Ícone do site Tribuna de Minas

Projeto leva água potável para Escola Indígena Maxakali, no interior de Minas Gerais

Maxakali

(Foto: Arquivo pessoal)

MAXAKALI-aquivo-pessoal
<
>
(Foto: Arquivo pessoal)

A rotina dos estudantes da Escola Estadual Indígena Capitãozinho Maxakali, localizada na Reserva do Pradinho, no município de Bertópolis, Noroeste de Minas Gerais, se diferencia do dia a dia de outros alunos de instituições públicas do estado. Atividades como artesanato, pesca, jogos e brincadeiras, além de conhecimentos ancestrais são tão essenciais como as aulas de português e matemática. Há 16 anos, a escola  funciona com um modelo de educação que tem o propósito de respeitar os saberes do povo Maxakali e sua relação com o meio ambiente.

Porém, a unidade enfrenta um desafio que afeta não só a comunidade escolar, como todo o território Maxakali, que hoje tem cerca de 1200 pessoas: a ausência de tratamento de esgoto e a dificuldade de acesso à água tratada. A partir deste ano, a expectativa é que essa realidade seja transformada pelo projeto Gota D’Água, do Governo de Minas, que leva água potável para escolas mineiras. As obras já estão em andamento, com estações de tratamento em funcionamento e a espera por impacto positivo na frequência escolar e na redução de doenças. 

PUBLICIDADE

“É uma escola que oferta educação escolar indígena, com características e normas próprias, com a finalidade de valorização cultural, afirmação étnica, linguística e territorial de toda a sociedade Maxakali. Pretendemos respeitar as lógicas, os saberes e as perspectivas do povo Maxakali, sua relação com o meio ambiente, com o território, a valorização de sua cultura e sua língua”, diz o diretor da instituição, Nilson Ferreira, de 51 anos. 

A escola indígena fica no Vale do Mucuri e, além do prédio principal, conta com onze endereços anexos, com tarefas simultâneas no período da manhã e da tarde. Ao todo, 609 alunos frequentam a Capitãozinho Maxakali, todos da mesma etnia, que tem como primeira língua a Maxakali e a segunda a língua portuguesa. Essa etnia tem sua organização social composta por grupos familiares, o que implica várias lideranças em pequenos agrupamentos — e não apenas uma liderança, como ocorre em outras comunidades. “Isso impõe um desafio muito grande para a gestão: estar nesses espaços e atender todos da mesma forma”, afirma Nilson. 

Território educativo da Escola Estadual Indígena Capitãozinho Maxakali. (Foto: Arquivo pessoal)

Principalmente porque, como o diretor explica, o aprendizado não ocorre apenas em sala de aula, mas integrando os espaços e ocupando esse território. “Esse processo de ensino-aprendizagem acontece dentro de um território educativo, ou seja, se tem crianças fazendo pesca, está acontecendo o processo de ensino-aprendizagem ali”, explica. E, para lecionar na escola, também é preciso um preparo diferenciado, que envolve não só as habilidades específicas para a transmissão dos conhecimentos ancestrais, mas até a anuência da comunidade para que os professores de fora da etnia possam oferecer as disciplinas tradicionais. 

Todo esse trabalho, no entanto, é ameaçado pelos graves problemas com saneamento básico que a escola enfrenta. A instituição é uma das poucas de Minas Gerais que precisa fazer aquisição de água mineral para o consumo humano e para o preparo de merenda escolar, e, mesmo assim, não é o suficiente para impedir problemas causados pelas doenças relacionadas à água, como observa o diretor. Apesar de não ter dados técnicos, a vivência dele indica que muitas pessoas da reserva são acometidas por essas enfermidades, como a disenteria, que fazem com que a infrequência escolar seja um problema constante. Além disso, a falta de abastecimento também gera dificuldades rotineiras que atrapalham o acesso da comunidade à escola. “Se temos água de qualidade na escola, não é preciso ir até um rio buscar isso. As crianças e os adolescentes participam da vida dos pais e, muitas vezes, deixavam de ir para a escola para lavar vasilha no rio ou pegar água, por exemplo. Essa perspectiva de melhores condições sanitárias e de oferta de água de qualidade vão diminuir consideravelmente a infrequência escolar”, afirma. 

Projeto Gota D’Água impacta vida de mais de 55 mil alunos 

(Foto: Arquivo pessoal)

Desde agosto de 2023, o projeto Gota D’Água busca melhorar as condições de saneamento nas escolas de Minas, por meio de soluções sustentáveis adaptadas às necessidades específicas de cada comunidade. Nesses dois anos de atuação, a iniciativa levou água potável para mais de 55 mil estudantes, através de investimento superior a R$7,5 milhões em kits potabilizadores e obras de infraestrutura, como perfuração de poços. 

Das escolas que receberam o serviço, 213 contam com água adequada em fase de diagnóstico, 214 unidades possuem os kits potabilizadores e 262 estão em processo de instalação. A expectativa é de que em 2026 o projeto ofereça também a revisão dos sistemas de esgotamento sanitário das escolas não conectadas a redes públicas. “A meta é adotar soluções sustentáveis, conciliando eficiência, viabilidade técnica e menor impacto ambiental”, diz o Governo de Minas em nota enviada à reportagem. 

PUBLICIDADE

De acordo com a Secretaria de Estado de Educação (SEE/MG), a maior parte das unidades com sistemas individualizados, como fossas sépticas, estão em áreas rurais, aldeias indígenas ou comunidades quilombolas, onde não há rede pública de esgoto. “Nesses casos, as fossas são construídas quando necessário, mas a ausência de serviço local de sucção pode levar à saturação do sistema”, explica a pasta. Além desse problema, as escolas rurais também enfrentam dificuldades para contratar empresas de manutenção e, em territórios indígenas, novas instalações dependem de autorização das lideranças locais. 

(Foto: Arquivo pessoal)

No caso da Reserva de Pradinho, a notícia foi recebida com entusiasmo e esperança. “A comunidade está muito ansiosa para ver o projeto funcionar na prática. Nós temos situações de agrupamentos que ficam sem água durante uma semana, por exemplo.” O diretor afirma, no entanto, que o acesso à água não é um problema na reserva, que é atravessada pelo Rio Umburanas, a questão é o acesso à água de qualidade. “A nossa água aqui hoje, dos poços artesianos, é altamente rica em minério de ferro, imprópria para o consumo humano.” Segundo Nilson, esse tratamento de água pelo projeto do Estado deve beneficiar 100% da comunidade Maxakali, já que a pretensão é de fornecer o serviço em todas as localidades abrangidas pela escola. “É uma perspectiva e ansiedade de melhoria de vida, com uma redução considerável das doenças causadas em relação ao consumo de água de má qualidade.” 

Próximos desafios 

Apesar do avanço com a chegada da água potável, a Escola Indígena Maxakali ainda enfrenta o desafio de infraestrutura sanitária adequada. O diretor da unidade destaca que a melhoria da rede física, incluindo a construção de banheiros nas cabanas onde são ministradas as aulas, é uma prioridade. “Não adianta a gente melhorar a vida ofertando água de qualidade se a gente peca em outros aspectos”, pontua. A discussão sobre a construção de sanitários é levada à Secretaria de Estado da Educação, assim como a necessidade de lidar melhor com o lixo. A escola planeja produzir material didático para promover a educação sobre o uso adequado dos sanitários e a importância da higiene. O objetivo é um enfrentamento contínuo para aprimorar as condições sanitárias em toda a Reserva Indígena do Pradinho, garantindo um ambiente escolar completo e digno. 

PUBLICIDADE
Sair da versão mobile