Uma cidade considerada teatral não deve ser apenas aquela que tem mais palcos, mas aquela em que o palco pode nascer em qualquer esquina. Pode estar na praça, em um galpão improvisado, em uma sala comercial, em uma garagem, em um barulho de ensaio vindo de uma janela aberta. É uma cidade que pulsa e respira no ritmo de um texto dito em voz alta, de um corpo que se move no vazio de uma sala, de um público que ainda se deixa afetar.
O Caderno de Cena chega à sua décima coluna e, para isso, gostaria de propor uma dinâmica: parar um instante diante dessa paisagem e perceber o quanto há de invisível naquilo que chamamos de “cena”. O teatro, afinal, não se mede apenas pelo que se mostra, mas vive, também, do que se prepara, do que ainda não tem forma, do que acontece nos bastidores, nos ensaios noturnos, nas oficinas silenciosas e nos encontros.
Juiz de Fora, nesse sentido, é, sim, um organismo cênico em movimento. Mesmo com a falta de espaços e políticas públicas destinadas à arte da cena, existem grupos que resistem há décadas e outros que nascem em garagens, salas de aula, quintais. Há escolas e projetos que formam atores, mas também olhares. Há técnicos que constroem luzes e sombras, produtores que equilibram o impossível de um orçamento limitadíssimo, dramaturgos que inventam o que ainda não existe. Há plateias que se transformam, mesmo pequenas, mas sempre presentes. Tudo isso compõe o corpo vivo de uma cidade teatral, que é feita de gente que acredita que o palco ainda é necessário.
Mas é preciso dizer: uma cidade teatral não deve e nem consegue se sustentar apenas de entusiasmo. É preciso continuidade, política, investimento, espaço para o que ainda está germinando. O teatro é trabalho, e seu florescimento depende de quem o reconhece como parte essencial da vida pública. Sem políticas duradouras, o risco é o que Juiz de Fora vive há muito: a intermitência e o vai e vem de iniciativas que iluminam e logo se apagam.
E, dentro desse quesito, é importante lembrar que as inscrições para o Conselho Municipal de Cultura (Concult) vão até esta quarta-feira (8). Ao todo, serão escolhidos 12 membros titulares e seus respectivos suplentes para representar as diversas áreas da arte, entre elas as cênicas. A inscrição deve ser realizada pelo portal Prefeitura Ágil e podem se candidatar pessoas físicas maiores de 18 anos, com atuação comprovada no setor artístico-cultural e inscrição no CAD Cultural.
Mesmo com a falta de incentivo do poder público – e, por vezes, do poder privado -, o teatro resiste. É uma arte capaz de encontrar uma brecha, um gesto, uma voz que se levanta. Porque o teatro não acontece apenas na apresentação, mas existe no processo, no ensaio, no improviso que se transforma em cena, na conversa que vira dramaturgia.
Uma cidade teatral, portanto, é aquela que ensaia em silêncio, que constrói sua memória sem precisar ser vista o tempo todo. Porque o teatro não faz a cidade aparecer, mas a revela, do avesso, mesmo para aqueles que já a conhecem. Enquanto houver quem diga e quem ouça, o teatro em Juiz de Fora continuará vivo.
Em Cartaz
Doce árido
Três gerações de mulheres mineiras enfrentam a escassez e o peso da tradição em “Doce árido”, espetáculo escrito por Tairone Vale e dirigido por ele em parceria com Leo Cunha. A peça estreia no dia 10 de outubro, no Anfiteatro da Praça CEU (Av. Presidente Juscelino Kubitschek, 5.899, Benfica), e segue em curta temporada nos dias 10, 11, 12, 17, 18 e 19, às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h, em sessões que contam com tradução simultânea em Libras e ingresso promocional para pessoas com deficiência.
A trama acompanha mãe, filha e avó que sustentam a casa com a produção artesanal de doce de leite, enquanto enfrentam dilemas de maternidade, abuso e abandono, revelando a solidão das grandes matriarcas brasileiras. O elenco reúne Pri Helena, Rebeca Figueiredo e Layla Paganini, com trilha original de Laura Jannuzzi e direção de arte de Cris Bourgeauseau. Os ingressos estão à venda no Sympla, a preços populares, R$ 40 a inteira, R$ 20 a meia e R$ 10 para PcD aos domingos.
No encerramento da temporada, dia 19/10, o público poderá participar de uma roda de conversa com elenco, equipe e a psicóloga Ludmila Andrade, especialista em saúde mental e atenção psicossocial.
Ouvindo Adélia
O quase sexagenário Grupo Divulgação, por meio do Núcleo de Terceira Idade, presta homenagem à poeta Adélia Prado com o sarau “Ouvindo Adélia”, nesta quinta-feira (9), às 19h, no Forum da Cultura, localizado na Rua Santo Antônio, 1.112, no Centro. O espetáculo integra a 13ª Noite Mineira de Museus e Bibliotecas e tem entrada gratuita.
O Núcleo de Terceira Idade do Grupo Divulgação surgiu em 1994, sendo um dos pioneiros do Brasil neste segmento, e, desde então, a poesia de Adélia Prado é recorrente, assim como outros grandes poetas, nos saraus e espetáculos do núcleo.
O público poderá revisitar a poesia “lírica, bíblica e existencial” da autora, destacada por Carlos Drummond de Andrade, e ainda aproveitar o horário estendido para visitar as exposições em cartaz no museu e na galeria de arte do espaço.
Em breve…
O último vendedor de tempo
Resultado de nove meses de pesquisa da Turma de Montagem do Programa Gente em Primeiro Lugar, o espetáculo “O último vendedor de tempo” estreia no dia 17 de outubro, às 20h, com segunda apresentação no dia 18, também às 20h, no Teatro Paschoal Carlos Magno, localizado na Rua Gilberto de Alencar, 1, no Centro.
Com entrada gratuita, o público deve retirar os ingressos uma hora antes do início. A montagem convida à reflexão: em uma cidade em que o tempo virou mercadoria, um homem misterioso chega em sua carroça como o último vendedor de tempo, despertando memórias, desejos e a pergunta essencial: e se fosse possível comprar mais tempo?

