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A certeza da impunidade masculina continua

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O país viu, ao vivo, em janeiro de 2023, o apresentador Tadeu Schmidt repreender Gabriel Tavares após gritos, silenciamentos, toques agressivos e a ameaça velada dirigida a Bruna Griphao, ambos participantes do programa de reality show daquele ano. Diante de milhões de espectadores, o apresentador reforçou que, em uma relação afetiva, certas frases não podem ser ditas nem em tom de brincadeira. O alerta ampliou o debate sobre limites, respeito e consentimento. Três anos depois, na edição atual do programa, vemos novamente o padrão do comportamento masculino abusivo. Pedro Espíndola tentou beijar à força Jordana Morais, segurando seu pescoço e trancando a porta da despensa — uma cena evidente de importunação sexual, amplamente exibida e repercutida. Isolado, ele admitiu o erro, mas culpou a vítima: “ela deu lado”.

A frase sintetiza a lógica persistente da imputabilidade masculina, em que homens se eximem de responsabilidade e se apoiam na naturalização — e na certeza — da impunidade de seus atos. Tenho alertado que a certeza da impunidade alimenta e perpetua comportamentos abusivos. Agora, em 2026, é lamentável a constatação que a realidade se agravou. A “casa mais vigiada do Brasil”, cercada de câmeras e de 200 milhões de testemunhas, não impediu que uma importunação sexual ocorresse ali dentro. Se nem no ambiente de maior visibilidade do país as mulheres estão protegidas, o que dizer das que vivem fora das telas, anônimas, “presas fáceis”? Os números confirmam o desastre anunciado. Entre 2023 e 2026, o Brasil viu a violência contra a mulher crescer de forma contínua.

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O Atlas da Violência 2025 revela que os homicídios femininos aumentaram 2,5% de 2022 para 2023, atingindo 3.903 vítimas, majoritariamente negras. As violências não letais também avançaram: em 2023, foram 275 mil atendimentos a mulheres agredidas, um salto de 24,4% em relação ao ano anterior. No mesmo período, o Ligue 180 registrou 33% a mais de denúncias, e 88% das brasileiras disseram ter sofrido violência psicológica ao longo da vida. O ano de 2025 escancarou a tragédia: jamais se matou tantas mulheres no Brasil em uma década — foram 1.470 feminicídios, média de 4 assassinatos por dia. Manifestações tomaram as ruas do país exigindo o óbvio: “Parem de nos matar” e a publicização das fotos e nomes completos dos agressores nas mídias. E, como se não bastasse, janeiro de 2026 manteve essa média macabra.

Nenhum indício de melhora. Por trás desses números, estão fatores historicamente conhecidos: uma cultura profundamente machista, a naturalização da violência masculina, a erotização da agressividade, o avanço de grupos de supremacia masculina nas redes, desresponsabilização de homens e responsabilização das vítimas, e a certeza histórica de que corpos femininos estão disponíveis para castigo, recreação e desfrute. É a pedagogia da dominação, reforçada, normalizada e, vez ou outra, exibida — vergonhosamente — no maior reality show do país, como retrato vivo do cotidiano. Mas nada disso importa para a mãe da adolescente violentada e assassinada ao voltar do trabalho. Não importa para os órfãos que perderam suas únicas referências afetivas — e agora vivem em abrigos, longe da vida que conheciam.

Não importa para amigos, famílias, comunidades, empresas, educação ou política que perderam mulheres de importância inestimável. Saber a origem estrutural do problema não anula traumas ou traz de volta vidas perdidas. Os nossos corpos precisam ser respeitados. Nossos corpos são nossos. E a responsabilidade por violá-los é exclusivamente dos agressores. Que cada um responda pelo que fez. Não queremos apenas punição — queremos que esses crimes deixem de acontecer. Queremos viver. Queremos seguir. Queremos existir sem medo. Chega de naturalizar sofrimento, dor e morte. É preciso romper, de uma vez por todas, com a engrenagem social e certeza irracional que autoriza homens a acreditar que podem tudo — e mulheres a temer que podem ser as próximas.

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