Um casal de infinita elegância recebe uma visita. A síntese, bastante simplista, de Rebú não causa estranhamentos, não fosse os visitantes e o que se desenrola com suas chegadas. O marido, com a ajuda de uma esposa quase benevolente, acolhe a irmã doente e seu bode de estimação, tido como filho. Escondendo um misterioso segredo, a visita desestrutura o casal e insere o excêntrico animal no convívio do lar. Em linguagem indicando alguma erudição, a peça foi escrita por Jô Bilac, jovem de 28 anos, considerado um dos maiores dramaturgos contemporâneos do país, que, de hoje a sexta, ministra oficina de dramaturgia no Sesc Juiz de Fora.
Filho de um espanhol com uma brasileira, Bilac viveu até os 9 anos em Madri. Minha forma de aprender a falar o português foi fazendo pequenos livros. Sou encantado pela língua, diz, para logo completar: Ela é muito rica e cheia de imagens. Aqui no Brasil, além de alegre, você pode ser contente, entusiasmado, animado, faceiro, ou muitos outros adjetivos. Isso é incrível. Dono de uma carreira quase meteórica, o dramaturgo recebeu menção honrosa logo em sua estreia, aos 19 anos, com o texto Sangue na caixa de areia. Autor de mais de uma dezena de textos, entre eles os elogiados Cachorro!, Limpe todo sangue antes que manche o carpete e O matador de santas, Bilac venceu o Prêmio Shell de Teatro do Rio de Janeiro, em 2010, com o texto de Savana glacial.
Segundo a temida crítica Barbara Heliodora, a escrita de Bilac é firme e coerente. Encontros emocionados, monólogos de autorrevelação que colorem tanto as situações quanto as personalidades elaboram uma ação compacta que torna risível o grotesco tratado com seriedade, pontua Barbara em análise do espetáculo Rebú. Apontando para a característica que coloca o dramaturgo lado a lado com sua maior referência, Nelson Rodrigues, a crítica revela, ainda, um escritor com consciência da tradição.
‘A mulher sem pecado’, foi a primeira peça do Nelson que eu vi. Fiquei impressionado com tanta beleza e horror nos discursos. Nelson é genial. Saí de lá querendo ler mais sobre ele, ler mais coisas dele, comenta o escritor, que também diz ter outras referências. A lista é extensa. Tem o Nelson, que, unânime por sua genialidade, escreveu o inconsciente; Suassuna, que vem como um parque de diversões; Shakespeare, que nos faz lembrar da fúria e da paixão dentro de nós; Ionesco, que me faz sentir como Alice dentro do espelho; Albee, provocante como um doce amargo; Beckett que pontuou o silencio; Tchecov; Pinter; Arrabal; Leilah; Lorca.
Atuante na cena contemporânea, o dramaturgo é apontado como um dos nomes a acreditar na força do texto. Enquanto a nova geração se envolve em complexas e monossilábicas encenações, muito mais afeitas à dança, Bilac se ancora nas palavras. É na escrita que potencializo o sentido de minha existência neste mundo. O drama veio como consequência disso – uma necessidade de comunicação dinâmica, em tempo real, direta, falada, escrita, ardida em cena. Não entrava na minha cabeça escrever algo que ficaria numa prateleira ou numa gaveta, explica, sem deixar de reivindicar maior espaço para o teatro na cultura brasileira. Acredito que seja difícil trabalhar como dramaturgo em qualquer lugar do mundo. Sempre rola um papo da carência em relação aos novos dramaturgos, escritores, como se não houvesse nenhum. Mas existe, sim, uma produção nacional desse operário da escrita. O que falta é espaço, cada vez mais! Escrever aqui no Rio, ou em qualquer outro lugar, é difícil. Não por falta de criatividade, mas de espaço, oportunidade, dinheiro, mercado, procura.
