
O temporal registrado em 15 de dezembro, quando mais de 100 milímetros de chuva caíram em pouco mais de uma hora, foi um dos episódios que marcaram o debate ambiental em Juiz de Fora em 2025. Somado a períodos de estiagem e à pressão sobre mananciais e áreas urbanas, o evento reacendeu discussões sobre a capacidade do município de se adaptar aos efeitos das mudanças climáticas. Às vésperas de 2026, a Tribuna ouviu ambientalistas e a Prefeitura de Juiz de Fora (PJF) para fazer um balanço das ações desenvolvidas ao longo do último ano e das perspectivas para o próximo. Pesquisadores e representantes de conselhos municipais apontam avanços no planejamento ambiental em 2025, mas avaliam que ainda é necessário acelerar a implementação de políticas públicas em áreas consideradas estratégicas, como saneamento, arborização urbana, mobilidade e proteção dos cursos d’água.
Para os ambientalistas, a cidade caminhou na construção de planos, como o Plano Municipal da Mata Atlântica (PMMA), mas a distância entre o planejamento e a execução ainda é um grande desafio. Em um contexto global de emergência climática — reforçado pelo protagonismo do Brasil nas discussões da COP 30 —, os especialistas reforçam que os impactos já são sentidos no cotidiano juiz-forano. A alternância entre estiagens severas e chuvas concentradas voltou a colocar em evidência a vulnerabilidade da cidade, construída majoritariamente em áreas de encosta e às margens de cursos d’água.
De acordo com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), empresa vinculada ao Ministério de Minas e Energia, Juiz de Fora é a terceira cidade de Minas Gerais com mais áreas de risco geológico. Entre mais de 1.600 municípios do Brasil, a cidade está em 15° lugar, com 142 áreas de risco geológico, como possibilidades de deslizamentos de terra, 27 áreas de risco hidrológico, referentes a inundações, e com 50.336 pessoas vivendo nessas zonas de risco na cidade. Os dados são de 2024 e chamam atenção para a necessidade de buscar soluções que minimizem os impactos dessa realidade.
Eventos extremos e segurança hídrica
Para o geógrafo Matheus Cremonese, integrante do Conselho Municipal de Meio Ambiente (Comdema) e da ONG Programa de Educação Ambiental (Prea), os efeitos das mudanças climáticas ficaram evidentes em Juiz de Fora ao longo de 2025. “Sentimos os efeitos da crise climática tanto na estiagem, com a represa João Penido operando abaixo da média, quanto no período chuvoso, com episódios de precipitação extrema”, avalia. Ele cita o temporal de 15 de dezembro, que provocou danos materiais e afetou mais de 5 mil pessoas, destacando a necessidade de planos técnicos capazes de reduzir impactos e proteger a população.
Entre os avanços, Cremonese destaca a aprovação do Plano Municipal de Conservação e Recuperação da Mata Atlântica, ocorrida em março. Segundo ele, o instrumento amplia o debate sobre preservação ambiental, uso e ocupação do solo e crise climática, dialogando diretamente com questões socioeconômicas e com o próprio Plano Diretor do município.
Arborização urbana e justiça climática
A arborização urbana aparece como um dos temas centrais nas avaliações dos especialistas. A jornalista e doutoranda em Biodiversidade e Conservação da Natureza pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Valéria Borges Costemalle, ressalta que 2025 também trouxe sinais positivos no cenário federal, como o lançamento do Plano Nacional de Arborização Urbana, baseado na regra internacional 3+30+300 — três árvores por rua, 30% de área verde por bairro e acesso a praças ou parques em até 300 metros.
Para Valéria, que também é especialista em Governança das Florestas Urbanas, árvores devem ser tratadas como infraestrutura básica. “Árvores em áreas urbanas ajudam a regular o clima local, reduzindo ilhas de calor, melhorando a qualidade do ar ao absorver poluentes e dióxido de carbono, diminuindo a incidência de doenças respiratórias e gerenciam o escoamento de águas pluviais para prevenir inundações e deslizamentos, além de serem uma ferramenta importante na justiça climática promovendo a inclusão e o acesso equitativo às áreas verdes”, afirma.
Ela alerta, porém, que Juiz de Fora ainda convive com bairros inteiros sem árvores, principalmente em áreas mais periféricas e vulneráveis, como o Caiçaras, na Cidade Alta, cenário que precisa ser enfrentado com urgência. Valéria afirma:
Esse é um problema antigo, mas deve ser enfrentado com urgência. Estamos numa era de emergência climática, eventos como fortes ondas de calor , que matam idosos e animais, prejudicam a saúde dos bebês e chuvas intensas em pequeno período de tempo, deixando famílias desabrigadas, vão ocorrer cada vez mais, é o que mostram os estudos dos cientistas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas).
A pesquisadora diz que, embora a Prefeitura tenha lançado um plano participativo de arborização urbana e apresentado um projeto para a Avenida Getúlio Vargas, é preciso ter uma visão mais ampla, com a criação de corredores ecológicos, uso de espécies nativas e integração da arborização ao planejamento urbano e às políticas de licenciamento.
Resíduos sólidos, governança e críticas à execução
O ambientalista Wilson Acácio, conselheiro do Comitê das Bacias Hidrográficas dos Rios Preto e Paraibuna, cita o reconhecimento internacional recebido pelo município em 2025, com o Local Leaders Awards, na categoria “Transição Energética e Construções Inteligentes” pelas iniciativas ambientais como o programa de iluminação LED e o Programa Lixo Zero. Apesar de dar importância a tais projetos, Acácio pondera que os dados da gestão de resíduos sólidos ainda são alarmantes.
“Hoje, apenas cerca de 1% dos resíduos produzidos em Juiz de Fora são separados corretamente, o que equivale a pouco mais de 5 toneladas/por dia. Isso significa que 99% do lixo vai para o aterro sanitário”, critica. Para ele, programas como o Lixo Zero só terão efetividade se acompanhados de educação ambiental, fiscalização e engajamento da população. “O Programa Lixo Zero é importante, mas temos uma preocupação de que ele se constitua em mais uma lei que não será cumprida.”
Acácio também aponta fragilidades na governança ambiental, como a ausência do retorno das ações deliberadas na Conferência Municipal de Meio Ambiente, a qual foi um acordo firmado durante o evento, e a falta de articulação entre secretarias municipais para implementar a Lei Federal nº 14.926/2024, que assegura atenção às mudanças do clima, à proteção da biodiversidade e aos riscos e vulnerabilidades a desastres socioambientais no âmbito da Política Nacional de Educação Ambiental. “O prazo estipulado para a implementação da lei foi de 120 dias, a partir de 18 de julho de 2024. Até o presente momento não temos notícia da implementação desta lei em Juiz de Fora.”
Paraibuna e saneamento seguem como desafios históricos
A situação do Rio Paraibuna permanece como uma das principais urgências apontadas pelos ambientalistas. O lançamento de grande parte do esgoto sem tratamento, a falta de desassoreamento e a degradação das margens são problemas recorrentes. Além da despoluição, os especialistas defendem a requalificação da área, com melhor manutenção, paisagismo e a implantação da ciclovia ao longo do rio.
Para Cremonese, o avanço no tratamento de efluentes é uma demanda permanente. Ele ressalta que a melhoria da qualidade das águas do Paraibuna depende não apenas da ampliação do tratamento de esgoto, mas também da coleta de efluentes nos córregos que cortam a cidade, hoje majoritariamente receptores de despejos sem tratamento e sem rede coletora. “É preciso ampliar ao máximo a coleta de efluentes nos tributários do Paraibuna”, afirma.
Cremonese também aponta a necessidade de execução das obras de macrodrenagem, com efeitos mitigadores efetivos durante episódios de chuvas intensas, como forma de reduzir prejuízos materiais e garantir maior segurança à população historicamente afetada por alagamentos. “Investir na Educação Ambiental é fundamental para enfrentarmos os desafios contemporâneos e nos prepararmos bem para o futuro.”
A requalificação das margens do Paraibuna inclui ainda a discussão sobre mobilidade urbana. Segundo lembra o ambientalista Wilson Acácio, a implantação da ciclovia ao longo do rio é uma reivindicação antiga e voltou ao debate após a Câmara Municipal aprovar, em maio de 2025, o pedido da Prefeitura para um empréstimo de R$ 660 milhões junto ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), dos quais R$ 150 milhões estão previstos para ações de paisagismo e construção da ciclovia.
Por fim, Valéria chama atenção para o fato de 2026 ser um ano eleitoral, o que, segundo ela, pode influenciar as prioridades do poder público e de setores econômicos da cidade. Para Valéria, será determinante observar se os esforços estarão concentrados nas disputas políticas ou no avanço de projetos ambientais considerados urgentes, especialmente após os impactos das chuvas registradas no início de dezembro.
Ela também destaca que os efeitos das mudanças climáticas atingem toda a população e defende a ampliação de iniciativas baseadas na natureza, como hortas e pomares urbanos, jardins de ervas medicinais e sistemas agroflorestais. Segundo a pesquisadora, experiências adotadas em outras cidades brasileiras mostram que essas ações contribuem para a melhoria da qualidade de vida e para a redução das desigualdades sociais, e poderiam ser incorporadas à realidade de Juiz de Fora.
Prefeitura aposta em adaptação climática e captação de recursos
Em nota, a Prefeitura de Juiz de Fora afirma que entra em 2026 com uma agenda ambiental estruturada, alinhada ao programa federal Adapta Cidades, e com foco na gestão integrada e na adaptação às mudanças climáticas. Entre as ações previstas estão a elaboração do Plano Local de Adaptação Climática, a conclusão do Plano Municipal de Arborização Urbana, o avanço nos planos de manejo das unidades de conservação, a ampliação do programa Nossa Água, a continuidade dos projetos do GT Novas Energias, com destaque para a usina de biometano, e o fortalecimento do monitoramento ambiental em parceria com a Defesa Civil.
Cidades como Juiz de Fora, que cresceram às margens de cursos d’água e em áreas de encosta, precisam estar preparadas para eventos extremos e, ao mesmo tempo, avançar em soluções estruturantes de longo prazo. Essa lógica já orienta os principais projetos urbanos em desenvolvimento no município, com foco em resiliência e regeneração urbana.
O Executivo destaca ainda a atuação transversal da política ambiental aliada ao planejamento urbano, o uso do Fundo Municipal de Meio Ambiente — alimentado por taxas de licenciamento e multas ambientais e destinado a Unidades de Conservação e outras atividades ambientais — e a intenção de disputar recursos nacionais e internacionais, como os do Fundo Clima, que reúne cerca de R$ 40 bilhões para projetos de mitigação e adaptação. “Com reconhecimento internacional pelo Local Leaders Award em 2025, a atuação integrada, o fortalecimento da agenda climática, Juiz de Fora entra em 2026 preparada para disputar recursos em um cenário competitivo”, afirma a Administração Municipal.

