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Inúmeros tons

Ele queria ser um poeta maldito, ou um poeta social, mas em "Caprichos e relaxos", livro de 1983, declara em versos: "em vez/ olha eu aqui/ pondo sal/ nesta sopa rala/ que mal vai dar para dois". Um blefe. A poesia de Paulo Leminski tem servido a muitos, surpreendendo editores, teóricos e, principalmente, poetas. Na lista dos mais vendidos durante o último mês, "Toda poesia", coletânea que reúne a produção de versos do escritor, ocupa o quinto lugar das revistas "Veja" e "Época", e a oitava posição do site Publish News, na lista dos livros de ficção mais comercializados da semana passada, e permanece no primeiro lugar das vendas da Livraria Cultura, rede de lojas espalhadas por todo o Brasil, desbancando os três títulos da série "Cinquenta tons", romance sensação de E. L. James. Em sua quinta reimpressão, com tiragem de 25 mil exemplares, a obra aponta para a popularização da poesia, há muito condenada aos pequenos círculos de intelectuais. Dispersos na rede, os versos se multiplicam em sites de relacionamento como o Facebook e em saraus, que, cada vez mais, ampliam-se pelo país.

"Sem demagogia, com amor e humor, talento e lucidez, Leminski vai abrindo caminhos na selva selvagem da linguagem, no repertório caótico de nossas cabeças cortadas. Destila tudo com sabedoria, e suas gotas de poesia são colírio para nossos olhos poluídos", argumenta com efusão a professora e teórica Leyla Perrone-Moisés em apêndice de "Toda poesia". Segundo a poeta Laura Assis, responsável pelo selo Aquela Editora, o sucesso da obra se deve a uma conjunção de fatores. "A Companhia das Letras lançou um poeta acessível e atraente, fazendo um bom trabalho de marketing e oferecendo um bom acabamento", aponta.

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A julgar pela capa, que apostou num fundo em laranja cítrico, cor definida como tendência do verão de 2013, e os escritos em preto, como uma aquarela, ressaltando o nome do escritor e o desenho do clássico bigode que Leminski cultivou durante a vida, o livro já esperava por êxito. Para o jovem poeta Otávio Campos, o resultado estrondoso está muito ligado à internet, com as muitas chamadas publicitárias produzidas pela editora e o cinematográfico booktrailler com a participação de Arnaldo Antunes, visto por mais de 30 mil pessoas."A poesia é uma experiência de leitura diferenciada. Há um esgotamento da prosa, uma repetição nos romances", arrisca Anderson Pires, poeta e professor do Programa de Pós-graduação em Letras do CES/JF, justificando o que para muitos é tratado como uma fenômeno editorial.

 

 

Sem pedestal

Afora o poeta curitibano, morto em 1989, autor de "Distraídos venceremos", "Catatau", "Bashô" e muitos outros títulos, além de compositor gravado por nomes como Caetano Veloso e Ney Matogrosso, a poesia tem obrigado revisões no mercado editorial. Gaúcha, a jovem Angélica Freitas já alcançou a marca de três mil livros vendidos, tiragem aplicável aos romances contemporâneos de escritores já conhecidos, com o segundo trabalho de sua carreira, "Um útero é do tamanho de um punho." Recém-lançada, a antologia "Poesia.Br", organizada pelo editor Sergio Cohn, também demonstra o fôlego do gênero ao revisar anos da produção no Brasil, elencando desde autores consagrados até outros menos conhecidos.

"Sou muito otimista com esse panorama. A editora está lançando livros, e continuamos recebendo muitos originais", ressalta Laura, que já publicou quatro títulos pelo selo e prepara novos lançamentos na cidade para esse ano. A alguns passos de chegar às prateleiras, "Distância", de Otávio Campos, é a mais nova aposta da editora, que não vê os versos em seu habitual pedestal. "Não acredito na poesia como um dom divino", comenta, apontando as poesias modernista e marginal como as principais referências da nova geração local.

Segundo Anderson Pires, a música popular e o rap contribuíram para a popularização do gênero, que já não é visto mais como artesanato que prescinde de formação. "O fato de Paulo Leminski fazer sucesso quebra com essa ideia de que o texto poético exige uma educação", comenta. "Poesia é a vida acontecendo a cada dia", reflete a poeta Anelise Freitas, para logo explicar: "Poesia é a parte imaterial, e o verso é a parte burocrática". Ponderado, Campos adverte que não é qualquer coisa que é poesia. "Existe todo um trabalho. É tirar a palavra de seu lugar de origem e inseri-la num espaço de estranhamento", analisa.

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E, mesmo que os recortes de Leminski nas redes sociais prenuncie uma possível descontextualização e, até mesmo, vulgarização do escritor, é a ampliação de público que está no foco. São os riscos do jogo. "Tenho visto saraus cada vez mais cheios", comenta Laura. "Nos últimos anos eu percebo essa volta", corrobora Pires, também apontando para os frequentes encontros em que o verso é, além de protagonista, arma social. Crescentes nos grandes centros, principalmente nas periferias, os saraus retomam a característica declamatória dos versos. "O sarau devolve o lugar dionisíaco da poesia", destaca Pires, um dos fundadores do evento Eco – Performances Poéticas, que já chegou a reunir quase 140 pessoas em apenas uma noite.

Responsável pelo rejuvenescimento da cena literária na cidade, o Eco começou em 2008 e, desde então, reúne poetas para leitura de seus textos. Entre convidados que vão de escritores consolidados em Juiz de Fora e fora daqui a estudantes entusiastas e candidatos de última hora, que se cadastram para leitura no microfone aberto, o evento conseguiu mapear e fortalecer uma nova geração de poetas. Sem casa desde o fim de 2012, quando se despediu do Espaço Mezcla, local de origem, o Eco tem negociado com novos palcos da cidade.

De acordo com Anderson Pires, muita gente pediu para que o evento não acabasse. "O próprio público se acostumou. A cada ano tivemos uma plateia maior e mais diferente. O Eco é tão maior que a gente, que independe até de quem criou", analisa. Previsto para o dia 9 de maio, o evento "Trovadores elétricos" acontecerá nos jardins do Mamm, com um formato pocket do tradicional evento e servirá como teste para a nova fase do sarau, que em junho completa cinco anos e pretende trazer a aclamada poeta carioca Alice Sant’Anna. "Vejo um horizonte", poetiza Pires, confirmando que ainda há muita poesia a reverberar na cidade e fora dela.

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