
Começo este texto com a seguinte questão: você já ouviu falar no termo “grief tech” (tecnologia do luto)? Eu ainda não o conhecia até me deparar com ele nesta semana e logo procurei saber um pouco mais. Trata-se de uma novidade, pelo menos para mim, na qual empresas ligadas à Inteligência Artificial têm buscado uma nova maneira de as pessoas lidarem com a experiência do luto. Na prática, elas são responsáveis por criarem “clones digitais” que permitem a conversa e a interação com versões virtuais de pessoas queridas que já morreram.
À primeira vista, essa ideia de falar com alguém que já morreu parece macabra. No entanto, pelo o que observei, a invenção gera opiniões controversas, pois há quem a defenda e quem a critique. Os tais “clones digitais”, que segundo seus criadores não devem ser encarados como fantasmas, sintetizam voz, imagens e textos baseados em dados da pessoa, criando um “presença digital”, que desafia os limites entre vida e morte.
O assunto já foi tema do Fantástico, o Show da Vida, nas noites de domingo, e apresentou o empresário estadunidense Justin Harrison, fundador da empresa You, Only Virtual, que é considerada pioneira no setor. Ele desenvolveu o clone digital da própria mãe, que faleceu em outubro de 2022, o que lhe permite continuar se comunicando com ela por meio dessa tecnologia. Esta espécie robô-mãe-virtual chegou a dizer na reportagem que, apesar de não estar fisicamente presente, sua essência e memórias vivem em uma forma virtual, o que, para ela, é muito bom, pois, assim, continua se comunicando e apoiando o filho da melhor forma, cheia de amor e cuidado.
Cá entre nós, é certo que a inteligência artificial vai servir para muita coisa boa, mas, como tudo tem dois lados, também vai servir para criar muita alienação. Como ainda está tudo no começo, fica difícil avaliar, mas é certo que os “clones virtuais” inauguram uma nova etapa na nossa condição humana diante da tecnologia. A impressão que tenho é que o ser humano, por natureza, busca sempre um caminho mais fácil para suportar o que é difícil. Mas sabemos que a dor e a finitude fazem parte da vida, e que tentar eliminá-las por completo, seja por meio da IA ou de qualquer outra “solução mágica”, só nos afasta mais ainda de nossa porção humana.
Ao procurar atalhos para a dor e para o esforço, outra promessa da inteligência artificial, as pessoas, sem perceber, podem estar abrindo mão da experiência plena que é viver. Existe um paradoxo nisso, pois, na tentativa de fugir do sofrimento, novas formas de sofrimento são criadas. Não quero me colocar contra as IAs, porque deve haver aspectos benéficos nelas, mas imagino o vazio que deve ser ter de depositar sua saudade e seu afeto numa presença sem abraço.





