Ou faremos da cidade um território de cuidados ou aceitaremos transformá-la num espaço de segregação etária. Segregação de pessoas. Bolhas e mais bolhas de gente e de grupos. Teremos que escolher entre sermos uma civilização humana ou vivermos numa barbárie cotidiana. A pergunta não é se estamos preparados para envelhecer. A pergunta é: estamos dispostos a construir uma cidade que não abandone as pessoas idosas?
Na trajetória de construção da nossa vida, a forma como tratamos as pessoas idosas hoje revela, sem máscaras, o tipo de sociedade que estamos produzindo para depois. O envelhecimento pede passagem. E aí? Essa pergunta deveria ficar gravada nas paredes dos gabinetes das prefeituras e das câmaras municipais. Deveria estar colada nas leis orçamentárias, nas peças de planejamentos urbanos.
O envelhecimento das cidades, e a nossa, já soma mais de 100 mil pessoas 60+, não é uma nota de rodapé típica dos estudos acadêmicos: é um fato. Ignorá-lo é uma escolha política. A população idosa só tem recebido exclusões ao longo de sua história. JF terá de se re/inventar ou aprofundará suas próprias fraturas sociais. Planejar para a pessoa idosa não é favor, é dever constitucional. É política pública essencial. É justiça social. Uma cidade verdadeiramente democrática como desejamos ser, por aqui, é aquela que protege os mais vulneráveis.
Se ela falha com os seus idosos, ela falha com todas as pessoas. Porque a exclusão nunca se limita a um grupo: ela se espalha, contamina, endurece relações, empobrece afetos. Envelhecer é um ato profundamente político. Cada corpo que insiste em ocupar a rua (prova maior no carnaval), sentar na praça, atravessar a Avenida Rio Branco, reivindica um direito fundamental: o de pertencer.
O envelhecimento pede passagem. E aí?. Aí que precisamos rever a lógica do nosso desenvolvimento urbano. Substituir a obsessão pela velocidade – da correria – pelo compromisso com o cuidado. Trocar as relações sociais mercantilistas pelo bem-estar coletivo. Acessibilidade não é gasto. É investimento em humanidade. O envelhecimento pede passagem. E aí?

