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Envelhecer em tempos de emergência climática

"A conquista de um maior tempo de vida, torna vulnerável o nosso presente diante das mudanças no clima, associado à nossa inércia pela ausência de políticas urbanas robustas de proteção social às pessoas idosas."

Por Jose Anisio Pitico

Vivemos num mundo de muitas calamidades extremas. Nosso planeta aquece rapidamente, os eventos climáticos se intensificam e são diversos a ponto de alguns ativistas utilizarem a expressão “urgência” ao invés de emergência climática.

Diante dessa realidade ameaçadora de nossas vidas, nossas cidades tornam-se territórios de riscos para seus moradores (alguns: os mesmos!). Por aqui, por onde passa o Paraibuna, como diria o poeta, “feliz é ele porque está de passagem”, porém, de um modo bem devagar, quase parando; bairros como o de Santa Luzia, Mariano Procópio, Democrata e Bairro Industrial sofrem, desde há muito tempo, com a chegada das chuvas.

E vem chuva aí, gente! Na companhia da primavera. Desses moradores das regiões mencionadas acima, os que mais sofrem, os que são mais afetados com prejuízos materiais e perdas de suas vidas, são os moradores idosos. Aqueles que apresentam fisiologicamente mobilidade reduzida; têm condições crônicas de doenças; dependem de muitos medicamentos e sobretudo, aqueles idosos que tem dificuldades de se deslocarem em casos de saídas e deslocamentos emergenciais.

O Brasil vive uma transição demográfica acelerada. Como acontece também em nossa cidade. JF conta com mais de 100 mil pessoas 60+. Seremos mais pessoas idosas do que crianças. É sim uma conquista a ser celebrada o alcance de nossa longevidade. Mas essa conquista de um maior tempo de vida, torna vulnerável o nosso presente diante das mudanças no clima, associado à nossa inércia pela ausência de políticas urbanas robustas de proteção social às pessoas idosas.

Precisamos mudar o nosso enfoque político de planejamento para as cidades: incluir as pessoas idosas. Privilegiar o consumo apenas e a velocidade dos carros em nosso circuito e deixando as pessoas, de lado; esquecidas; principalmente as que mais precisam de cuidados, não nos leva a garantia de um futuro sustentável. A emergência climática não atinge a todos da mesma forma. Ela aprofunda as desigualdades já existentes e conhecidas: as pessoas idosas, as pessoas pobres, negras, periféricas e com deficiências. Essas sofrem pesadamente com essa realidade.

Muitas dessas pessoas, uma grande maioria delas, vivem/moram em territórios de riscos, sem acesso e sem saneamento. Quando a catástrofe chega e chega todo período de ocorrências de chuvas, por exemplo, é sobre essa gente que a vida delas fica suspensa por um barranco que pode ceder. Enfrentar a crise climática ou responder à urgência climática exige ações políticas e públicas de justiça social.

O que deve ser traduzido em incluir, ouvir, respeitar e envolver as pessoas mais velhas nos processos de decisão sobre a vida delas: seus saberes, suas memórias e suas experiências são ferramentas importantes na construção de soluções sustentáveis e comunitárias. Uma cidade preparada e comprometida para o enfrentamento dos reveses climáticos tão presentes no nosso cotidiano é aquela que acolhe a infância, respeita a adolescência e cuida da velhice. Envelhecer é um direito. E num mundo em crise é também um ato de resistência.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar e mantém o canal Longevidades no Youtube (@Longevidades). Contato: (32) 98828-6941

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