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O brasileiro não lê, aponta pesquisa. Mas esta é uma verdade absoluta?

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Por Mirian Ferreira

A leitura, um hábito que estimula a criatividade e o pensamento crítico, enfrenta um cenário preocupante no Brasil. Dados das pesquisas “Retratos da Leitura no Brasil” revelam que o número de leitores no país tem diminuído drasticamente nos últimos anos.

Enquanto apenas 47% da população se considera leitora, o Brasil perdeu cerca de 7 milhões de leitores em quatro anos, marcando a primeira vez na história da pesquisa em que a maioria da população não lê. Além disso, apenas 27% dos brasileiros completaram a leitura de um livro inteiro, um índice alarmante que coloca o país em uma posição desfavorável no cenário internacional.

Mas a frieza dos números não precisa ser uma verdade absoluta e definitiva. Pode-se interferir no cotidiano que não estimula este hábito. Uma luz no fim deste túnel pode ser observar e analisar o crescimento das feiras e festivais literários, a facilidade de acesso crescente à leitura digital (não precisamos ser puristas) e até mesmo o recente incentivo das redes sociais com seus booktokers e instabookers. Não vamos falar do mérito da qualidade, mas de costume, prática, incentivo ao hábito.

 

O brasileiro não lê, segundo pesquisa
Foto: Getty Images (via Canva)

Fatores que explicam a crise de leitura

Entre os principais motivos para essa queda, destacam-se o aumento do uso da internet e de outras mídias no tempo livre, a falta de estímulo à leitura desde a infância e a ausência de políticas públicas eficazes. Fato! Segundo especialistas, a leitura exige esforço, concentração e dedicação, características que muitas vezes entram em conflito com o imediatismo das mídias digitais. Além disso, a pandemia agravou o problema, especialmente entre crianças e jovens, ao limitar o acesso às aulas presenciais e às práticas leitoras mediadas por professores.

Outro ponto relevante é o impacto das condições socioeconômicas. A falta de acesso a livros, seja por questões financeiras ou pela ausência de bibliotecas públicas (triste fato!) bem estruturadas ou ausentes, e tudo o mais que contribui para o afastamento da leitura. Em contrapartida, formatos como livros digitais e audiolivros têm surgido como alternativas para driblar algumas dessas barreiras, permitindo que a leitura se encaixe na rotina de forma mais prática.

Mas buscando outros aspectos. A Bienal do Livro de 2025, realizada no Rio de Janeiro, teve não só o maior público de sua história, com 740 mil visitantes e 6,8 milhões de livros vendidos. Mais uma vez, sem discutir qualidade, a questão é incentivar a convivência com a literatura em quaisquer de suas manifestações. A FLIP, em Paraty/RJ, não os números como aspecto central do evento, mas o debate. Além da FLIC (Campina Grande/BA), FLUP (Rio) e pelo menos mais 32 outros eventos Brasil a fora que consegui pesquisar.

Além disso, uma notícia pouco difundida. O Brasil tem representantes em duas, das três categorias, do pleito 1000 libraries awards promovida pela revista 1000 Libraries Magazines. Nos destacamos com o Real Gabinete Português de Leitura (no Rio de Janeiro) entre as 10 bibliotecas mais bonitas do mundo e uma pequena livraria, a Funambule, de Petrópolis, entre as top 10 livrarias com café (book cafés) entre outras concorrentes globais. Eu achei o máximo e quero crer que há esperança.

Há solução para o problema?

Embora o cenário atual seja desafiador, especialistas apontam que é possível reverter essa tendência. O estímulo à leitura deve começar em casa, com pais incentivando os filhos desde cedo, e se estender para escolas e comunidades. Políticas públicas, como a criação de uma Política Nacional de Leitura e Escrita, também podem desempenhar um papel crucial ao fortalecer bibliotecas e valorizar o trabalho de bibliotecários. Além disso, iniciativas que tornem os livros mais acessíveis, como a fixação de preços únicos, podem ajudar a democratizar o acesso à leitura.

Por fim, é essencial desmistificar a ideia de que a leitura é uma tarefa difícil ou entediante. Eu, por exemplo, “peguei gosto” com um dos livros menos conhecidos de Jorge Amado, Mar Morto, já bem tarde na minha vida escolar e, mais que o livro, é a professora que me incentivou a abrir este universo na minha mente que está gravada a ferro na minha alma de leitora. A partir dali, li tudo do autor, li outros autores nacionais, parti para os clássicos, amo a avalanche de novas escritoras, de gêneros e a infinita diversidade de tropes de romance que vão surgindo.

E hoje, confesso que intercalo a mesma vontade de ler o “consagrado”, com uma prática de leitura mais rasa, pois meu momento é de desopilação, preciso da leitura como terapia. Mas esta prática, esta rotina de intimidade com livros, autores e pensamentos, o “viajar sem sair do lugar”, o “viver muitas vidas”, tudo ajudou a construir minha personalidade. Sou mais feliz como leitora do que seria como noveleira. Acompanho as redes sociais. E acho que tudo está interligado. Não há verdades, nem gostos absolutos. Não precisamos desligar uma “mídia” para ser purista em outra, disputar quem tem mais razão na crítica deste ou daquele livro, basta ler, e com prazer, de preferência. Quem tenta, descortina um novo mundo. Garanto!

Mirian Ferreira

Mirian Ferreira

Sou jornalista, com 35 anos de carreira, quase toda vivida na imagem institucional e assessoria de imprensa, principalmente, na área da Saúde. Passei pelo jornalismo sindical e pouco tempo pelo jornalismo diário, justamente no Tribuna de Minas, ainda nos anos 1990. Hoje, continuo atuando no mercado, e trabalhando 12 horas por dia, mas o hobby tão necessário acabou também se direcionando à paixão pela palavra e me inicio no mundo dos blogs.

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