
Preservar. Essa foi a palavra que guiou cada decisão deste projeto residencial. Preservar as árvores existentes no terreno, preservar o contato com a natureza, preservar a experiência sensível de habitar. A partir dessa premissa, a arquitetura abandona o traçado ortogonal rígido e passa a contornar a vegetação, permitindo que a implantação aconteça de forma contínua, quase orgânica, como se a casa sempre tivesse pertencido àquele lugar.
Sutileza
A fachada é um exercício de sutileza e mistério. Dois blocos cegos, levemente rotacionados, e uma cobertura aparentemente descolada não revelam o interior de imediato. Ao contrário: a angulação desses volumes conduz o olhar e o corpo, induzindo o visitante a entrar. Não se trata de ostentação, mas de convite. A casa não se mostra — ela se descobre.
Espaço
Ao cruzar o limite entre fora e dentro, não há um hall tradicional. O primeiro espaço é a varanda: um grande ambiente integrador, que funciona como abrigo, transição e recepção. Um espaço entre — entre a garagem, as salas e o jardim. Aqui, a primeira vista nunca é definitiva. A paisagem muda com as estações, com a queda das folhas, com a colheita dos frutos. A casa, assim, nunca é a mesma. E o morador também não.
Morar
Essa varanda é o verdadeiro coração do projeto. Mais do que entrada, ela conecta todas as partes da casa — áreas sociais, de serviço e íntimas — criando uma continuidade espacial em que o verde atravessa os limites e invade o interior. Aos poucos, perde-se a noção exata de onde termina o dentro e começa o fora. O morar se torna fluido.
Implantação
A implantação respeita o desnível natural do terreno e se organiza em três níveis. O primeiro, de chegada, abriga garagem e varanda. O segundo, 54 centímetros abaixo, concentra salas, cozinha e área de serviço, reforçando a integração dos espaços de convivência. Já a área íntima, posicionada em um terceiro nível, cria um afastamento estratégico das áreas sociais, garantindo privacidade e permitindo que os quartos se abram diretamente para o jardim.
Áreas
Os sistemas construtivos acompanham essa lógica funcional. Concreto armado nas áreas sociais, garantindo estrutura e liberdade de vãos; cobertura metálica, responsável por vencer os 14 metros da varanda e unificar os espaços; e alvenaria estrutural na área íntima, mais contida, sustentando uma laje plana de concreto. Cada escolha é técnica, mas também poética.
Design
Internamente, a arquitetura convida ao encontro. Degraus, arquibancadas e desníveis deixam de ser apenas circulação e passam a ser lugares de estar. A casa estimula a convivência, o uso compartilhado, o olhar constante para o jardim. Mesmo sem janelas voltadas para a rua, ela não se fecha — apenas se preserva. Guarda sua essência para quem entra, para quem habita, para quem entende que luxo, hoje, é viver em harmonia com o tempo, o espaço e a natureza.
Ficha técnica
. Projeto: André Coronha (arquiteto, paisagista e fotógrafo de arquitetura na ARQLIQ arquitetura)
. Fotos: Bruno Meneghitti (arquiteto e fotógrafo – in Memorian)
Giro do Design
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