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André Monteiro: “’Escritos Batidos’ é um livrinho pretensiosamente despretensioso”

Por Marisa Loures

Andre Monteiro
Escritor e professor da UFJF, André Monteiro lança “Escritos Batidos: um livro de pensatas baratas e narrativas de menos”, obra em que ironia, humor, cotidiano, cultura pop e alta literatura se encontram e provocam o leitor – Foto: divulgação

Há livros que se anunciam grandiosos. Outros, pelo contrário, são “pretensiosamente despretensiosos”. Discretamente, abrem janelas, desafiam o leitor. “Escritos batidos” (Garoupa, 124 páginas), lançamento de André Monteiro, é um exemplo desses últimos.  Concebido como uma obra de bolso, apresenta um conjunto de “pensatas baratas”, pequenas narrativas e fragmentos nascidos a partir da combinação de banalidades pinçadas aqui e ali e referências do que se costuma chamar de alta cultura. São esboços de contos, romances e ensaios nunca levados a cabo pelo autor.

“Os textos são todos, a meu ver, marcados por uma contaminação de oralidades corriqueiras, assuntos cotidianos (embora não datados) e pegadas da cultura pop fundidas a breves, e por vezes discretas e rasteiras, referências livrescas saqueadas de tradições literárias e filosóficas. Isso que dá unidade ao livrinho talvez: uma mistura de batidas pop-cotidianas com clichês das chamadas altas culturas. Raul Seixas, Roberto Carlos, frases do meu filho Miguel, Nietzsche, prêmios de raspadinhas, Sócrates, Cinismo clássico, memorialismo proustiano, paródias de palavras de ordem de certas modinhas intelectuais são algumas coisas que atravessam o todo das páginas dessa pequena obra”, conta o escritor e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.

“Escritos batidos: um livro de pensatas baratas e narrativas de menos” está disponível para venda no site da Garoupa Editora. Mas aqui vale um alerta. Embora o autor afirme que não teve a intenção de fazer de suas “pensatas baratas” grandes novidades literárias, de baratas, suas pensatas não têm nada. Têm provocação, humor, ironia. “O homem pasta. O gado posta”, escreve ele em “Feed”. Além disso, “comendo pelas beiradas”, conforme aponta, no prefácio, Edmon Neto, também professor da UFJF, os “escritos batidos”, de Monteiro, recusam modismos e palavras de ordem. “Ainda sou daqueles que entendem a literatura (seja ela chamada de literatura ou não) como um lugar arejado na estante aqui de casa.”

Marisa Loures – O título “Escritos batidos: um livro de pensatas baratas e narrativas de menos” parece provocar o leitor logo de início. Que tipo de relação você quer estabelecer com quem se aproxima do livro? Uma ironia, um convite, uma provocação?

André Monteiro – Nunca se sabe o que os leitores vão fazer com o que a gente escreve. Ler é sempre reescrever e, certamente, os leitores irão reescrever tudo aos seus modos e sentidos. Nem a gente que escreve sabe muito bem o porquê e o para que se escreve. Há muitas forças escuras e não entendíveis que atravessam os processos de nossas boas ou más intenções de escrita e leitura. Mas também há certos clarões em torno desse processo. Nessa dimensão clara, acho pertinente tudo que está na sua pergunta. Desejo, de modo consciente sim, provocar o leitor, convidá-lo a ironizar comigo aquelas tristezas do mundo que nos aprisionam. Ironizar inclusive o próprio ato de escrever supostas grandes literaturas, muitas vezes afastadas da vida e suas invenções de liberdade. Daí talvez o título irônico e autoirônico, tal como você bem observou.

– Edmon Neto comenta que o livro “come pelas beiradas”, recusando modismos e palavras de ordem. Essa postura é consciente desde o processo de escrita?

De certa forma, é um projeto consciente sim. Embora, como já disse, nunca se saiba muito bem de onde nascem as ideias e as palavras. Só sei que, para mim, palavras de ordem, pela esquerda ou pela direita dos modismos, ao instrumentalizarem a linguagem em nome de uma causa x ou y, costumam fechar o sentir plural das línguas. Palavras de ordem, nem sempre desnecessárias, cabem em panfletos pontuais de resistência. Mas eu ainda sou daqueles que entendem a literatura (seja ela chamada de literatura ou não) como um lugar arejado na estante aqui de casa. “O povo é um inventa-línguas”, diria o poeta russo Vladimir Maiakóvski. Acho que a literatura potencializa essa invenção. Abre respiradouros nos discursos monológicos e duros de ordens vigentes. Se é verdade que a dita literatura contemporânea é muito marcada por palavras de ordem, minha perspectiva é um tanto desatualizada. E isso não deve me incomodar. Meu projeto, como disse o Edmon, não é bater de frente com os panfletos postos nas ordens da moda, mas devorá-los, ironizá-los, humorizá-los pelas beiradas mesmo. Descobrir onde eles fraquejam para deixar a vida passar por eles. Mas eu não deixo de correr o risco de criar palavras de ordem para descontruir palavras de ordem. Assim sendo, o azar seria todo meu.

– O humor e o jogo lógico-semântico são traços marcantes na sua obra. De onde nasce esse humor? Da observação do cotidiano, da convivência com a academia, da literatura, ou de uma ironia mais existencial?

Acho que nasce de tudo isso que você elencou na sua pergunta. E também de lugares não nomeados. Antes de ser algo localizável, o humor é um estado de encontro com a vida. Um estado que nos permite escapar das dicotomias duras. O humor não é necessariamente um riso, mas uma descontração dos músculos tensos das contradições. O estado de humor é uma bússola para mim. Além de tudo, para além do bem e do mal, o humor pode nos trazer diversão e invenção de pensamento. Em estado de humor, a oposição entre literatura séria e literatura de entretenimento não passa de uma grande piadinha. Mas há também amor nos meus textos, acho. Um certo amor por brincar com a vida. Ainda que tudo seja um tanto corrosivo e doloroso. Entendo que o par de Oswald de Andrade, AMOR/humor, se faz presente nos jogos lógico-semânticos dos meus escritos.

– Por falar nisso, Edmon também aponta que, por meio do humor e dos jogos semânticos, seus escritos evocam o poema ao gosto de Oswald de Andrade, recuperando algo de original, primitivo e selvagem na linguagem. Você se reconhece nessa tradição modernista?

Concordo com o Edmon Neto. Sou totalmente ligado a essa tradição. Seja pelo humor, pelo acolhimento do coloquial, pela coisa lúdica ou pela concisão. Talvez eu não esteja fazendo nada de novo. Vai saber. Afinal, meus escritos são “escritos batidos”.

– Há em “Escritos Batidos” um movimento de apropriação e transformação dos discursos contemporâneos. Quais são os discursos que mais te instigam ou te incomodam atualmente?

Os discursos bem-intencionados de cunho moralizante e catequético. Eles estão muito presentes, a meu ver, na produção artística, cultural e científica do século XXI. Não raro, eu me vejo com saudades extemporâneas do século XIX. Principalmente, do nada dogmático Machado de Assis que, a meu ver, não faria sucesso nos neodeterminismos do século XXI. Não sou profeta de passados imperfeitos do subjuntivo, mas me permito imaginar que, se ele não tivesse chegado até aqui já intocável, já monstro sagrado, seria cancelado. Sorte nossa ele ter nascido no século retrasado.

Capa do livro Escritos Batidos
Capa do livro “Escritos batidos”, de André Monteiro – Foto: divulgação

– Como professor e escritor, você percebe que o espaço da universidade acolhe a experimentação literária? Ou ela precisa “comer pelas beiradas”, como o seu livro faz?

A universidade, em princípio, sendo um centro de pesquisas e comunhão de saberes, é um lugar privilegiado para se experimentar novas formas de vida e de linguagem. É um lugar onde se pode pensar e escrever para além do que está posto nas padronizações dos mercados comuns da vida humana. Essa vocação histórica da universidade para a experimentação está viva hoje. Mas vive com muitas dificuldades. Vive com muita vergonha de ser o que é. Há razões de ordem política, econômica e comportamental que sustentam esse meu diagnóstico. Mas seria leviano apresentá-los aqui. Eu acabaria caindo em uma retórica denuncista e até em palavras de ordem. O tema é complexo e polêmico. Exigiria um detalhamento que não cabe aqui. Respondendo diretamente à sua pergunta, sim.  A experimentação literária no espaço universitário precisa “comer pelas beiradas”.

– O texto “Hedonismo clássico” brinca com a ideia de que pensar é prazeroso. Para você, o pensamento ainda pode ser uma forma de prazer num mundo que valoriza respostas instantâneas?

O pensamento, para mim, é uma forma de prazer. Mas diferente do prazer que se tem quando se pensa em alcançar isso que você chama de repostas instantâneas. Todos nós, na verdade, estamos diariamente mergulhados nesse desejo por respostas instantâneas. O prazer do pensamento, de outro modo, é uma possibilidade de se permitir estar à deriva.  É um intervalo de saúde nas grades das obrigações diárias. Pensar é não saber aonde se vai chegar e, de repente, descobrir novas sensibilidades. Vivo muito esse prazer, que não exclui frustrações e dores, não só quando escrevo, mas também quando estou com meus alunos em sala de aula na universidade. Meus roteiros de aula nunca são cumpridos conforme o planejado. Há toda uma ecologia de palavras e sensações que vão se tecendo em errância na poética de uma aula. Acolher essa errância e aprender a lidar com ela é que é o gostoso da coisa de pensar. Pensar é sempre uma viagem, uma aventura. Pensar é divertido. Então o pensamento pode ser sim uma forma de prazer num mundo que valoriza respostas instantâneas

– Em “O poeta de três anos”, a criança quer usar a palavra errada. Há um elogio à imperfeição aí? A escrita nasce, para você, desse desejo de desobediência?

Minha educação literária sempre me levou, de muitos modos e através de diversas referências, a pensar o ato de invenção como algo ligado à criança. Não necessariamente à criança que desobedece, mas à criança que ainda não aprendeu a obedecer. Tem a ver com errar e insistir no erro como uma forma de se lançar ao inacabado, de não querer que a brincadeira acabe e se enquadre em uma moral da língua. A desobediência, nesse caso, é secundária e circunstancial. A força primeira da criança se realiza naquilo que Oswald de Andrade chamaria de afirmação da “alegria dos que não sabem e descobrem”.

– Por fim, se tivesse que escrever uma “pensata barata” sobre o próprio livro, qual seria?

Marisa, todas as suas perguntas são instigantes e, por isso, muito difíceis de desdobrar. Essa agora é a mais difícil talvez. Vou me permitir repetir o que já disse outro dia: “Escritos batidos” é um livrinho pretensiosamente despretensioso.

 

Marisa Loures

Marisa Loures

Marisa Loures é professora de Português e Literatura, jornalista e atriz. No entrelaço da sala de aula, da redação de jornal e do palco, descobriu o laço de conciliação entre suas carreiras: o amor pela palavra.

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