Ícone do site Tribuna de Minas

Cem dias de solidão

Chegamos ao centésimo dia do Governo Bruno Siqueira com a sensação daquilo que os franceses chamam de déjà-vu (sensação de já ter vivenciado uma situação ou visitado algum lugar). Ao vê-lo discursar e reclamar das dívidas herdadas, é inevitável lembrar de Custódio, que, há quatro anos, fazia o mesmo em relação a Bejani, que também reclamara de Tarcísio, e este o mesmo fizera em relação ao próprio Custódio. Criou-se na Administração municipal uma ciranda de inculpação recíproca que pode até aliviar a consciência do governante, mas em nada contribui para livrar a cidade dos seus diversos problemas, alguns crônicos.

A utilização política deste chororô de início de mandato parece evidente ante à constatação de que as acusações se encerram em si, sem a exigência de questionamentos formais ou a busca de esclarecimentos cabais. Por que não vêm acompanhadas, por exemplo, da realização de uma auditoria interna ou da instalação de uma comissão parlamentar de inquérito, permitindo que todos entendam o que verdadeiramente se passa com as contas públicas? O atual prefeito tem, no momento, uma boa oportunidade para contrariar nossas expectativas, fornecendo elementos para a apuração de responsabilidades. Se não for adiante, será apenas mais um a utilizar-se de números e cifras, normalmente imprecisos, para ganhar tempo no presente e exultar-se de conquistas saneadoras no futuro. A fórmula é velha, bem sabemos.

PUBLICIDADE

Aliás, entre os números que se destacam neste início de governo, um nos chama a atenção, e não se trata do valor estimado de nossa dívida ou dos aportes necessários à realização das obras viárias clamadas pela cidade. Trata-se do número de homicídios, que já ultrapassa a casa dos 50, muitas vezes superior a de igual período em anos anteriores. Sem querer simplificar a análise objetiva deste fenômeno, fica evidente que esta onda de violência tem relação direta com a ausência ou com a ineficiência de ações do Estado, aí incluída naturalmente a Prefeitura. Por isso, nesta área, o número que melhor definiria a eficácia de um governo, que inicia seu trabalho, seria o que mais lhe aproximasse do zero; um aparente paradoxo para quem sonha com a multiplicação das cifras e dos índices de crescimento de nossa cidade, mas uma retumbante vitória da vida sobre a morte, meta número um de qualquer governo no mundo civilizado.

Jovem, eleito com insofismáveis 163 mil votos, Bruno tem a obrigação de renovar e inovar. Dele se espera tudo, menos a imitação do passado. No entanto, a ausência de um plano de trabalho próprio, associada à manutenção de ações, métodos e grupos vinculados a antigas administrações, começa a minar a crença num governo que encarne o desejo de transformação expresso pela esmagadora maioria da população. Não devemos nos esquecer que tanto ele quanto sua oponente foram levados ao segundo turno das eleições municipais embalados por um forte sentimento de mudança. Traí-lo significa trair a confiança do povo e perder a legitimidade para continuar governando.

O problema não está em dar continuidade às boas ações do seu antecessor. Isto é básico. A questão é manter-se atado às velhas práticas, prisioneiro de um modo de governar que privilegia interesses particulares. O poder, que não se estrutura para dar ouvidos à população, conduz à solidão, a uma certa privação de sentidos, mesmo que o mandatário esteja cercado, como em geral está, de mil bajuladores. O maior desafio de Bruno talvez seja o de se reinventar e, ao fazê-lo, recriar as bases do seu governo, incentivando a participação de todos e atrelando as metas de crescimento econômico aos índices de bem-estar social. Difícil? Talvez. Mas é o que se exige de um bom prefeito.

Sair da versão mobile