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Trânsito sinaliza esgotamento


Por RENATA BRUM*

14/04/2013 às 07h00

"Juiz de Fora vai parar." O que soava como alerta remoto de especialistas em trânsito no início dos anos 2000 tem se transformado em realidade cada vez mais próxima. Em horários de pico, dias de chuva e vésperas de feriados, o juiz-forano já enfrenta congestionamentos em vários corredores centrais, o que resulta no aumento do tempo para percorrer os mesmos trechos. Com mais de 210 mil veículos em circulação – segundo os últimos dados compilados pelo Departamento Nacional de Trânsito (Denatran) -, a cidade não tem mais rotas ou acessos alternativos e, até em horários antes relativamente tranquilos, os motoristas são surpreendidos por retenções. Os nós que impedem a fluidez do tráfego se formam por diversos motivos: uma simples obra pública, uma batida de carros, a falta de educação de condutores que insistem em estacionar em lugares irregulares, paradas de condutores fechando o cruzamento e até a inadequação do tempo de semáforos. Diante da demora no andamento das obras viárias e da ausência de projetos amplos visando a mobilidade urbana, como a remodelação do transporte coletivo, a população é cada vez mais refém do caos viário.

A esperança em minimizar os problemas estava no conjunto das obras previstas desde a Administração Municipal passada, com a edificação de três pontes, três viadutos, dois mergulhões e acessos complementares, o que possibilitaria a transformação da Avenida Brasil em eixo estrutural da cidade e o fim das paradas de veículos nas passagens da linha férrea. Entretanto, mesmo após as promessas nos últimos quatro anos, nada está concluído. Em entrevista à Tribuna, em janeiro de 2011, o então prefeito Custódio Mattos (PSDB) informou que havia usado os recursos destinados pelo Governo de Minas a esses empreendimentos para asfaltar ruas e avenidas e apostava em recursos do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) para executar as obras viárias. Um convênio foi assinado em 2012, mas foram poucos os avanços. Obras de duas pontes seguem de forma lenta, e o mergulhão da Avenida Francisco Bernardino não deslanchou.

O prefeito Bruno Siqueira reafirma a tentativa de inclusão das obras no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Em coletiva à imprensa, na última semana, o chefe do Executivo relembrou o trabalho de articulação com políticos de Juiz de Fora junto ao Governo federal a fim de agilizar o processo. "Hoje nós temos, no caixa da Prefeitura, R$ 10 milhões oriundos do Dnit dos R$ 80 milhões necessários para as obras. O convênio encontra-se em um estágio no qual não é considerado prioridade, por isso estamos atuando fortemente para a liberação de verbas em outras frentes."

Durante o encontro com a imprensa, o prefeito realizou uma retrospectiva para explicar o não andamento das obras. "Em 2008, foi apresentado, durante campanha eleitoral, o conjunto de obras viárias. Em 2009, o então governador Aécio Neves garantiu os recursos, e, na época, R$ 40 milhões foram colocados à disposição. Mas esses recursos foram remanejados para outros investimentos. Por questão administrativa, o então prefeito buscou recursos junto ao Dnit, convênio que foi assinado no início de 2012. Mas desse convênio, só temos R$10 milhões em caixa. Em dezembro passado, antes mesmo da posse, estive trabalhando com colegas deputados, e conseguimos a inclusão de R$ 55 milhões no orçamento final de 2012, para o exercício 2013. Porém, não há ainda R$ 1 deste dinheiro em Juiz de Fora. Esse recurso vem do que o Governo federal denomina como ‘Demais’, que não é considerado prioridade. Por esse motivo, estamos tentando a inclusão das obras viárias no PAC."

 

Prioridade

Segundo Bruno Siqueira, a prioridade será terminar duas pontes – dos Poderes, ao lado do Terreirão do Samba, e a do Tupynambás – e iniciar a construção do mergulhão da Avenida Francisco Bernardino. Mas o projeto prevê ainda a edificação de um mergulhão na Benjamin Constant, que funcionaria em esquema de binário com o da Francisco Bernardino, um viaduto na região entre Santa Tereza e Poço Rico, além de uma alça no Viaduto Augusto Franco. Já no Mariano Procópio, há previsão de outro viaduto e uma ponte sobre o Rio Paraibuna, em frente à Rua Antônio Lagrota. E, na Zona Norte, na altura do Bairro Barbosa Lage, está previsto outro viaduto.

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Expectativa pela implantação de pontes

A ponte dos Poderes, prevista para ser concluída até novembro passado, ainda não existe. Em março, a reportagem esteve no local durante dias seguidos e em horários distintos e não presenciou a movimentação dos funcionários da empreiteira. A assessoria de imprensa da Secretaria de Obras garantiu que os trabalhos não estão parados, mas em fase considerada técnica, quando não há necessidade de operários no local, e sim em Belo Horizonte, na construção da estrutura da ponte, que já está pronta e deve chegar no próximo mês. O secretário de Obras, Amaury Curi, explicou que agora falta a conclusão do arco metálico. "A previsão é de que possamos entregar a ponte entre agosto e setembro."

Já a ponte em frente ao Tupynambás está em fase de concretização das bases, às margens do Rio Paraibuna. "Houve uma parada na obra em função da tubulação pluvial que atrapalhava a implantação das estacas. Foi preciso reconfigurar o projeto, que já ficou pronto e começará a ser executado. A previsão é de que em outubro essa ponte esteja pronta."

O secretário adiantou que a Egesa S.A, empresa vencedora da licitação das obras, assumiu compromisso de iniciar a escavação do mergulhão da Avenida Francisco Bernardino nas próximas semanas. "A intenção é de que cheguemos em novembro já com a primeira etapa, de escavação, concluída." Curi ainda comentou que o mergulhão da Benjamin Constant somente será iniciado após a conclusão do da Francisco Bernardino. "É inviável construir os dois paralelamente pelas consequências para o trânsito."

 

*colaborou Eduardo Valente

Necessidade de ações além das obras viárias

As obras viárias são apenas parte do que precisa ser executado para que o trânsito de Juiz de Fora comece a mudar. A Tribuna transitou pela região central em dias variados para desenhar o quadro atual. Com os principais corredores saturados, como avenidas Rio Branco, Itamar Franco, Olegário Maciel e Francisco Bernardino, os congestionamentos ocorrem em efeito cascata. Na Rua Espírito Santo, entre Olegário Maciel e Rio Branco, as retenções são diárias. Como principal alternativa de escoamento do trânsito oriundo da Olegário, a via se tornou estreita e já não comporta o fluxo. Para complicar o quadro, o tempo do semáforo no cruzamento com a Rua Santo Antônio é curto e a proibição de estacionamento nas proximidades é ignorada, já que muitos condutores param, atravancando o tráfego.

O mesmo problema acontece na Rua Santa Rita, também usada como principal acesso à Rio Branco, por quem deixa a região central. O tempo curto de abertura de semáforo, apenas um minuto, só permite a passagem média de 12 veículos para a Rio Branco. Como muitas vezes a avenida está travada, o trânsito para. Em um dia de semana,por volta das 19h, a reportagem gastou 35 minutos no trecho da Santa Rita entre a Batista de Oliveira e a Rio Branco. Em outra oportunidade, a Tribuna acompanhou visualmente um táxi, que só conseguiu acessar a Rio Branco após esperar cinco vezes pela abertura e fechamento dos semáforos. "A Prefeitura precisa pensar em tirar o estacionamento da Santa Rita à noite para alargar a capacidade ou aumentar o tempo do semáforo", sugere o taxista Bruno César, 32 anos.

A sobrecarga na Ponte Nelson Silva também revela a necessidade da conclusão das obras das novas pontes previstas na região central. Por causa do funil que se forma, com veículos vindos de duas direções, diariamente as retenções se estendem peloViaduto Augusto Branco e Avenida Brasil, contribuindo para acidentes frequentes.

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‘Não há perspectivas’

Especialistas em transporte e trânsito e mobilidade urbana elencam ações que precisam ser adotadas a curto, médio e longo prazo. Professor do Departamento de Transportes da UFJF, Cézar Henrique Barra Rocha, explica a atual realidade. "A cidade está realmente parando, e não há perspectivas. O que vem sendo feito, por quem pode, é a adoção de horários alternativos. O cidadão busca passar em determinada via no contrafluxo. Mas poucas pessoas conseguem fazer isso. Geralmente todos estão nas ruas no mesmo horário, uma pessoa por carro, e o trânsito para."

Conforme o professor, ações articuladas precisam ser implantadas. "Prioritariamente, duas medidas emergenciais são necessárias. A primeira é licitar o transporte coletivo, retomando o sistema troncalizado. É preciso renovar as empresas, melhorando o serviço e com uma tarifa única acessível. Um coletivo troncalizado pode transportar 150 passageiros e retira das vias os ônibus convencionais e os carros. Outra alternativa é legalizar um transporte alternativo, como as vans, que têm capacidade para 15 pessoas. Legalizado, esse tipo de transporte funciona. A segunda é criar restrições para o uso do automóvel, ou com o rodízio de placas ou com a cobrança de pedágio nas ruas centrais, liberando o Centro, entre a Avenida Itamar Franco e a Rua Benjamin Constant, apenas para táxis e coletivos."

Ex- professor da UFJF, o engenheiro especialista em trânsito urbano Willian Aquino, que é atualmente o responsável pelo plano de transporte urbano do Rio de Janeiro, elenca as intervenções: "É preciso melhorar a qualidade do transporte coletivo, ampliar a rede, investir na troca dos coletivos pelos articulados, construir corredores diretos, por exemplo, entre Retiro ou Vila Ideal e a Zona Norte, o BRT (trânsito rápido de ônibus), com estações de embarque, com piso elevado e venda externa de bilhetes. É necessário também priorizar o pedestre, fechar o Centro para os carros."

Especialista em transporte e trânsito, José Luiz Britto enfatiza a necessidade urgente de uma análise aprofundada pela Prefeitura das alternativas para melhorar a fluidez. "A curto prazo, é preciso ações paliativas para a cidade não parar. Adotar binários, reduzir e controlar os estacionamentos em alguma vias, investir na fiscalização. Seja aumentando o quadro dos agentes, que hoje é insuficiente, e adotando motocicletas para facilitar o deslocamento dos mesmos, ou implantando câmeras para controlar os avanços dos semáforos. Um carro que avança o sinal trava todo o trânsito. A Settra precisa investir em um centro de controle do tráfego por meio das câmeras."

O secretário de Transporte e Trânsito, Rodrigo Tortoriello, informou que todas as medidas pensadas visam a garantir a mobilidade urbana no município. "Já estamos trabalhando na reestruturação do transporte urbano. Implantaremos uma linha integrada como projeto piloto e também vamos insistir na licitação. Estamos aprofundando os projetos para implantação de duas ciclovias e repensando os planos semafóricos da cidade. Emergencialmente, estamos realizando levantamento dos pontos críticos de retenções provocadas por estacionamentos irregulares ou regulamentações de estacionamentos que já não condizem com a realidade do município e intensificando a fiscalização. Paralelamente, já iniciamos os trabalhos para a elaboração do Plano Municipal de Mobilidade Urbana, que deverá ser apresentado até abril de 2015."