Mais da metade dos brasileiros (62%) admite fazer compras não planejadas pela internet – hábito que leva 40% a gastar além do que podem. Os dados fazem parte de pesquisa da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e do SPC Brasil, em parceria com a Offerwise.
Entre aqueles que reconhecem comprar por impulso, 10% dizem agir assim “quase sempre”, 15% “frequentemente” e 37% “às vezes”. A pesquisa aponta como principais gatilhos promoções (54%), frete grátis (45%) e lançamentos de novos produtos (25%).
Entre as categorias mais comuns estão roupas, sapatos e acessórios (44%), seguidos por cosméticos e itens de beleza (32%). Também aparecem com destaque pedidos de comida por delivery (28%) e produtos para a casa (27%).
O dilema emocional
No campo emocional, os sentimentos após a compra se dividem: enquanto parte dos consumidores relata satisfação ou felicidade (28%) e uma sensação de bem-estar (14%), outros afirmam sentir indiferença (19%), arrependimento (15%) ou até medo de não conseguir pagar as dívidas geradas (15%).
Quase metade dos entrevistados (49%) reconhece os gatilhos emocionais que os levam a comprar, entre eles momentos de felicidade intensa ou comemoração (18%), a busca por recompensa (14%) e o desejo de poder, pertencimento ou prazer (13%).
O levantamento também mostra que sete em cada dez consumidores (72%) já tentaram reduzir as compras por impulso on-line; desses, 57% conseguiram e 14% não tiveram sucesso.
Para a doutora em Psicologia Social e psicóloga clínica com especialização em Prática Baseada em Evidências, Adriana Woichinevski Viscardi, as compras por impulso resultam de uma cadeia complexa influenciada por estratégias robustas de marketing. Ela lembra que mais de um quarto dos brasileiros recebeu diagnóstico de ansiedade em 2023.
Nesse cenário, observa, é comum que as pessoas tentem aliviar tensões emocionais por meio do consumo – apresentado como um escape imediato: uma forma de recompensa, compensação emocional, busca de pertencimento ou comparação social.
A psicóloga acrescenta que a publicidade atua como uma espécie de “diagnóstico” dos problemas sociais e individuais e explora sentimentos como solidão, insegurança e tensão, oferecendo soluções simbólicas que reforçam o consumo como resposta emocional.
As consequências financeiras
Apesar da satisfação momentânea e da praticidade das compras on-line, a pesquisa mostra que o impulso pesa no bolso. Ao todo, 35% dos entrevistados já contraíram dívidas ou atrasaram o pagamento do cartão de crédito e de contas essenciais por causa de gastos não planejados.
A maior parte dos atrasos se concentrou no cartão de crédito (20%), seguido por contas diversas (10%) e serviços de internet (6%).
As pessoas nem sempre percebem quando perdem o controle das compras, tendendo a justificar gastos. Por isso, a psicóloga recomenda registrar despesas, identificar as impulsivas e avaliar o impacto ao longo do tempo.
Adriana acrescenta que, se o autocontrole não funcionar, é importante buscar ajuda profissional. Ela destaca que abordagens como a Psicoterapia Comportamental e técnicas de regulação emocional têm mostrado bons resultados no tratamento da compulsão por compras, ajudando a recuperar equilíbrio e consciência financeira.
*estagiária sob supervisão da editora Fabíola Costa

