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Discutir a “adultização” de crianças é necessário, mas políticos precisam de bom senso nas suas ações

A “adultização” de crianças é um fato grave que carece de uma discussão profunda


Por Paulo Cesar Magella

13/08/2025 às 15h42

  Não é de hoje que o influenciador Felipe Bressanin Pereira, conhecido como Felca, utiliza as redes sociais para denunciar ações que podem se caracterizar como exploração de menores de idade. Sua mais recente publicação, com mais de cem milhões de visualizações no YouTube, abordou o que classifica de “adultização” de crianças e adolescentes. 

  Felca apontou perfis em que os menores são expostos de forma sexualizada enquanto crianças aparecem com pouca roupa, dançando músicas sensuais ou falando de sexo. No entanto, o que mais lhe chocou foram os comentários. Eram nítidos os pedidos de maior exposição e alguns com forte viés de pedofilia, na sua avaliação.

  Alguns perfis que utilizam esse tipo de proposta estão fora do ar. Um deles é do influencer Hytalo Santos, responsável por um reality. De acordo com denúncias que contra ele estão em curso, ele pagava o aluguel das famílias de adolescentes participantes. Ele, no entanto, diz que não avança os limites da lei.

  Muitas dessas famílias, cujos parentes estão sendo expostos nas redes sociais, vivem em plena vulnerabilidade social e consideram a exposição um meio para angariar recursos. São, ao fundo, também vítimas dos exploradores, que não medem consequências para seus atos.

  No entanto, seria ingenuidade considerar que todos agem sem dolo na busca de tais exposições. Em muitas situações, o dinheiro fala mais alto, criando um elo entre os que expõem seus próximos em troca de remuneração e os que publicam os vídeos em busca de engajamento e, por consequência, dinheiro.

  As denúncias de Felca chegaram ao Congresso. O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta, em postagem nas redes sociais, agradeceu ao influenciador a coragem em denunciar e revelou que, após reuniões com os líderes de bancada, vai colocar em pauta projetos que tratem da proteção das crianças e dos adolescentes.

    No Senado não foi diferente. Os senadores Damares Alves (Republicanos-DF) e Jaime Bagattoli (PL-RO) reuniram 64 assinaturas até a manhã dessa terça-feira (12) para pedir a instalação da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) contra a sexualização de crianças, segundo as assessorias dos gabinetes desses parlamentares.

O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), atualizado em 2017, tem meios para coibir tais ações, bastando o cumprimento dos artigos nele inseridos.

  Discutir as denúncias de Felca é importante, mas a instância política deve atuar de forma consistente, sem se transformar em espaço para visibilidade dos parlamentares. As Comissões Parlamentares de Inquérito têm começo certo e desfecho indefinido, mas servem para colocar seus participantes nos holofotes da mídia e das redes sociais.

  Espera-se, pois, que os políticos de fato busquem medidas para mudar tal realidade em vez de atrapalhar as investigações que já estão em andamento na instância policial. A proteção de crianças e adultos é questão que não se esgota na polícia; deve, sim, ser uma ação também da política, desde que esta atue na busca de solução.