A iminência da ruptura
Foi uma perda para a cultura brasileira. Dita aos montes, a frase serviu a famosos e anônimos quando confrontados com a morte de Sérgio Britto, Fernando Torres, Paulo Autran, Raul Cortez, Walmor Chagas, Cleyde Yáconis, entre muitos outros artistas centrais no que ficou conhecido como Teatro Moderno Brasileiro. Precursores de uma cena que levava para os palcos a identidade nacional, com textos e elementos que, de fato, eram reconhecidos pelo público, e não se bastavam em risos e caricaturas, esses e muitos outros nomes sobreviveram do teatro e flertaram com a televisão. Ao saírem de cena, deixam vazio o espaço de valorização da interpretação através do texto dramático, o que vem sendo apontado, ao longo dos últimos anos, como o declínio da expressão moderna e a consolidação da linguagem pós-dramática, ou simplesmente do contemporâneo.
Segundo o pesquisador e crítico teatral Décio de Almeida Prado, em seu livro basilar O teatro brasileiro moderno, apesar de algumas tentativas feitas na década de 1930, foi com a primeira encenação de Vestido de noiva, encenada pelo grupo Os Comediantes, em 1943, que o teatro alcançou originalidade. Com direção de Zbigniew Ziembinski, a montagem do texto de Nelson Rodrigues inaugurou uma nova era na expressão, única a ficar de fora da Semana de Arte Moderna, ocorrida na São Paulo de 1930. O choque estético, pelo qual se costuma medir o grau de modernidade de uma obra, foi imenso, elevando o teatro à dignidade dos outros gêneros literários, ressalta Prado em sua obra.
Fundado cinco anos depois, em 1948, pelo italiano Franco Zampari, o Teatro Brasileiro de Comédia, o TBC, serviu-se do sucesso de Vestido de noiva estabelecendo, já na capital paulista, o exercício inovador que conjugava texto consagrado e encenadores estrangeiros. Saídos do TBC, Tônia Carreiro, Sérgio Cardoso, Fernanda Montenegro e muitos de seus contemporâneos, tornaram-se reconhecidos nacionalmente por conta de sensíveis e dramáticas interpretações. Nos últimos anos tem havido no teatro brasileiro uma forte tendência para voltar a um teatro inteiramente imitativo. O teatro deixou de ser teatro para virar uma espécie de festinha tribal planejada para dar grande prazer aos componentes do elenco, critica a temida Barbara Heliodora, em conferência intitulada Algumas reflexões sobre o teatro brasileiro e proferida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Formada sob as bases do teatro europeu e iniciada nos jornais pela cena moderna, Barbara reivindica, justamente, o trabalho de representação das atrizes e dos atores que formataram o teatro nacional, o que tem sido substituído pela linguagem física e pelos textos monossilábicos. Vivemos numa sociedade do visual e do corporal, e o teatro tem sido feito dessa forma, cada vez mais para um público menor, comenta o diretor do Grupo Divulgação José Luiz Ribeiro, fortemente influenciado pela expressão moderna. Acho difícil as categorizações. O teatro é muito generoso. Mesmo o moderno mudou muito, e acho que ele não elimina o contemporâneo. Há sempre um diálogo, aponta Márcia Falabella, diretora do Fórum da Cultura e integrante do Divulgação.
Tem gente que vai para o físico porque tem uma pesquisa de corpo. Mas há como fazer uma montagem da palavra trabalhando outras corporalidades, comenta Márcia. O teatro é uma área do homem diante do homem, e as pessoas agora querem tecnologia, completa Ribeiro, disparando: As pessoas querem inventar a roda, mas o teatro exige lastro.
A palavra como corpo
Afinal, o moderno já foi superado nos palcos? Para a diretora Renata Rodrigues, o teatro contemporâneo passa muito mais pelo desejo do que pela produção de fato. Ao observar as agendas teatrais das principais capitais do país, Rio de Janeiro e São Paulo, os espetáculos mais voltados à experimentação ainda não são maioria. Falamos muito no contemporâneo mas ainda vivemos o moderno, principalmente em nossa cidade. A ruptura ainda não aconteceu, analisa. Segundo ela, o teatro contemporâneo está mais ligado ao presente e ao procedimento investigativo, questionando desde o papel do diretor até a própria execução dramatúrgica.
Em seu livro Teatralidades contemporâneas, a professora da USP e pesquisadora Silvia Fernandes defende que, já em meados dos anos 1980, a expressão vem sendo praticada por grupos como o Teatro de Vertigem, de Antônio Araújo, a Companhia de Atores, de Henrique Diaz, e a Companhia de Ópera Seca, de Gerald Thomas. Apontando a transformação no texto e os muitos questionamentos sobre o processo cênico, Sílvia denuncia uma teatralidade que se alinha à dança e à performance, numa linha tênue já investigada pelas artes plásticas, na época do movimento da performance artística, cujo ponto de partida data dos anos 1960.
Iniciado há pouco mais de um mês, o projeto Flutuando pela dramaturgia do ator, incentivado pela Lei Murilo Mendes, propõe investigar a dramaturgia do corpo, entendendo a própria palavra como corpo, numa nítida abertura de conceitos. Nossa ideia é pesquisar como o texto escrito funciona no corpo do ator, elucida Renata, que, junto à também diretora Gabriela Machado, outros quatro atores, um cinegrafista e dois músicos, integra o projeto. Em encontros mensais, o grupo recebe o ator, diretor, pedagogo e escritor teatral ítalo-argentino Norberto Presta, que dirigiu no Brasil o espetáculos O que seria de nós sem as coisas que não existem, do Grupo Lume, de Campinas, entre outros projetos.
Contendo as discussões propostas por Norberto e executadas pelo grupo, um site do projeto será lançado na primeira semana de maio, quando o diretor estará na cidade. Um dos nossos objetivos é mostrar o processo de criação. A gente precisa pensar no fazer e em como fazer, avalia Renata, ponderando que o teatro moderno também se preocupou com o processo da cena: Sempre houve uma busca de como fazer, o teatro contemporâneo vem para questionar e ir além, experimentando outras possibilidades.