
A expectativa de vida do brasileiro chegou a 76,6 anos em 2024, sendo o maior número registrado desde 1940, quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) iniciou a série histórica. Diante desse cenário de maior longevidade, cresce também a preocupação com a saúde do cérebro e a autonomia na terceira idade. Em Juiz de Fora, o curso Pense Mais desenvolve um trabalho voltado à estimulação cognitiva de pessoas a partir dos 40 anos, com foco na prevenção do declínio mental e na melhoria da qualidade de vida.
A equipe atua há nove anos na área e oferece um curso de neuroeducação com encontros semanais. As aulas são divididas em três momentos principais: atividades de raciocínio lógico, exercícios com o soroban — uma calculadora japonesa usada para desenvolver atenção e concentração — e jogos cognitivos em grupo.
Segundo os fundadores, a proposta foi pensada a partir de uma realidade cada vez mais comum: pessoas que vivem mais tempo, mas que nem sempre possuem estímulos intelectuais e sociais suficientes no dia a dia. A ideia foi criar um espaço que unisse exercícios cognitivos e convivência. “Nós vivemos mais hoje, mas nem sempre com qualidade. O curso trabalha a autonomia, a memória, a atenção e também a socialização, que é fundamental para o cérebro”, explica Thamyres Wan de Pol, coordenadora pedagógica da Pense Mais.
Prevenção como escolha
O diretor do curso, Thiago Rocha, ressalta que, assim como a atividade física já se tornou parte da rotina de muitas pessoas, a atividade mental precisa ganhar esse espaço. “O nosso propósito aqui é desenvolver a saúde mental das pessoas e principalmente trabalhar a questão da prevenção. Nós temos uma cultura de esperar o problema acontecer. Queremos reforçar que esse trabalho deve começar antes — a prevenção é fundamental.”
Thiago explica que o curso não trabalha apenas memória, mas sim diferentes funções cognitivas de forma integrada, aliando atenção, raciocínio, foco e tomada de decisão. “O importante é ter equilíbrio”, diz. Ele compara o cérebro a uma mesa de quatro pés: “Se eu cuidar só da memória e esquecer o resto, uma hora vai tombar”.
Hoje, menos de 10% do público atendido possui algum comprometimento cognitivo diagnosticado, como demência ou Alzheimer. “Mais de 90% é um público saudável, que está aqui pra viver melhor, para ter qualidade de vida com o passar dos anos”, ressalta.
Segundo a psicopedagoga do curso, Ana Elisa Bartels, muitos procuram a instituição como forma de prevenção — especialmente aqueles que já tiveram casos de Alzheimer na família. “Tem pessoas que vêm porque passaram pela experiência com um familiar e falam: ‘Eu não quero isso pra minha vida. Quero me cuidar’.”
Esse foi o caso da aposentada Regina Vilela Vilaça Freitas, 60, que chegou à Pense Mais por recomendação do neurologista da mãe e da tia, que teve Alzheimer. “Ele indicou para a gente fazer como prevenção. Eu, minha mãe e minha tia começamos juntas. Já estou aqui há três anos e gosto muito”, conta. Segundo Regina, além dos exercícios, o ambiente faz diferença. “A gente melhora, sim, mas também cria amizade. Vira uma família.”
A aposentada Aida Mcauchar Marques, 71, também procurou o curso por iniciativa própria, depois que o marido recebeu um diagnóstico inicial de Alzheimer — posteriormente descartado. “Eu pensei: é melhor prevenir também. Se a gente não estimula, vai perdendo. Aqui ajuda muito, principalmente nos relacionamentos. Não vale a pena deixar o cérebro adormecer”, afirma.
Metodologia própria e foco individual
Desde janeiro, o curso atua com material autoral, desenvolvido pelos três fundadores. As atividades são realizadas em grupo, mas com acompanhamento individualizado. Antes de ingressar, o aluno passa por uma aula experimental individual, que permite às educadoras identificar o perfil e as necessidades específicas de cada um.
“Cada semana a gente trabalha uma habilidade diferente: memória, linguagem, atenção, foco, orientação espacial, tomada de decisão e resolução de problemas. Se a gente repete sempre a mesma atividade, o cérebro se acostuma. A ideia é tirar o cérebro do automático”, explica Ana.
Muito além da estimulação cognitiva
Além do estímulo mental, a convivência social é parte fundamental do processo. Os especialistas explicam que a socialização é vista como fator protetivo para o cérebro, e o ambiente das aulas acaba se transformando também em um espaço de encontro e amizade. “A pessoa, quando percebe um declínio, muitas vezes se isola pelo constrangimento. A gente quer o caminho contrário”, avalia Thiago.
De acordo com as educadoras, o isolamento social é um dos principais fatores de risco para demências, por isso, o convívio em grupo é parte essencial da proposta. “Eles criam vínculo, fazem amizade, viajam juntos. Tem escala de bolo para o café. Aqui é um momento que eles se sentem pertencentes”, conta Ana.
Os resultados aparecem tanto na autoestima quanto na rotina prática. “Eles relatam que esquecem menos as coisas, que conseguem guardar a senha do banco, lembrar telefone, participar mais da vida da família”, diz Thamyres.
Uma das histórias que mais as marcam é a de uma aluna de 82 anos que vive sozinha e mantém total autonomia. “Ela pega ônibus, resolve as coisas dela, não vê dificuldade em nada. Antes precisava olhar o telefone para ligar. Hoje diz que já sabe de cor”, relata Ana.
Para elas, a maior conquista é perceber que o curso se torna um espaço de pertencimento. “A nossa meta é que o dia da aula seja o melhor dia da semana deles. Que não seja só mais um curso, mas um momento para cuidar de si”, completa.
Esse sentimento de pertencimento é compartilhado pelos alunos, como conta Doralice da Silva Oliveira, 83: “Aqui a gente conversa, brinca, fala o que quer. Ficar só em casa não tem graça. Isso aqui é bom demais.” Para Teresinha Jesus Souza Botta, 74, o curso vai além. Após cuidar da mãe com Alzheimer por 11 anos, participar das aulas representou um recomeço em sua vida. “Depois que minha mãe faleceu, eu fiquei muito parada. Aqui eu me sinto viva de novo. Quando eu falto, sinto falta demais.”
