Na nossa convivência social diária existe uma realidade muito presente entre nós, que é a de que o envelhecimento é sinônimo de recolhimento. Como se, ao longo dos anos, o espaço urbano – a cidade – deixasse de nos pertencer, por conta da passagem do tempo em nós. E no futuro, bem próximo, seremos empurrados para o silêncio do quarto da nossa casa; para a janela da sala; estaremos localizados longe dos barulhos urbanos que poluem a vida coletiva. Essa expectativa é perigosa, falsa e opressora. É fundamental que tenhamos uma cidade democrática que reconheça que todos os corpos tem o direito de existirem nela. Infelizmente, não faltam exemplos práticos, no nosso dia a dia, de como o planejamento urbano não leva em consideração o envelhecimento de todos nós.
Prevalecendo condições adversas para a gente envelhecer na cidade, mesmo assim, as pessoas idosas não abrem mão de ocuparem os espaços públicos. Elas querem mais. Elas podem mais. Nós podemos mais. Quando uma senhora de 85 anos vai sozinha à padaria da esquina; quando um grupo de velhos amigos-velhos, jogam purrinha, na galeria do Calçadão; algo de especial e de diferente acontece no centro da cidade: a presença desses atores dá significado ao espaço, amplia a sensação da cidade como um lugar do encontro, o lugar de encontrar amigos para estarem juntos. Ou seja, a cidade se humaniza. Que tenhamos cada vez mais espaços na cidade para a gente se encontrar.
Por outro lado, é comum, também, entre nós, associarmos essa fase da nossa vida, que é o envelhecimento, à perda de contatos sociais. Muitas das vezes, é o ambiente da cidade que nos retira essa sociabilidade conquistada com a aposentadoria. Uma calçada irregular pode transformar o simples ato de caminhar em um grande risco de morte. Um transporte pouco acessível pode limitar a mobilidade de muitas pessoas idosas. O afastamento das pessoas, não vem, necessariamente, com a idade. Vem da negligência das políticas públicas (inexistentes). Envelhecer é uma condição de vida profundamente urbana. As pessoas idosas, como todos nós que envelhecemos, vivem nas cidades. Como em JF, onde somos mais de 100 mil pessoas 60+, aproximadamente 20% da população total da cidade.
Essa coluna vem como um lembrete para todos nós, de que a presença das pessoas idosas nos espaços públicos não deveria ser vista como uma anomalia social, como uma exceção; mas, fazer parte da dinâmica viva da cidade. Não, como vítimas de atropelamentos; não, como pessoas que sofrem vários tipos de violências, dentro ou fora de casa; não, como pessoas que enfrentam longas filas para o recebimento de seus benefícios previdenciários. As pessoas idosas tem o direito de usufruírem da cidade. É preciso urgentemente criar condições de cidadania para que elas não desapareçam do mundo público.
A cidade é delas também, com certeza. Elas tem o direito de continuar existindo – coexistindo – no espaço comum. Envelhecer, não é se afastar da cidade, ou melhor, é não se permitir ser afastado da cidade. Que cidade estamos construindo? Uma cidade que empurra seus cidadãos mais velhos para dentro de casa, assim, que seus passos desaceleram?. Ou uma cidade que aposta no encontro intergeracional – uma cidade para todas as idades – uma cidade que oferece uma infraestrutura segura, que entende que envelhecer faz parte do ciclo urbano?

