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Entenda as causas das chuvas intensas e os impactos da ocupação urbana em Juiz de Fora

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Acúmulo de lixo no córrego no Linhares (Foto: Leonardo Costa)

As fortes chuvas registradas em Juiz de Fora na última segunda-feira (15) acenderam o alerta para os riscos associados ao período chuvoso e às características urbanas da cidade. Especialistas apontam que a combinação entre condições climáticas favoráveis a precipitações intensas e a forma como o espaço urbano é ocupado contribui diretamente para os transtornos registrados, principalmente na Zona Leste da cidade, como alagamentos, deslizamentos e danos à infraestrutura. 

Para os especialistas, episódios como o registrado recentemente tendem a se repetir com maior frequência, exigindo planejamento urbano e ações integradas. Obras de macrodrenagem, fiscalização do uso e ocupação do solo, respeito à legislação ambiental e maior conscientização da população sobre o descarte correto de resíduos são apontados como medidas fundamentais para reduzir os impactos das chuvas intensas e evitar novos transtornos na cidade. 

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Relevo acidentado, construções irregulares e falhas no sistema de drenagem

Cratera no Bairro Jardim do Sol (Foto: Leonardo Costa)

O geógrafo e conselheiro do Conselho Municipal de Meio Ambiente de Juiz de Fora (Comdema) Matheus Cremonese reforça essa avaliação ao destacar que, em poucas horas, Juiz de Fora registrou volume de chuva próximo a 100 milímetros, o equivalente a cerca de 100 litros de água por metro quadrado, ou uma camada de cerca de 10 centímetros de altura sobre o solo. “Quando a gente traduz esse número para algo visual, fica mais fácil entender a dimensão da quantidade de água que caiu em um intervalo de tempo muito curto”, explica. 

Segundo ele, a Zona Leste foi uma das mais afetadas por reunir características de relevo acidentado, com vales encaixados dos córregos do Yung e Matirumbide e declividades acentuadas, que favorecem o rápido deslocamento da água pelas ruas, transformadas em verdadeiros canais de escoamento durante os temporais. “O que acontece em Juiz de Fora é uma somatória de fatores”, diz o geógrafo citando questões como descarte incorreto de lixo, que resulta no entupimento das bocas de lobo, galerias com construções antigas e assoreadas e calhas inadequadas dos córregos que não dão conta da vazão. 

“Foi um fenômeno atípico, mas não é tão distante do último que registramos dessa envergadura, que foi no ano de 2018. Então, esse tipo de ocorrência tende a ficar mais frequente, o que é um problema. É um arranjo que a população, com construções regulares e descarte de lixo correto, a Prefeitura, na fiscalização e no rigor com processos de licenciamento ambiental, todos de forma geral precisam ficar atentos para minimizar esses problemas.”  

Cremonese chama atenção para a ocupação irregular de áreas próximas a córregos, muitos deles canalizados ou confinados entre construções, com áreas de preservação permanente praticamente inexistentes. Ele aponta ainda que galerias antigas, assoreadas, e a falta de manutenção de bocas de lobo reduzem a capacidade do sistema de drenagem, fazendo com que a água se acumule na superfície. “Esses córregos perderam suas calhas naturais e as áreas que deveriam absorver parte da água da chuva. Quando o volume é muito intenso e concentrado, o sistema não consegue dar vazão, e os alagamentos se tornam inevitáveis”, afirma. 

Cenário deve persistir nos próximos dias, aponta climatologista

Moradores contabilizam perda de objetos pessoais e móveis no Bairro Vitorino Braga (Foto: Leonardo Costa)

De acordo com a climatologista Cássia Ferreira, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), as chuvas intensas são típicas desta época do ano e estão relacionadas, principalmente, ao aumento das temperaturas e à grande quantidade de umidade presente tanto na superfície quanto na atmosfera. Esses fatores favorecem a formação de nuvens mais extensas e carregadas, resultando em precipitações fortes e concentradas em curto período de tempo. Ela explica ainda que alertas emitidos pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) indicam que a região está sob influência de uma zona de instabilidade, com grande transporte de umidade do oceano, associado ao calor intenso. 

No entanto, Cássia ressalta que, além das condições atmosféricas, fatores urbanos agravam os impactos das chuvas. A climatologista apontou que o grande volume de chuva também está relacionado à ocupação urbana da cidade, com alta impermeabilização do solo e escassez de áreas verdes. Isso faz com que a água da chuva escoe rapidamente para os córregos e rios, provocando transbordamentos e os transtornos observados. A topografia da cidade, com seus fundos de vales e morros ocupados, também contribui para esse escoamento rápido, com a água descendo rapidamente para os cursos d’água e gerando inundações, como ocorreu nos bairros atingidos e até no Centro da cidade, que está localizado no fundo do vale do Rio Paraibuna. 

Histórico de enchentes mostra vulnerabilidade de Juiz de Fora

O ambientalista e conselheiro do Comitê da Bacia Hidrográfica dos Afluentes Mineiros dos Rios Preto e Paraibuna, Wilson Acácio, acompanha a realidade de Juiz de Fora há décadas e afirma que a cidade convive historicamente com grandes enchentes, lembrando episódios marcantes como o de 1940, o maior já registrado na cidade. Segundo ele, choveu de forma contínua por três dias, entre 23 e 26 de dezembro, deixando o Centro alagado durante o Natal. “Na Rua Marechal Deodoro, a água chegou a cerca de dois metros e meio de altura, atingindo casas e comércios”, recordou. Acácio ressaltou ainda que, ao longo das últimas décadas, novos eventos expressivos foram registrados, como em 2011, 2020 e 2022, e afirmou que a chuva mais recente também deve entrar para a história, ao acumular cerca de 112 milímetros em apenas duas horas. 

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Apesar dos prejuízos materiais e das casas invadidas pela água, o ambientalista ressaltou que não houve vítimas fatais, o que considerou um dado significativo diante da intensidade do evento dessa segunda. Ele, no entanto, criticou a falta de avanços na execução do plano de drenagem do município. Segundo Acácio, embora existam projetos para diferentes regiões da cidade, muitos permanecem no papel por falta de recursos. Para ele, é fundamental que a Prefeitura busque financiamento junto aos Governos estadual e federal, além de organismos internacionais, para viabilizar obras estruturantes de drenagem. 

Mergulhão ficou mais de 12h interditado na segunda-feira (Foto: Leonardo Costa)

Acácio também chamou atenção para problemas recorrentes, como o assoreamento das galerias e o descarte inadequado de lixo, que acabam sendo levados para os córregos e para o rio Paraibuna. Outro ponto de preocupação é o grande número de pessoas vivendo em áreas de risco. “Mais de 130 mil moradores estão sujeitos a enchentes ou deslizamentos, o que coloca Juiz de Fora entre as cidades mineiras e brasileiras com maior vulnerabilidade, segundo dados do Cemaden.” Para o ambientalista, a topografia da cidade, aliada à ocupação desordenada ao longo de décadas, agrava o cenário. 

Por fim, o ambientalista defendeu a necessidade de ampliar o debate sobre mudanças climáticas no município, com ações de conscientização e participação da sociedade, universidades, órgãos públicos e entidades civis. Ele lembrou que Juiz de Fora possui uma lei municipal (Lei 14.556) específica sobre o tema, mas que ainda carece de efetiva implementação. “Juiz de Fora teve na segunda a simbologia do que a mudança climática é capaz de fazer para a população”, concluiu. 

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