélica, que realiza trabalhos com a população de rua daquela região. "Também já usei drogas, sei o quanto é difícil. A vontade de voltar a utilizar é grande. Nessa hora, precisamos ter com quem conversar, para nos amparar. É isso que fazemos aqui", explica o missionário.

A história de J. (foto) é um dos exemplos que demonstram que, enquanto o próprio Estado não oferece estrutura para dar suporte aos dependentes químicos, parte desse espaço é ocupado pelo trabalho de instituições religiosas. Algumas tiveram, inclusive, convênio para atender pacientes do SUS, como três comunidades terapêuticas de Juiz de Fora, que foram credenciadas em 2011, mas começaram este ano sem o vínculo. Nestes locais, a terapêutica se concentra no fortalecimento físico, psíquico e espiritual.

Mesmo havendo questionamentos com relação a estes tratamentos, a opção era uma das poucas assistências de longa permanência credenciadas na cidade. Uma delas era a Associação Amor e Restauração (Apar). Hoje ela continua funcionando, mas sem o convênio. A entidade é uma das três no estado que faz atendimento exclusivo para mulheres usuárias de drogas. No tratamento, há inclusão de atividades dedicadas ao apoio espiritual. "Não ensinamos religião, apenas mostramos a Bíblia e seus ensinamentos. Quando a pessoa chega ao tratamento, já teve muitas perdas. A religiosidade ajuda a recuperar laços que, muitas vezes, não existem mais", explica o responsável pela comunidade, pastor Ernani Silva.

J.

 

Trabalho conjunto

Para o pesquisador e coordenador do Centro de Referência em Pesquisa, Intervenção e Avaliação em Álcool e Drogas (Crepeia), Telmo Ronzani, é impossível designar um modelo

ideal de terapêutica. "Sabemos que, no mundo inteiro, o tratamento para dependentes químicos está longe do ideal. O melhor, na verdade, é aquele que pode ser encontrado facilmente por quem precisa." Telmo, entretanto, ressalta a necessidade de se entender a função de cada serviço prestado. "Temos que ter consciência de que as comunidades terapêuticas, por exemplo, não foram feitas para ocupar o que é de responsabilidade do serviço público. Quando isso acontece, significa que o sistema de atendimento não funciona", completa. "A organização da rede de atenção não está bem estabelecida, os serviços não estão integrados. Quem quer se tratar acaba batendo de porta em porta.

Percebemos que nós temos profissionais motivados para realizar um bom trabalho. No entanto, o que a gente precisa é reforçar e fazer as pessoas trabalharem juntas."

Enquanto faltam informações e políticas públicas para o setor, o Brasil é hoje o maior mercado de crack do mundo, de acordo com o segundo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad) do Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas, realizado em 2012. Em recente visita a Juiz de Fora, feita por meio de um convênio com a

UFJF, o consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e coordenador do Center for Addiction and Mental Health, Brian Rush, destacou a falta de continuidade de projetos como um grave problema para o combate ao uso de drogas. "Quando uma nova gestão política começa, muitas vezes, vem com outra filosofia e, assim, mudam pessoas e a administração. Quem entra precisa começar tudo de novo. No Canadá, nós não temos esse tipo de problema, quando o Governo é alterado, o sistema burocrático não é."

 

Conselho

Apesar dos problemas, um passo importante dado este ano foi a criação de um grupo intersetorial formado para a instalação do Conselho Municipal de Políticas Integradas sobre Drogas (Compid). A medida é uma exigência para a arrecadação de recursos dos governos estaduais e federais. Entre as funções do Compid estão a de viabilizar políticas de redução e combate ao uso de drogas e a fiscalização dos serviços de tratamentos dos dependentes químicos. A equipe já realizou a estruturação da proposta que visa a incluir a cidade no projeto "Crack, é possível vencer" do Governo federal. Também existe a expectativa da implantação do "Consultório na rua", uma remodelação do antigo projeto "Consultório de rua", com uma equipe multidisciplinar que atua fazendo a abordagem da população de rua e, muitas vezes, encaminhando para tratamento.

 

Cresce demanda por tratamento

Em Juiz de Fora, a demanda por tratamento de drogas é crescente. Em 2010, o Centro de Apoio Psicossocial (Caps) Álcool e Drogas (AD) recebia cerca de 510 casos novos, realizando 11.850 procedimentos. No ano passado, esse último número mais do que dobrou, passando para 26.502, com o recebimento de 697 novos casos de dependentes. "Precisamos melhorar nosso sistema de tratamento no município, tanto em relação à cobertura quanto à qualidade", opina o coordenador do Centro Regional de Referência sobre Drogas de Juiz de Fora, Telmo Ronzani. A mesma opinião também é compartilhada pelo atual secretário de Saúde, José Laerte Barbosa. "A verdade é que não existe uma rede para atendimento dos dependentes químicos. Estamos tentando montar uma rede substitutiva que dê conta dos pacientes não hospitalizados, a partir de todas as ferramentas disponibilizadas pelo Ministério da Saúde. Por isso já estamos trabalhando para habilitar mais um Caps AD, tipo II, atendendo às demandas referenciadas pelas unidades de atenção primária à saúde (Uaps), com leitos de desintoxicação diurno, oferecendo 36 vagas semanais. Além disso, também será instalado o Caps tipo III, com atendimento 24 horas", revela o secretário.

 

Pós-tratamento

"Internar para desintoxicar é fácil, difícil é conseguir fazer com que a pessoa deixe de usar a droga novamente", alerta Telmo. A observação feita pelo pesquisador pode ser comprovada por meio de uma breve visita aos pontos onde se concentram a maior parte das pessoas em situação de rua em Juiz de Fora, como Parque Halfeld, Terreirão do Samba, Largo do Riachuelo, e a Avenida Getúlio Vargas, próximo à Rua Marechal Floriano Peixoto. Nesses locais, não são poucos os relatos de pessoas que já passaram por tratamento. "Quando saí da clínica, ainda tentaram me ajudar, arrumaram uma vaga no Caps, mas lá a gente fica só de dia. Quando chega a noite e vem o primeiro aborrecimento, a gente acaba entrando de novo nesse mundo. Acabei bebendo e voltei a usar drogas. Mas no fundo acho que dei até sorte de ter conseguido me tratar uma vez", relata um homem de 35 anos, dependente de crack.

 

Depoimentos

"O que vicia não são drogas, o que vicia é a rua. Estou aqui na porta do albergue não sei há quanto tempo. Vejo que muitos conseguem tratamento, voltam gordos, mas é só chegarem na rua e caem nas drogas de novo." S., 28 anos

"Já fiquei internado. Quando saí do tratamento, ainda tentaram me ajudar, arrumaram uma vaga no Caps, mas lá a gente fica só de dia. Quando chega a noite e vem o primeiro aborrecimento, a gente acaba entrando de novo." C., 35 anos

"O usuário de drogas se fecha no mundinho dele. A única coisa que nos prende ao mundo real são os nossos laços familiares. Fiquei em tratamento em outro estado por seis meses, mas, na minha primeira tragédia familiar, caí nas drogas. Em vez de tratamento, queremos trabalho." R., 40 anos

"Aos 17 anos, cheirava loló, depois, fui para cocaína. Quando vi, já fazia parte do tráfico no Ipiranga. Me acabei no crack. Não posso voltar lá no bairro, senão me pegam. Uma vez me levaram para uma clínica em Santos Dumont. Mas saí da clínica e voltei ao crack. Fui encontrar uma razão para largar as drogas na igreja. O pessoal começou a vir na porta do albergue, conversar e nos convidaram para participar do culto. Eu fui. Ainda tenho vontade de usar drogas, mas sei que tenho alguém para me amparar." J., 26 anos

 

Entrevista: Brian Rush/consultor da OMS

‘ A solução está na cooperação e na colaboração’

"Não

O canadense Brian Rush é um um dos maiores pesquisadores do mundo na área de drogas. Consultor da OMS e coordenador do Center for Addiction and Mental Health, ele também está atuando em parceria com a UFJF em um projeto que visa a estabelecer métodos de avaliação e melhorias dos sistemas de saúde pública. Em uma recente visita à cidade, conversou com a Tribuna e fez uma breve avaliação sobre o sistema de tratamento para dependentes químicos brasileiro.

 

– Tribuna – Por que o senhor escolheu o Brasil e Juiz de Fora?

– Brian Rush – Os problemas relacionados a drogas no Brasil são sérios. Às vezes, as pesquisas não escutam a comunidade para entender os problemas, e nós estamos correndo atrás desta relação. Aqui encontramos essa abertura no projeto do professor Telmo Ronzani, na UFJF.

 

– Pelo que o senhor observou em Juiz de Fora, quais os principais desafios da cidade?

Um dos desafios é maneira como o Governo trabalha. Quando uma nova gestão começa, vem também uma nova filosofia, mudam pessoas e quem entra precisa recomeçar tudo de novo. No Canadá, não temos esse tipo de problema. A gestão é trocada, mas o sistema burocrático não é alterado. Além disso, falta conexão entre as pessoas. Às vezes, os próprios profissionais não têm conhecimento de como o sistema funciona e de quais ferramentas estão próximas a ele.

 

– Você vê novos caminhos para o problema?

Não existe uma solução real para quem fica sentado esperando por mais recursos. Primeiro é preciso admitir que existe um problema no sistema e não desistir. Depois trabalhar para construir novas relações na rede de atendimento. Para enfrentar as drogas, não existe apenas uma solução. A solução está, na verdade, na cooperação e na colaboração.