Homem é baleado ao intervir em briga no Cidade Nova
Um homem de 43 anos foi baleado no abdômen e na perna esquerda ao tentar intervir em uma briga entre jovens, em plena tarde de domingo, na Rua Maurício Gonçalves Figueira, Cidade Nova, Zona Sul. Segundo a Polícia Militar, moradores do local e do Jardim Gaúcho, munidos com armas de fogo, facas e pedras, teriam se enfrentado em via pública. A vítima foi socorrida por familiares e levada para a Santa Casa. Segundo a assessoria de comunicação do hospital, o paciente passou por exames e permaneceu estável em observação no quarto.
De acordo com um servente, 20 anos, a briga teria começado sem motivos claros. "Eu passei de moto na rua onde moro, e eles (os moradores do Jardim Gaúcho) jogaram pedras. Eu nunca fui de briga, então voltei para casa." O servente disse ainda que os jovens teriam tentado invadir sua residência. Uma parte teria pulado o muro de uma escola que fica ao lado, e a outra teria ido para a frente da casa. Assustados, os vizinhos e a família do rapaz decidiram intervir. "Eles estavam com pedras e uma arma. Se o pessoal não tivesse entrado no meio, tinha virado uma tragédia", relata a mãe do jovem, que trabalha como cuidadora de idosos.
"O homem baleado é nosso vizinho há muito tempo, é trabalhador, tem um filho pequeno, que viu tudo e ficou desesperado," relata o servente. Durante o enfrentamento, o irmão mais velho do jovem, um gráfico, 25, torceu o tornozelo. "Eles não paravam, vivemos momento de horror", conta o pai dos jovens, um pedreiro de 50 anos, ferido na mão. Apavorada, a mãe dos rapazes pede uma solução. "Alguém tem que olhar por nós. Meus filhos são trabalhadores, como vão sair para trabalhar? Eu não tenho mais sossego."
Um adolescente, 17, suspeito de ter efetuado os disparos, teria sido atingido por uma faca no abdômen ao sofrer uma queda durante a briga. Conforme a PM, ele foi internado no Hospital de Pronto Socorro (HPS) para cirurgia. O jovem foi autuado em flagrante por ato infracional análogo a tentativa de homicídio, sendo o caso encaminhado para a Vara da Infância e Juventude.
Um outro garoto do Jardim Gaúcho, 16, foi esfaqueado na altura do pulmão. Ele também permaneceu internado no HPS. Segundo a assessoria da Secretaria de Saúde, o jovem estava lúcido, orientado e estável. Um terceiro adolescente, 15, apontado como a pessoa que teria passado a arma para o comparsa disparar, não foi localizado. O revólver calibre 22, com três munições deflagradas, uma intacta e outra de festim, foi apreendido e encaminhado à perícia.
‘No meio do fogo cruzado’
Para os moradores do Cidade Nova, a confusão do último domingo foi o estopim de uma situação que vem se arrastando há meses. Eles relatam que o bairro está servindo de palco para que as rixas ocorram. "Estamos no meio do fogo cruzado. No entorno ficam Sagrado Coração, Vale Verde, Ipiranga, Jardim Gaúcho e Bela Aurora. Esses bairros já têm histórico de brigas entre eles", explica um motorista que, com medo, pediu para não ser identificado.
Um aposentado, que também não quer ter o nome revelado, reforça a denúncia. "Aqui é onde eles se encontram e brigam. Minha casa já foi danificada por pedras, e isso é comum aqui. A situação está complicada Quando vemos pessoas tão próximas e trabalhadoras feridas, ficamos com mais medo ainda."
Uma manicure, que reside no bairro há 26 anos, diz que tem medo até de chegar à janela. Ela conta que, em algumas brigas, participam cerca de 20 jovens, a maioria menor de idade."Eles vêem as pessoas dentro de casa e já ameaçam entrar. No primeiro sinal da chegada da polícia, eles escondem as armas nos matagais. As brigas não têm motivo nenhum, e nós, que não temos nada com isso, acabamos sofrendo."
‘Sensação de impunidade’
A sensação de impunidade que existe entre os jovens envolvidos em brigas de gangue é o que mais os estimula a cometer estas infrações na visão do capitão Jean Michel do Amaral, assessor organizacional do 27º Batalhão de Polícia Militar, responsável pelas zonas Norte e Sul e Cidade Alta. "O fato de eles não serem acautelados pelo crime que cometem os fazem repeti-los cada vez mais. As brigas entre gangues mudaram em 30 anos. Antes os envolvidos eram maiores de idade e praticavam apenas lesões corporais. Hoje são adolescentes que, por meio das redes sociais, fazem ameaças a outros grupos e utilizam armas brancas, como facas, e armas de fogo para descontar toda a raiva e o sentimento de vingança que sentem."
O capitão ressalta que a região Sul é um ponto que preocupa a Polícia Militar. "As ações do 27º e do Comando de Missões Especiais (CME) estiveram focadas apenas na Zona Norte, o que resultou na migração desses grupos para outras regiões da cidade. A Patrulha de Prevenção a Homicídios vem coletando dados e identificando esses jovens, para que possamos atuar de forma mais repressiva. Temos notado que o perfil de denúncias tem mudado. As pessoas têm confiado no 181, inclusive, recebemos ligações de pais que denunciam os próprios filhos, dizendo onde guardam drogas e armas."
Mais dois feridos
Outras duas pessoas foram feridas à bala no fim de semana em diferentes regiões da cidade. No São Benedito, Zona Leste, um homem, 26, foi surpreendido por tiros disparados por um motociclista, no final da noite de sábado, quando estava sentado na calçada da Rua José Zacarias dos Santos. A vítima foi socorrida e levada para o HPS com duas perfurações nas costas e uma no ombro. Segundo a Secretaria de Saúde, o homem passou por cirurgia, ficou internado na sala de urgência, mas respirava espontaneamente e o seu estado geral era estável. Um suspeito foi identificado pela PM, mas ele não foi encontrado durante as buscas.
Já no Milho Branco, Zona Norte, um homem, 25, foi alvo de tiro no início da noite de domingo. De acordo com a PM, dois irmãos são suspeitos de chamarem a vítima pelo nome em casa, na Rua Argemira de Jesus Flores. Quando ela apareceu, foi alvejada no abdômen e coxa direita. O morador foi socorrido pelo Samu e levado para o HPS. Conforme a Secretaria de Saúde, ele também passou por cirurgia e ficou estável na sala de urgência. A PM obteve informações de que a dupla teria fugido em um Fiat Tipo, mas ninguém foi preso.
* Colaborou Bárbara Riolino