No teatro, depois do aplauso: o que resta à cidade?
A 22ª Campanha de Popularização Teatro e Dança de Juiz de Fora acabou, mas deixou – a quem se propõe a enxergar – a imagem de uma população que gosta, sim, de ir ao teatro e que necessita de espetáculos para assistir. Ao todo, entre os dias 1º e 31 de agosto, foram 40 espetáculos em 60 apresentações, seis oficinas e 13 cenas curtas apresentados por 43 produtores dentro da campanha. Não foram raras as apresentações com ingressos esgotados e teatro lotado, a disposição de tanta gente em se encontrar diante de uma peça encanta. Organizada pela Apac, a campanha mostrou que o público existe, tem interesse na arte do encontro e que o problema da cidade não passa pela falta de gente para assistir – ou produzir.
O que se escancara, então, é o vazio entre campanhas. A cidade vibra em agosto, quando há mobilização coletiva e quando produtores, artistas e público se unem em torno do calendário. Mas o resto do ano nos vemos órfãos, sem espaços, sem políticas culturais que se voltem especificamente para o teatro e o desejo evidente de encontro. A campanha é como um remédio que alivia, mas que não deve ser confundida com uma dieta que nutre o organismo. Se o corpo da cidade precisa do teatro, não basta um comprimido esporádico: é preciso alimento constante.
E aqui se abre a outra camada da reflexão. Porque a fome de teatro não é só institucional, é também íntima. O público que se senta na poltrona e se deixa atravessar pela cena busca algo que falta. O teatro é sede. Bebido por vezes em goles rápidos, na intensidade que a necessidade de uma temporada breve pede. O que desejamos é uma fonte perene. Há uma carência que não se resolve apenas no aplauso: é a carência de comunidade, de espelho, de perceber-se parte de algo maior que nós mesmos.
Não basta saber que existe público. É preciso compreender que esse público existe porque carrega dentro de si a mesma falta que a cena explicita. O teatro não nos preenche, ao contrário, nos devolve a consciência da falta. O que cada peça revela, em última instância, é a fragilidade de uma vida que não se sustenta sozinha, que precisa do outro para se reconhecer.
E se a cidade precisa do teatro, é porque precisa também desse gesto de encontro, desse lembrete de que somos inacabados, incompletos, sedentos. Que o fim da campanha não seja apenas o fechar da cortina, mas um chamado para que, na cidade e em nós, algo permaneça em cena.
Em Cartaz
O Teatro da Filarmônica recebe, nos dias 6, 7 e 13 de setembro, às 19h30, o musical “Passeio no tornado”, com direção de Alícia Bretas, direção musical de Caiho Carrara e produção geral de Caio Schiavon. Os ingressos estão à venda pela plataforma Uniticket ou através do WhatsApp: 32 99133-2944.
Misturando humor, música e emoção, a trama parte de um acidente em uma montanha-russa, quando seis adolescentes integrantes de um coral perdem a vida e ganham a chance de retornar, mas apenas um poderá voltar ao mundo dos vivos. Conduzidos por uma misteriosa máquina, cada personagem apresenta sua história em números musicais que revelam sonhos, desejos e segredos.
Na sexta-feira (5), o Teatro Paschoal Carlos Magno recebe o espetáculo “Colcha de retalhos” para uma apresentação única às 15h30. A produção é da Oficina de Teatro Entre&Vista, grupo fundado em 1992, com mais de três décadas de atividades culturais.
Voltado ao público infantojuvenil, o espetáculo costura memória e afeto em uma narrativa que acompanha Felipe, jovem que reencontra uma colcha feita pela avó. Cada retalho abre caminho para histórias e personagens que levam o protagonista a compreender o valor das experiências e das conexões humanas. Inspirada livremente em texto de Conceil Corrêa da Silva e Nye Ribeiro Silva, a montagem foi construída coletivamente pelo grupo e propõe uma reflexão sobre o respeito aos idosos e a importância da memória como elo entre gerações.


