
Ela tinha gula por bolachas em dias de visitas, e, por não haver quem a visitasse, ficava atrás dos alimentos que suas companheiras de presídio recebiam. E foi isso que garantiu o apelido de Biscoito. Já foi presa por furtos, drogas e nudez. Sua condição na penitenciária era curiosa. Quando seu tempo de permanência no cárcere acabava, instalava-se do lado de fora do presídio. Queria sempre estar por perto para, a qualquer momento, voltar. Em uma das vezes que de lá saiu, decidiu que era melhor retornar. Esperou um bonde de presas chegar, lançou uma pedra, que acertou em cheio o vidro da viatura, e garantiu a volta para a cela. Andarilha e usuária de crack, Biscoito foi dormir no chão frio da cela. “Aqui me sinto segura”, afirmou.
Eva Laura, por sua vez, é a típica mulher zica, a presa abusada e encrenqueira. Dizem que é tinhosa e que sobre ela pesam vários artigos. Metida no isolamento, envolveu-se em uma confusão com outras seis zicas. Recusava-se a vestir laranja, a cor usada dentro da cadeia. “A senhora sabe o que significa uniforme? Não. Não sabe. Olhe no dicionário”, disparou ela, desafiadora, em resposta à psicóloga da penitenciária. Já Menina parece uma criança. Seus pés não alcançam o chão. É zarolha, tem corpo miúdo, rosto pequeno e orelhas caídas. Fala muito. Conta-se que sua voz é feliz. Tem duas filhas, uma de seis anos, que “vive com alguém em algum lugar”, e a outra, pequenina, que só engatinha. Menina é usuária de crack e diz que ela e a caçula têm um bichinho na cabeça que as faz ficarem debiloides. Provisória na cadeia, sente muitas dores. Tem sífilis, seu corpo está repleto de verrugas, e preocupa-se com a possibilidade de ser soropositivo como a mãe.
Conheci Biscoito, Eva Laura e Menina por meio da escrita de Debora Diniz, antropóloga, professora da Universidade de Brasília e autora de obras sobre aborto, prisão e saúde mental. Ao longo de seis meses, no ano de 2014, ela ocupou um banquinho no Núcleo de Saúde da Penitenciária Feminina do Distrito Federal e ali ficou apenas escutando e anotando palavras alheias, direcionadas às médicas, psicólogas e assistentes sociais. Nada perguntava às presidiárias. Queria fugir dos métodos de pesquisa nos formatos tradicionais, aqueles que usam questionário, prancheta, cadernos de campo e entrevistas. O rigor da ciência estava presente na observação, mas seu texto é envolvente, mais próximo da arte literária.
Outras tantas histórias como a dessas três encarceradas, narradas no formato de contos etnográficos, ganharam as páginas do livro “Cadeia: relatos sobre mulheres” (Civilização Brasileira, 240 páginas), que agora, após 11 anos da primeira publicação, ganha edição revista e ampliada, com prefácio inédito escrito pela autora. O livro nos ajuda a entender como é o cotidiano dentro de um presídio feminino e a conhecer o íntimo das mulheres que lá vivem. “Mulheres muito jovens, mulheres negras, pretas e pardas. São mulheres com histórias de abandono, de violência”, afirma Debora.
Marisa Loures: Seu livro permite construir um retrato da população carcerária feminina no Brasil. Quem são essas mulheres?
Debora Diniz: Essas são mulheres comuns, mas comuns dentro de um conjunto de marcadores de desigualdade da vida que as fazem comuns e muito parecidas entre si, mas diferentes de outras mulheres que jamais vão passar por essa porta. Elas são mulheres muito jovens, mulheres negras, pretas e pardas. São mulheres com histórias de abandono, de violência, que passaram por unidades socioeducativas na adolescência. Uma em cada quatro mulheres em regime fechado, ao menos no presídio da capital, passaram por essas unidades. O importante é que esses marcadores da desigualdade falam muito mais sobre quem corre o risco de o Estado Penal colocar a mão do que sobre elas, ou seja, sobre um desamparo prévio da vida. Então, mulheres muito jovens, marcadas por desigualdades de renda, de raça, de violência e que passaram por instituições de controle e vigilância do Estado ainda na adolescência, mas essas instituições falharam. Falhou o Conselho Tutelar, falharam as unidades socioeducativas. Então, as trajetórias que levam ao cárcere, a mais comum, que está no livro e está em várias pesquisas do país, é a economia do tráfico da droga. Quando a gente fala do tráfico de drogas, a gente não está falando das grandes traficantes, essas de notícia de jornal. É um desgoverno econômico cotidiano da vida. É uma pedra, é um saquinho de maconha, mas que tem uma economia da subsistência em torno da droga. E elas também são mulheres jovens que muito cedo saíram da escola. Como eu disse, o Conselho Tutelar não foi atrás, a escola não recuperou, e aqui quero deixar claro que não estou colocando o dedo em nenhuma instituição em particular. Mas uma menina adolescente muito jovem foi abandonada pelos poderes que poderiam resgatá-la.
Você diz que estava cansada dos métodos de pesquisa nos formatos tradicionais (questionário, prancheta, cadernos de campo e entrevistas). Por isso, optou por iniciar um experimento antropológico. Sentou-se no núcleo de saúde da instituição e passou a ouvir conversas e anotá-las. O que essa mudança metodológica trouxe de novo para o seu trabalho?
Na verdade, eu estava quase que saturada, porque elas estavam me levando para o mesmo campo: o projeto, o questionário. Eu optei por fazer isto que eu chamo, no livro, de experimento. Eu me sentei no Núcleo de Saúde e passei a ouvir as conversas e essa mudança metodológica era uma tentativa. O presídio é um lugar em que os poderes judiciário, policial, poder da vigilância e da administração, fazem com que a mulher tenha que responder perguntas. A presa está ali para se confessar, para responder perguntas o tempo inteiro. E, como pesquisadora, nós também fazemos uso do poder para fazer com que as pessoas respondam perguntas. Então, a minha ideia era tentar estar num lugar em que elas estavam indo porque precisavam falar, porque tinham uma dor, porque tinham um sofrimento, porque tinham necessidades, porque precisavam conversar com alguém, porque precisavam sair de cela, porque tinham uma dívida. Então, eram elas que precisavam pautar o que iria ser dito. Eu não queria ser mais uma a fazer perguntas, porque, embora a minha presença não fosse neutra, minha presença se marcasse ali, é ela que começava dizendo: “eu vim aqui porque tenho dor de cabeça, porque tenho dívida, porque tenho uma necessidade.” Então, ali era estar num lugar em que eu poderia ouvir mais do que perguntar e, também, que eu poderia tentar fazer isso, que era estar ali, parada, escutando a vida sendo vivida e sem uma interferência tão direta como a das perguntas.
O Núcleo de Saúde como espaço de escuta revela muito sobre o corpo feminino encarcerado. O que mais te chamou atenção nesse lugar específico como campo de observação?
É que presídio, no Núcleo de Saúde, são as dores do mundo. São as dores do isolamento, as dores da solidão, as dores de uma abstinência da droga, as dores de um pós-parto, a dor de um afastamento de uma criança, de um leite secando, as dores mais mundanas de uma dor de cabeça, de uma dor de dente, até coisas de espaços de superlotação, como doenças infectocontagiosas ou piolho. Mas era também contada desde esse lugar, dos meus filhos que estão fora, das pessoas que são dependentes de mim, ou seja, o atravessamento da vida vivida das mulheres, sobre quem elas são na vida social e na vida social mais comum, e não só no crime, mas na vida vivida, que é ter filhos, que é cuidar, que é registrar as crianças, que é brigar por uma pensão.
Você diz no livro que não queria ouvir segredos além daqueles compartilhados com os seguranças do presídio, por isso nada foi dito a você em particular. Você se coloca como uma “anotadora de palavras alheias”. Por que preferiu esse caminho?
As histórias, quando circulam nos presídios, podem conter segredos, você pode estar observando coisas que são contra as normas do presídio, e são as coisas mais variadas, como você viu no livro. Vai desde uma depilação a regras sobre como falar, sobre como se vestir, sobre a cor que vestir, e eu não queria ser alguém que ia trazer problemas, interrupções, disciplina para a vida de uma mulher presa, que já é repleta de restrição. Então, ali, eu queria contar histórias, e a minha tentativa era contar essa vida vivida que resiste, porque buscar cuidado no adoecimento é a vida sendo lutada para sobreviver, é sobre a resistência. É não adoecer, é não enlouquecer, é não sofrer. É se salvar, até mesmo aquelas que estavam na busca de medicamentos para vender, para se salvar. Então, ali é um espaço em que as mulheres estão tentando se salvar. E eu não queria, seja com as perguntas, seja com ouvir histórias das quais não teriam outras testemunhas, colocar essas mulheres em outro risco.
Como as presas reagiram ao livro? Você conta que, quando retornou ao presídio anos depois, o seu livro já havia circulado entre as presas e que algumas páginas estavam arrancadas. Que leitura você faz desse gesto?
Ele foi um livro que circulou muito no presídio. Depois, quando eu chego na unidade socioeducativa, os adolescentes também liam. Circulou muito também entre trabalhadores do presídio e pessoas que vão estudar. E é muito interessante essa reação, porque ele é lido mais como uma peça de literatura, uma peça sobre contos, do que aquela sociologia árdua sobre aqui é uma instituição total, aqui tem uma torre. Tudo isso está dentro do livro, permeando as suas lentes, mas a forma de escrever permitiu que muitas delas lessem. Então, foram feitas rodas de conversa, ele foi lido em voz alta, houve momentos em que se representou peças com alguns daqueles contos.
Você quis fugir do texto científico, optando pelo conto etnográfico, com histórias breves. Por que essa escolha formal foi importante para dar conta da experiência que você viveu no cárcere?
Primeiro, porque aquela vida vivida ali era um instantâneo de vida. Era aquele relâmpago de sobrevivência contado para quem tinha o poder de cuidar, de resolver aquele problema. E eu queria histórias que pudessem ser lidas por uma audiência muito grande, como as próprias mulheres, os trabalhadores, as profissionais de saúde. Então, que circulassem, que circulassem sozinhas, que a pessoa não precisasse ler um livro inteiro. Ela poderia ler uma das histórias, poderia pular, não teria uma sequência. Muito embora o livro tenha a sua sequência de um crescente da chegada até aquela que nunca consegue ir, a morte no meio, o desespero logo na chegada. Mas ela pode ter a ordem também de quem lê, de quem fratura aquela leitura, que é a vida vivida num presídio. Toda hora está chegando alguém no bonde, está alguém sobrevivendo, está alguém sucumbindo a não resistir. E aí, sobre isso de fugir a essa escrita tradicional, que é mais do que fugir de um texto científico, eu me ative aos métodos, eu me ative àquilo que pode ser contestado, talvez como nenhuma das outras das minhas obras, porque, ali, tudo o que eu conto tinha várias pessoas me testemunhando, era como se as pessoas estivessem olhando os mesmos arquivos com os quais eu trabalhei. Eu tenho pessoas que ouviram as mesmas histórias que eu e poderiam dizer “essa história não é verdadeira, ou foi assim, não foi assim.” Então, mais do que nenhum outro estudo, eu tive uma auditoria permanente. Foi uma ciência auditada no seu tempo de realização. Mas era na escrita que eu quis fazer uma possibilidade de escrever para uma audiência maior.
Seu trabalho na penitenciária foi realizado há cerca de dez anos. Agora, o livro ganha uma edição revista e ampliada. De lá para cá, que notícias você tem das mulheres que estão no seu livro?
O que a gente vê, inclusive por notícias, por pesquisas, é que o sistema prisional brasileiro não se altera muito desde aquela época. A pesquisa que eu fiz depois daí foi ir para as unidades socioeducativas de internação. Então, eu tenho contato com egressas do sistema penitenciário, com egressas do sistema socioeducativo. Duas delas trabalham comigo hoje como assistente de pesquisa e com outros elementos da pesquisa que realizo. Então, acompanho, não todas, mas algumas delas, especialmente aquelas que eu conheci na unidade socioeducativa e que foram para o presídio.
“Cadeia: relatos sobre mulheres” também apresenta dados e padrões que ajudam a pensar políticas públicas. Na sua avaliação, quais seriam hoje as medidas mais urgentes para enfrentar a realidade das mulheres encarceradas no Brasil?
Pensar a adequação da prisão para este crime, que é o da circulação do mercado de drogas. É isso, a adequação da prisão. A prisão é uma máquina do abandono e é uma máquina de se criar pessoas ainda mais alfabetizadas no crime. Depois é pensar toda a tipificação da lei antidrogas. Mas, se nós quisermos ir para um miudinho, que toca as mulheres e no seu pico etário que estão ali, que são mulheres muito jovens, toda uma política sobre maternidade precisa ser seriamente pensada. E eu não digo isso por uma essencialização das mulheres, mas pelos ciclos de abandono que vão se criando quando se prende uma mulher muito jovem, afasta essa mulher da sua criança, não se permite alternativas como a prisão domiciliar. Nós estamos criando ciclos intergeracionais de abandono.
Por falar nisso, a maternidade aparece de forma recorrente nos relatos, assim como o abandono afetivo e institucional. Como o cárcere feminino lida com a condição de mãe dessas mulheres?
O presídio é uma instituição que não é pensada nem para o humano, mas, quando se localiza na vida vivida, é ainda dos homens. Então, ele não é pensado para a vida das mulheres em que sentido? Nas suas relações de dependência e cuidado. Então, você tem uma daquelas histórias em que se passa ao largo quem é que vai cuidar das dezenas de crianças, netos que ficaram fora. Das mulheres que vão se separar das suas crianças, que vão mudar de ala, que têm que secar o leite. São os momentos mais assustadores da vida do presídio: a separação de uma criança e os momentos em que há suicídio e morte, porque o presídio é um lugar muito ruim, mas é um lugar em que se resiste por viver.
Ao se colocar como ouvinte, como você construiu uma escuta que não julgasse, mas acolhesse, especialmente em um ambiente atravessado por estigmas como o cárcere?
Eu acho que não julgar é difícil, porque há sempre o gesto de escrever e de tomar um partido sobre o mundo. Eu talvez quisesse, nessa escrita que toma um partido sobre o mundo, operar como uma testemunha que tem responsabilidades, uma testemunha que se aproxima daquela dor e que aprendeu com aquela escuta. Se eu fui responsável nesse processo, se eu fui capaz de fazer isso que você me pergunta, são as minhas leitoras, como você, que fez uma leitura superatenta, e eu te agradeço muito, que vão me dizer. Mas era esse o meu objetivo: aprender o testemunho que acolhe, que é responsável pelo que escuta.
