O palco e o abandono: o teatro que insiste em existir em Juiz de Fora
Mesmo sem apoio ou políticas públicas, artistas da cidade seguem fazendo do teatro um ato de resistência, mesmo quando o cenário parece desabar
Há uma cidade que se orgulha de ser berço de artistas, mas que se esquece de lhes dar chão. Uma cidade que celebra quando um dos seus chega ao Oscar, mas que quase nunca abre as portas de seus próprios teatros para eles.
Juiz de Fora, uma cidade que pulsa arte, parece negar o próprio espelho.
Na última semana, a atriz Pri Helena, integrante do elenco do filme vencedor do Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025 e da peça em cartaz “Doce árido”, falou à Tribuna o que muitos aqui já sabem de cor: “Não há (em Juiz de Fora) uma empresa que apoie um grupo de teatro.” E mais, além das instituições privadas, também não há uma só política pública que seja voltada exclusivamente ao teatro, como falamos aqui na coluna de número 5.
A fala ecoa junto ao que tantos artistas, de todas as gerações, têm falado baixinho entre um ensaio e outro: ser artista em Juiz de Fora é muito difícil e, mais que isso, é um ato de resistência.
E é essa contradição que precisa ser exposta. Como é possível que uma cidade com mais de 600 mil habitantes, com escolas, universidades, grupos históricos e novos coletivos, ainda não tenha construído um pacto mínimo de apoio à cultura local? Que o teatro siga dependendo de editais escassos e que não se voltam exclusivamente para a arte do encontro, e que o setor privado continue ausente?
A Lei Murilo Mendes é, de fato, um avanço, uma grande política de incentivo cultural no município. Mas ela, sozinha, não basta. É preciso que empresas adotem grupos, que espaços públicos se abram, que o poder público e a iniciativa privada compreendam o teatro não como gasto, mas como investimento na alma da cidade.
Sim, é possível apresentar nos escassos espaços públicos de Juiz de Fora, mas em quantos deles é possível fazer uma temporada de apresentações? Todos se limitam a um ou dois finais de semana. É possível formar público com apresentações tão escassas? Temos a sala de Encenação Flávio Márcio, do Centro Cultural Bernardo Mascarenhas, que permaneceu por muito tempo fechada e que, somente agora, começa a reabrir as portas, mas ainda sem a infraestrutura necessária. O Mercado Municipal, localizado ao lado do teatro, foi completamente reformado. Por que o local de apresentações também não foi incluído no projeto? E o teatro do Museu Ferroviário, simpático, intimista e que poderia abrigar tantos espetáculos da cidade, há quanto tempo anda fechado?
São muitas as questões desfavoráveis a quem se entrega ao teatro na cidade. A fala de Pri Helena é um toque na ferida, mas também uma carta de amor. Porque é quem critica assim que quer ficar. São essas pessoas que ainda acreditam que a cidade pode ser melhor, pode voltar a ser o que já foi um dia.
Entre estreias e dificuldades, entre palcos improvisados e sonhos antigos, Juiz de Fora continua sendo feita de artistas que não desistem, mesmo quando o aplauso vem baixo ou vem tarde demais.
Talvez o nome “de Fora” revele uma cidade que só existe de verdade quando alguém ‘de fora’ sobe ao palco, pois são esses que recebem o apoio necessário. Mas, enquanto houver quem insista em acender a luz, o teatro em Juiz de Fora ainda resistirá.
Apesar da dificuldade…
‘Doce árido’
O espetáculo “Doce árido”, escrito por Tairone Vale e dirigido em parceria com Leo Cunha, segue em cartaz neste final de semana no Anfiteatro da Praça CEU, na Zona Norte. Em cena, três gerações de mulheres do interior mineiro enfrentam o peso da tradição, a escassez e o desejo de liberdade enquanto sustentam a família com a produção de doce de leite.
O elenco é formado por Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini. A peça tem trilha sonora original de Laura Jannuzzi e direção de arte de Cris Bourgeauseau. As sessões acontecem sexta (17) e sábado (18), às 20h, e domingos (19), às 19h, com tradução em Libras. Ingressos pelo Sympla.
‘O último vendedor de tempo’
Em uma cidade em que o tempo virou mercadoria rara, um homem misterioso chega com sua carroça: o último vendedor de tempo. Criado pela Turma de Montagem do Programa Gente em Primeiro Lugar, o espetáculo é resultado de nove meses de pesquisa e criação coletiva baseada no método Viewpoints.
As apresentações acontecem na sexta (17) e no sábado (18), às 20h, no Teatro Paschoal Carlos Magno. Entrada gratuita, com retirada de ingressos uma hora antes.
Dobradinha de teatro gratuito no CCBM
O Centro Cultural Bernardo Mascarenhas (CCBM) recebe, neste domingo (19), duas montagens de grupos locais em sessões gratuitas: às 17h, ‘Vila Feitiço’, de Conrado Braga, apresenta uma sátira sobre o sensacionalismo e a exploração midiática do desaparecimento de uma jovem em uma pequena cidade.
O espetáculo do Aquele Grupo mistura humor, crítica e experimentação cênica, com Lucas Barbosa (Barbosão), Franklin Ribeiro e Vitu Marcs no elenco. Com direção e dramaturgia de Conrado Braga e assistência de direção de Lucas Barbosa, a peça tem iluminação de Gabriel Iung, preparação de elenco e fotografia de Tayane e design de som de Sandro Bade.
Às 19h, ‘A copa’, do grupo Em Cômodos, escrita e dirigida por Pedro Lagoa, leva dois personagens confinados em uma copa a refletirem sobre o tempo, o trabalho e o absurdo da existência. Esperando por algo que talvez nunca aconteça, o que poderia ser uma simples conversa se transforma num jogo perigoso, cheio de silêncios e provocações. No elenco, Igor Santos e Lucas Barbosa (Barbosão). A montagem conta com cenário e figurino de Valentine Fontanella, som de Bruno Ferreira, luz de Gabriel Iung e produção coletiva do grupo Em Cômodos.
Festival de Teatro Infantil
No Teatro Paschoal Carlos Magno, a terceira edição do Festival de Teatro Infantil de Juiz de Fora promete encantar o público no domingo (19), com duas apresentações no mesmo dia.Às 15h, o palhaço Rosquinha, com 20 anos de palhaçaria e 30 de carreira no teatro, e a Cia de Palhaço apresentam, pela última vez no ano, o espetáculo ‘Novas mágicas e velhas tonteiras’ com números impactantes, inovando em mágicas de grande porte e recriando números clássicos.
Já às 17h30, a Cia Pé de Palhaço se junta ao Instituto Biné e, juntos, sobem ao palco com ‘Dois idiotas sentados’, cada qual no seu smartphone. Espetáculos gratuitos e voltados para toda a família.








