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O faz de conta da cidadania

Por Jose Anisio Pitico

Nossos representantes políticos, historicamente, desde vereadores a presidentes da República, em sua grande maioria, não tem em sua agenda o envelhecimento como uma de suas plataformas políticas: não se preocupam com as pessoas idosas. E, em muitas das vezes, alguns desses políticos, estão em plena vivência de sua velhice, mas não se enxergam.

O etarismo está muito presente não só na sociedade, como nos seus representantes políticos. A política brasileira continua marcada por uma cultura que valoriza por demais a juventude (nada contra), a produtividade e a lógica do “novo” – por mais que o mundo esteja envelhecido – o nosso país e a nossa cidade. Apesar de as pessoas com 60+ representarem cerca de 15% da população brasileira, a presença de parlamentares que assumem explicitamente a pauta do envelhecimento ainda é muito restrita.

A maioria dos mandatos não prioriza essa agenda, e as políticas voltadas à velhice seguem sendo tratadas como temas periféricos e secundários. Essas políticas, quando existem, também são vistas como custo e não como um investimento social. Paradoxalmente, as pessoas idosas formam um dos grupos que mais votam e participam das eleições, mas permanecem sub-representadas nos espaços de poder. Isso revela um grande vazio democrático: quem sustenta eleitoralmente o sistema político não participa, na mesma proporção, das decisões que moldam a sociedade. Os representantes da gestão convida os cidadãos. Instala-se conselhos e comissões.

Organizam-se conferências. A intenção é democrática. Mas o poder decisório permanece nas mesmas mãos. Participamos. Não decidimos. Que democracia é essa? Fala-se em autonomia. Em envelhecimento ativo. No dia a dia das pessoas idosas o que temos é: calçadas quebradas, mortes de idosos no trânsito, serviços (alguns) inacessíveis, espaços públicos excludentes. Como usufruir da cidade? As pessoas idosas estão presentes. Suas decisões, quase nunca.

Estão presentes á reunião da Câmara Municipal, que raramente, começa no horário que está escrito no convite oficial. Ouvem os longos discursos, na maioria das vezes, desconectados com o motivo de realização da sessão legislativa. Os idosos continuam presentes. O discurso oficial celebra o “envelhecimento ativo”, mas pratica o envelhecimento tutelado. A velhice é bem-vinda enquanto não questiona, não tensiona, não incomoda. Mas enquanto os idosos permanecerem presentes e as decisões deles ausentes, nossa democracia seguirá incompleta.

O futuro da vida pública – e o futuro do nosso próprio envelhecimento – que é coletivo – depende da coragem de a gente devolver o sentido real à participação social de todas as pessoas, independente da idade delas. Depende também da nossa capacidade de transformar a plateia que lota os eventos oficiais em protagonista dos seus dias; de fazer do silêncio, voz ativa. Transformar a presença simbólica desses participantes em poder concreto. Uma sociedade que apenas simula cidadania não constrói direitos. Continua administrando a mesmice das ausências das potências humanas.

Jose Anisio Pitico

Jose Anisio Pitico

Assistente social e gerontólogo. De Porciúncula (RJ) para o mundo. Gosta de ler, escrever e conversar com as pessoas. Tem no trabalho social com as pessoas idosas o seu lugar e mantém o canal Longevidades no Youtube (@Longevidades). Contato: (32) 98828-6941

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