Estar em constante descoberta faz parte da trajetória de Dira Paes. Prestes a completar 30 anos de carreira no ano que vem, a intérprete da Lucimar de Salve Jorge ainda se considera uma novata em alguns aspectos. Isso porque pretende experimentar cada vez mais diferentes perfis de personagens, conhecer novos lugares e ter contato com outras línguas. Tudo através de seu trabalho de atriz. Apesar de veterana, acho que sou caloura em vários pontos em que eu possa vir a desenvolver na minha concepção e no meu desejo artístico, avalia.
Ao fazer uma análise dos anos dedicados à interpretação, Dira se diz contente. Construiu um caminho diferenciado, voltado para o cinema em grande parte do tempo até chegar à televisão, onde se tornou conhecida do grande público ao encarnar a Solineuza, em A diarista, por três anos e meio. Depois, deu vida à sensual Norminha, de Caminho das Índias, exibida em 2009, e se distanciou um pouco dos tipos cômicos em Ti-ti-ti, de 2010, e Fina estampa, de 2011. As pessoas lembram de mim pelo meu trabalho e isso me lisonjeia. Eu me dou muito para o público através dos personagens, ressalta.
TV Press – Em muitos momentos de Salve Jorge, Lucimar assume o perfil de heroína da trama. Principalmente, quando precisa defender a filha, Morena, a protagonista de Nanda Costa. Essa função da personagem já estava prevista?
Dia Paes – Foi o que eu vi nos workshops. O que eu vi nas oficinas de preparação para a novela eram depoimentos dessas mães. As mães não calam nunca. Se não fossem elas, não tinha mundo. As mães é que fazem a ponte entre o possível e o impossível. Não as conheci só nos workshops; conheço essas mães antes disso, eu lido com elas.
– Como assim?
– Faço parte de uma ONG chamada Movimento Humanos Direitos (MHUD), onde a gente ajuda pessoas que não têm voz, que precisam de espaço para expor seus problemas. Nós ajudamos e tentamos proteger vários ameaçados de morte. São pessoas que não calam, mas que não têm um advogado, não têm um esquema de subsistência…
– E conhecer essas pessoas ajudou você a buscar elementos para a composição da personagem?
– É. Eu gosto muito dessa humanização dos personagens porque considero que mulher moderna é aquela capaz de sobreviver com o mínimo. Com o salário mínimo, com o mínimo de proteção, com o mínimo de segurança, com o mínimo de condições, de educação. Essa mulher que consegue sobreviver com o mínimo, para mim, é a grande heroína contemporânea. Acho que a Lucimar traduz um pouco isso.
– Você já havia trabalhado com Gloria Perez e Marcos Schechtman em Caminho das Índias. De quem partiu o convite para Salve Jorge?
– Foram os dois ao mesmo tempo, a Gloria e o Schechtman, não sei direito. Não sei no que a Gloria estava pensando, só sei que fui convidada para fazer a novela, para fazer a mãe da Morena. Fiquei muito lisonjeada com o convite. Sabia que era uma responsabilidade, eu quero desafios na minha vida. Só que a Lucimar não parecia ser um desafio tão grande como está sendo.
– Por quê?
– Porque eu já vinha de uma mãe de Fina estampa e estava com medo de repetir muito, de ter esse mesmo universo sendo retratado. Eu coloquei isso para a Gloria e para o Marquinhos e, graças a Deus, a Gloria tem um poder de persuasão incrível. Porque ela falou: É um personagem maravilhoso.
– Já sabia que o papel teria toda a dimensão que tem na trama?
– A Lucimar é a mãe da Morena. Então, isso já dava uma sensação de que era uma personagem importante, uma referência. E, pelo fato de ser diarista e ir trabalhar em vários lugares, eu percebia a possibilidade de ser um papel que iria transitar em vários cenários, que ela podia ir para vários lados.
– Depois da Norminha, em Caminho das Índias, você emendou personagens mais densas em novelas. Como a Marta de Ti-ti-ti, a Celeste de Fina estampa e, agora, a Lucimar. Foi uma escolha sua se afastar um pouco da comédia?
– Não, foi natural. Depois da Norminha, que era uma personagem cômica, tragicômica, eu só fui convidada para papéis mais densos na televisão. Eu, geralmente, escolho meus trabalhos não só pelo personagem. Escolho pelas pessoas envolvidas, se eu quero estar junto delas, se quero conhecê-las. Então, as minhas escolhas não são só a partir dos personagens. Mas acho que, provavelmente agora, vou respirar e avaliar melhor. Porque eu estou sentindo vontade de navegar em outros mares.
– Está com vontade de voltar a fazer humor na TV?
– Foram três anos e meio de A diarista, eu fiz bastante. Na verdade, eu não crio essa expectativa. A minha sensibilidade também tem de estar de acordo com o que o personagem pede. Eu acho a Lucimar engraçada às vezes. Porque ela tem um jeito de falar que é diferente, tem gestos. Agora, um papel escrachado que nem a Solineuza – ela era clawdesca, era uma personagem circense – é um grau de humor que é rasgado. Esse humor rasgado eu quero que volte, sim. O público adora, eu adoro.
– Mesmo depois de seis anos, desde que A diarista saiu do ar, em 2007, as pessoas ainda falam muito sobre a Solineuza quando abordam você?
– Muito, o tempo todo. É engraçado, me surpreende que a Solineuza seja muito mais forte que a Norminha na lembrança do público, porque Caminho das Índias terminou em 2009.
– Na época do seriado e também por ter ficado tanto tempo no ar como a Solineuza, houve alguma preocupação sua pela possibilidade de ficar marcada por um papel escrachado e, talvez, ser limitada a convites para interpretar tipos parecidos?
– É difícil, o público não quer que você saia daquilo que ele gosta. Pelo público, você se mantém ali, no universo em que ele foi cativado. No meu caso, foi a Solineuza. Eu fazia essa reflexão, mas eu tinha uma atividade muito grande com o cinema. Fazendo a Solineuza, eu fiz mais de oito longas. Eu sempre estava me dividindo entre ela e coisas muito diferentes dela. Então, ficava saciada. Por exemplo, quando eu estava fazendo a Solineuza, filmei Dois filhos de Francisco. Muita gente não achava que a Solineuza era a Dona Helena. Isso me lisonjeia, fico muito feliz.
SALVE JORGE – DE SEGUNDA A SÁBADO, ÀS 21H, NA GLOBO.
