Uma vida inteira acompanhando de perto as histórias, os dramas e as mudanças na rede de psiquiatria de Juiz de Fora não só como espectadora, mas como uma mulher que há 34 anos vivencia, junto com a irmã diagnosticada com esquizofrenia, a realidade de quem depende do sistema público de saúde para manter o tratamento. Irene Aparecida Vitorino é presidente da Associação de Familiares de Doentes Mentais (AFDM) e também responsável por orientar centenas de pessoas impactadas pelo atual processo de desospitalização dos pacientes e pela tensão decorrente da diminuição do número de leitos de internação, por causa do fechamento de pelo menos cinco instituições com a mesma função nas últimas décadas. Em contrapartida, a nova rede de atendimento ainda não está estruturada. Promessas atravessam o decorrer dos anos, como o caso da abertura de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) 24 horas que chegou a ser previsto em 2007 e até inaugurado em 2012, mas nunca funcionou dentro da função para a qual havia sido designado. Esta reportagem dá sequência à série "Saúde em raio X", focando a questão da saúde mental.
"Não somos contra a desospitalização. A nossa luta é pelo respeito e dignidade dos pacientes", ressalta Irene. A preocupação dela é reforçada, principalmente, pela redução de 31% no número de vagas ofertadas nesse tipo de instituição, considerando o período de 2007 até março deste ano. "Quando um local é fechado, não há abertura de outros ou reposição de vagas do mesmo modelo." Por causa disso, torna-se cada vez mais comum encontrar os que retornaram para casa. É o caso dos filhos de uma senhora de 78 anos, os três têm doença mental. Dois estão em casa e um internado no Hospital Psiquiátrico Municipal (Antiga Casa de Saúde Esperança). "Dou conta deles sozinha, mas há horas em que é muito difícil", diz a idosa.
"A primeira opção é realmente tentar reinserir os pacientes no ambiente familiar e ressocializá-los. O fechamento dos hospitais é um caminho inevitável, faz parte do processo da reforma psiquiátrica, que prevê a implantação de uma rede substitutiva composta pelos Caps e pelas residências terapêuticas, explica Rogério Mucidas, assistente na ONG Casa Viva. A instituição é responsável por administrar, juntamente com o Grupo Espírita de Assistência aos Enfermos (Gedae), as 12 residências terapêuticas existentes na cidade. "Sabemos que a desospitalização é um processo lento, principalmente porque parte dessas pessoas está há muito tempo institucionalizada, além de existir um percentual muito grande que não tem mais família. Mas a tendência é a transformação do modelo de internação."
Rogério observa a desproporcionalidade entre o número de leitos perdidos nos hospitais e as vagas existentes para os pacientes que precisam permanecer nas residências. "Cada uma tem condições de receber oito pessoas. Se temos 12 unidades, são 96 lugares. É preciso pensar nas outras 387 pessoas que ainda estão nos hospitais e na estrutura para atendê-las", reforça. "Estou cansada de ver meus irmãos sofrendo dentro dos hospitais. Desde que me entendo por gente, é a mesma história. Em casa é difícil manter; internados eles sofrem na mão de quem não cuida direito. Isso precisa mudar", lamenta uma vendedora de 46 anos, que não quis ser identificada.
Desmonte do antigo modelo
"A nossa rede, hoje, é quase inexistente e atualmente não dá conta de atender à demanda dos pacientes psiquiátricos. Por isso estamos estruturando-a com auxílio do Ministério da Saúde. Temos um consultor da pasta nos auxiliando e queremos que Juiz de Fora se torne referência nessa questão." A observação do secretário de Saúde, José Laerte Barbosa, é reflexo de um desmonte do antigo modelo de saúde mental, que não foi acompanhado da reestruturação na mesma velocidade. Um exemplo é a longa espera da população pela criação de um Centro de Atenção Psicossocial (Caps) III, capaz de oferecer atendimento 24 horas para os pacientes. Em 2007, a Secretaria de Saúde do município chegou a anunciar a realização de estudos para implantar a ferramenta, mas a proposta não foi efetivada. No ano passado, a antiga gestão da Prefeitura, inaugurou a reforma da unidade, localizada na Rua Silva Jardim, no Centro, anunciou o funcionamento, mas efetivamente o modelo proposto não aconteceu. Ou seja, o Caps está aberto, mas não funciona 24 horas como foi prometido.
De acordo com a Secretaria de Saúde, a autorização do Governo federal para implantar definitivamente a estrutura no local já foi dada, mas é necessário que a proposta seja referendada pela Secretaria de Saúde de Estado. Há também a previsão de criação de mais dois – sendo um deles para álcool e drogas e outro para a Zona Norte – e a ampliação do Caps Leste para um modelo 24 horas. Adultos e crianças podem ser beneficiados com uma unidade de acolhimento para cada perfil. "Também estamos programando a instalação de outras dez residências terapêuticas para suprir essa demanda dos hospitais psiquiátricos. Quando estiverem em funcionamento, poderemos fechar a Casa de Saúde Aragão Villar", afirma o secretário.
Apesar de receberem a notícia com olhar positivo, os representantes da Associação dos Familiares dos Doentes Mentais (AFDM) ainda acreditam que existe um desafio tão difícil quanto a estruturação da rede. "É preciso que os médicos, enfermeiros e as outras pessoas que trabalham no setor tenham o perfil para a psiquiatria. É um desafio escolher uma equipe. Por ser tão difícil é que vemos tantos casos de maus-tratos e desrespeito aos direitos humanos", completa Evanilda Araújo, uma das representantes da associação.
